Alberto Pitôrra, o Grande Arrais

A história de Sesimbra, no século XX, ficou marcada, aqui e ali, por episódios trágico-marítimos. Na década de noventa, por exemplo, foram fatais os naufrágios do Menino Deus e do Monte Santiago.
O mar, é sabido, tem tanto de inclemente quanto de generoso. Nele se pode esperar ganhar a vida ou, simplesmente, perdê-la.
Em «Trapo Azul», romance de Romeu Correia cuja acção se desenrola, em parte, em Sesimbra, a narradora, também ela sesimbrense, relata um naufrágio próximo da praia e, de seguida, faz crer ao leitor que os desígnios do mar, quaisquer que sejam, devem ser aceites com resignação.
Mas nem todos os homens pensam assim. Em Sesimbra, coube a Alberto Pitôrra, arrais da pesca do alto, dobrar o fatalismo do oceano.
Corria o ano de 1934. Na manhã de 9 de Abril, sete barcas saem para a pesca. Lêem-se os nomes nas proas: Boa Esperança, Perseguida, Nautilus, Já Sabes, Maria do Carmo III, Maria do Carmo IV e Maria Eugénia. O mar está sereno.
Já ao largo, a faina é interceptada por um temporal. São longas as horas, entre as cinco da tarde e as nove da noite. Sob olhares desesperados, quatro embarcações conseguem regressar. Momentaneamente, as vozes perdem o embargo e os corações rejubilam: Diamantino Caminhão, António Caminhão, Sebastião Pitôrra - irmão de Alberto - e Jorge Carvalho tinham posto os seus homens a salvo. Mas é incerto o destino dos demais, na lonjura da tormenta.
Colhidos pelo espectro da angústia, são centenas os circunstantes que aguardam no extremo poente da baía, no sítio da Angra. Alguns archotes irrompem nas trevas, mas é na oração, no fervor da prece, que a centelha da esperança se ilumina. As vozes erguem-se aos luzeiros do povo: a Senhora do Cabo e o Senhor Jesus das Chagas.
Pelas onze da noite retornam, por fim, as três naus de destino incerto, entre elas a Boa Esperança. A bordo desta última, de nome profético, vem Alberto Pitôrra. Sem o seu arrojo, sem a sua intrepidez, ter-se-iam perdido as vidas dos tripulantes das três embarcações. Rezam as crónicas que, ao leme da Boa Esperança, Alberto Pitôrra superara já a tormenta quando se apercebe de que, em águas próximas, duas outras barcas enfrentam sérias dificuldades. Se, com o seu motor de trinta e cinco cavalos, a Boa Esperança podia ser considerada, ao tempo, uma embarcação potente, o mesmo não se diria daquelas duas barcas. Governadas por Raul Encantado - cunhado de Alberto Pitôrra - e Alberto Tamanqueiro, as embarcações correm grande perigo, pois os motores, já de si pouco potentes, claudicam; e tudo parece perder-se.
Não olhando ao perigo, e como que por instinto, o grande arrais lança-se no encalço das duas barcas e acaba por rebocá-las. Momentos dramáticos: em dada altura, já no Cabo Espichel, e perto de um lugar rochoso, um cabo prende-se ao hélice da Boa Esperança - há que desembaraçá-lo. O motor pára, Alberto Pitôrra lança-se à água e liberta o hélice.
Uma eternidade depois, enfim o farol que anuncia Sesimbra. Heróica, estoicamente, Alberto Pitôrra lograra conduzir a bom porto as três embarcações. São quarenta e cinco as almas que acabava de negar à voragem da morte.
Sesimbra reconhecia em Alberto Pitôrra um herói - um herói guiado por Deus. Logo no dia seguinte, os próprios tripulantes das barcas organizam uma procissão em que são transportadas as imagens do Senhor Jesus das Chagas e de Nossa Senhora da Piedade. O povo, em silêncio profundo, segue-lhe os passos, pelas ruas da vila. A fé era grata.
O país reconhece os prodígios. O «Século Ilustrado», um ano decorrido, em página dedicada a Sesimbra, às suas belezas e aos seus heróis, enfatiza o feito do arrais do 9 de Abril, alertando, de permeio, para a falta que um porto de abrigo fazia aos pescadores.
Lapidar é a forma como o periódico nacional cristaliza o feito do arrais, de quem, significativamente, diz ser a única esperança dos pescadores para vencerem o mar: "A sua atitude serena e heróica é, e será sempre, um exemplo de valentia e estoicismo, de que a população de Sesimbra se ufana, não como vaidade, mas como símbolo." Um símbolo, acrescentar-se-á, de uma estirpe de homens que há muito enfrentava a ira de ventos e de marés, quer pescando o sustento do quotidiano, quer integrando a gesta dos Descobrimentos.
Em 1934, uma voz antiga ecoava, incendiando os arcanos de um povo. E o mar era submetido…
O mar, é sabido, tem tanto de inclemente quanto de generoso. Nele se pode esperar ganhar a vida ou, simplesmente, perdê-la.
Em «Trapo Azul», romance de Romeu Correia cuja acção se desenrola, em parte, em Sesimbra, a narradora, também ela sesimbrense, relata um naufrágio próximo da praia e, de seguida, faz crer ao leitor que os desígnios do mar, quaisquer que sejam, devem ser aceites com resignação.
Mas nem todos os homens pensam assim. Em Sesimbra, coube a Alberto Pitôrra, arrais da pesca do alto, dobrar o fatalismo do oceano.
Corria o ano de 1934. Na manhã de 9 de Abril, sete barcas saem para a pesca. Lêem-se os nomes nas proas: Boa Esperança, Perseguida, Nautilus, Já Sabes, Maria do Carmo III, Maria do Carmo IV e Maria Eugénia. O mar está sereno.
Já ao largo, a faina é interceptada por um temporal. São longas as horas, entre as cinco da tarde e as nove da noite. Sob olhares desesperados, quatro embarcações conseguem regressar. Momentaneamente, as vozes perdem o embargo e os corações rejubilam: Diamantino Caminhão, António Caminhão, Sebastião Pitôrra - irmão de Alberto - e Jorge Carvalho tinham posto os seus homens a salvo. Mas é incerto o destino dos demais, na lonjura da tormenta.
Colhidos pelo espectro da angústia, são centenas os circunstantes que aguardam no extremo poente da baía, no sítio da Angra. Alguns archotes irrompem nas trevas, mas é na oração, no fervor da prece, que a centelha da esperança se ilumina. As vozes erguem-se aos luzeiros do povo: a Senhora do Cabo e o Senhor Jesus das Chagas.
Pelas onze da noite retornam, por fim, as três naus de destino incerto, entre elas a Boa Esperança. A bordo desta última, de nome profético, vem Alberto Pitôrra. Sem o seu arrojo, sem a sua intrepidez, ter-se-iam perdido as vidas dos tripulantes das três embarcações. Rezam as crónicas que, ao leme da Boa Esperança, Alberto Pitôrra superara já a tormenta quando se apercebe de que, em águas próximas, duas outras barcas enfrentam sérias dificuldades. Se, com o seu motor de trinta e cinco cavalos, a Boa Esperança podia ser considerada, ao tempo, uma embarcação potente, o mesmo não se diria daquelas duas barcas. Governadas por Raul Encantado - cunhado de Alberto Pitôrra - e Alberto Tamanqueiro, as embarcações correm grande perigo, pois os motores, já de si pouco potentes, claudicam; e tudo parece perder-se.
Não olhando ao perigo, e como que por instinto, o grande arrais lança-se no encalço das duas barcas e acaba por rebocá-las. Momentos dramáticos: em dada altura, já no Cabo Espichel, e perto de um lugar rochoso, um cabo prende-se ao hélice da Boa Esperança - há que desembaraçá-lo. O motor pára, Alberto Pitôrra lança-se à água e liberta o hélice.
Uma eternidade depois, enfim o farol que anuncia Sesimbra. Heróica, estoicamente, Alberto Pitôrra lograra conduzir a bom porto as três embarcações. São quarenta e cinco as almas que acabava de negar à voragem da morte.
Sesimbra reconhecia em Alberto Pitôrra um herói - um herói guiado por Deus. Logo no dia seguinte, os próprios tripulantes das barcas organizam uma procissão em que são transportadas as imagens do Senhor Jesus das Chagas e de Nossa Senhora da Piedade. O povo, em silêncio profundo, segue-lhe os passos, pelas ruas da vila. A fé era grata.
O país reconhece os prodígios. O «Século Ilustrado», um ano decorrido, em página dedicada a Sesimbra, às suas belezas e aos seus heróis, enfatiza o feito do arrais do 9 de Abril, alertando, de permeio, para a falta que um porto de abrigo fazia aos pescadores.
Lapidar é a forma como o periódico nacional cristaliza o feito do arrais, de quem, significativamente, diz ser a única esperança dos pescadores para vencerem o mar: "A sua atitude serena e heróica é, e será sempre, um exemplo de valentia e estoicismo, de que a população de Sesimbra se ufana, não como vaidade, mas como símbolo." Um símbolo, acrescentar-se-á, de uma estirpe de homens que há muito enfrentava a ira de ventos e de marés, quer pescando o sustento do quotidiano, quer integrando a gesta dos Descobrimentos.
Em 1934, uma voz antiga ecoava, incendiando os arcanos de um povo. E o mar era submetido…
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A fotografia do Arrais Alberto Pitôrra, da autoria de Valdemar Capítulo, foi-nos gentilmente cedida por João Aldeia, autor do blogue "Sesimbra", a quem muito agradecemos.

4 Comentários:
Excelente texto, muito justo. Estou totalmente de acordo.
Grato pelas suas palavras, João. É um texto já com uns anitos, d'"Os Rostos do Tempo". "Roupa velha", portanto...
Não haverá por aí, num armário esquecido, mais "roupa velha"?
Esta ainda veste muito bem!!!
Caro Impaciente,
Ainda tenho alguns fatos no roupeiro. Com um ou outro remendo, hão-de chegar até ao Inverno...
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