sexta-feira, maio 05, 2006

Nocturnos (8)

NOITES DE CHUVA

Eu não sei, ó meu bem, cheio de graças!
Se tu amas no Outono – já sem rosas –
A longa e lenta chuva nas vidraças,
E as noites glaciais e pluviosas!…

Nessas noites sem luz, que – visionários –
Temos quimeras místicas, celestes,
E cismamos nos pobres solitários
Que tiritam debaixo dos ciprestes!...

Que evocamos os líricos passados,
As quimeras, e as horas infelizes,
Os velhos casos tristes olvidados,
E os mortos corações sob as raízes!...

Nessas noites, meu bem, em que desfeito
Cai o frio granizo nas estradas,
E tanto apraz, sonhando, sobre o leito,
Ouvir a longa chuva nas calçadas!...

Nessas noites, eléctricas, nervosas,
Todas cheias d’aromas outonais,
Que a tristeza tem formas monstruosas,
Como, num sonho, os pórticos claustrais.

Noites só em que o sábio acha prazeres,
– Tão ignorados dos cruéis profanos! –
E em que as nervosas, místicas mulheres,
Desfalecem, chorando, nos pianos.

Nessas noites, meu bem! é que os poetas
Têm às vezes seus sonhos mais brilhantes,
Folheiam suas obras predilectas…
- E evocam rostos… e visões distantes!

Gomes Leal

2 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Digamos que está aqui, perfeita, uma "visão" Leal!!!

11:03 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Uma visão "Leal" e fidedigna. Graças às "Claridades do Sul"...

11:29 p.m.  

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