Bom dia, ó mestre!

LIBERDADE
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa…
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…
16-3-1935
Fernando Pessoa

3 Comentários:
Esta "Liberdade" pode servir como retrato do autor. Pessoa está, inteiro, nestes versos e nunca é demais recordá-los!
É também o que eu penso, Impaciente Português. Dele, foi o primeiro poema que li. Foi, pois, com este poema que o descobri. E não há amor como o primeiro...
E olha que o Fernando também era António (Nogueira Pessoa).
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