Diário em Sesimbra (15)

CRISTO DA ESPERANÇA
Participei na quinta-feira, pela primeira vez, na festa do Senhor Jesus das Chagas. Católico praticante (passe o pleonasmo), estou habituado a manifestações religiosas desta índole. Impressionou-me contudo a fé do povo de Sesimbra e de quantos participaram nas cerimónias religiosas. Há ali uma devoção verdadeira à humanidade e à divindade de Cristo, que não deixa ninguém indiferente (excepto os dominados por preconceitos de vária índole).
A imagem do Senhor das Chagas, tal como é transportada no andor pelas ruas de Sesimbra, constitui uma figuração de síntese, inteira, da morte e da ressurreição do filho de Maria. De um lado o Cristo morto, conforme o classificou Fernando António Baptista Pereira, obra de notável e eloquente expressionismo flamengo; do outro a cruz florida, a lembrar as festas da Exaltação da Santa Cruz, que se celebram no início de Maio. De um lado a humanidade de um corpo sofredor, seguindo um linha franciscana; do outro a iconografia popular do "In Hoc Signo Vinces" do imperador Constantino e da rainha Santa Helena.
Esta devoção de síntese do povo de Sesimbra lembra-me um óleo flamengo do Museu das Janelas Verdes: um "Ecce Homo" dolorido e flagelado em que os espinhos florescem miraculosamente. Tudo prova que, para o cristão verdadeiro, não há Paixão sem Ressurreição, não há Dor física e/ou espiritual sem Esperança. Para mim, deste modo, o Senhor Jesus das Chagas sesimbrense será sempre também um Senhor da Esperança. A devoção de que é alvo assim o deixa entender.

1 Comentários:
Texto notável, Ruy! Pela análise e pela síntese.
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