quarta-feira, maio 03, 2006

Curtas (17)

Saramago

Quando o “Menino Deus” naufragou, o homem, induzido em erro quanto ao nome da malograda embarcação sesimbrense, deitou-se a fazer humor negro sobre os escombros da tragédia, numa entrada, datada de 9 de Janeiro de 1995, do 3.º volume dos “Cadernos de Lanzarote”, cujo teor passo a transcrever: “Duzentas e vinte milhas a nordeste de Lanzarote, o mar grosso meteu no fundo um barco de pesca português. Leio que, entre tripulantes marroquinos e portugueses, morreram vinte pescadores. O barco era de Sesimbra e chamava-se Menino de Deus. Têm-me dito que Deus e Alá estão em toda a parte, como é próprio de deuses. Não duvido que estejam, mas não salvaram os seus meninos.” Incomoda-me pouco a indigência filosófica que há no ateísmo do escritor. Incomoda-me mais a grosseira ironia que, caída das suas palavras, se abateu tragicamente sobre a memória destes homens, uns marroquinos, outros sesimbrenses. Espero que, depois disto, ninguém em Sesimbra se lembre alguma vez de homenagear o autor. E se isto ainda não chegar, proponho-vos a leitura da entrada que o Ruy Ventura publicou hoje na “Estrada do Alicerce”. Foi a propósito dela que me lembrei de escrever esta curta.

6 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Nunca fui apreciador do sr. em questão: não tenho qualquer prazer na leitura dos textos de Saramago!
Li o "Memorial do Convento"... e não gostei! Fui teimoso e li ainda "O ano da morte de Ricardo Reis", "O Evangelho segundo Jesus Cristo", "A História do cerco de Lisboa" e a "Jangada de Pedra". São todas obras anteriores à atribuição do Nobel, mas nem o prémio me fez mudar de opinião!
Lamento! Os "Cadernos de Lanzarote" não fazem parte da minha biblioteca e, pela amostra junta, ainda bem!

Como nota de rodapé:
As convicções do autor nada têm a ver com esta aversão!
Roger Vaillant e Jorge Semprun, por exemplo, são comunistas... e gosto de ambos!!!

1:59 a.m.  
Anonymous Anónimo said...

Pode não gostar da obra de Saramago. Confesso que não é o escritor português, vivo, que mais aprecio. Fico, no entanto, com a sensação que o meu caro não está a ser sério com a extrapolação que faz de uma citação do autor.

“Incomoda-me mais a grosseira ironia que, caída das suas palavras, se abateu tragicamente sobre a memória destes homens, uns marroquinos, outros sesimbrenses. Espero que, depois disto, ninguém em Sesimbra se lembre alguma vez de homenagear o autor.”

Neste seu comentário não entendo onde está a grosseira ironia de Saramago, atingindo a memória dos falecidos…
O seu apelo a que ninguém em Sesimbra homenageie este autor, lamento mas é patética.

Já me chega que a “intelectualidade” do PCP tente apagar nomes como Agustina, Alberto, Luiz Pacheco, Vasco Graça Moura, Pacheco Pereira …. e tantos outros… só porque politicamente estão noutro lado…

12:15 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

O anónimo das 12.15 PM parece (ou finge) não pereceber que não está aqui em causa a cor política do fulano nem a sua qualidade de escritor.
Olha-se apenas para o homem e o que vemos é abominável.

1:00 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Caro leitor das 12:15 pm,

É natural que possamos ter sensibilidades diferentes.
Pessoalmente, repugna-me muito que Saramago se tenha referido às vítimas mortais como "meninos", para fazer um trocadilho cujo mau gosto é para mim evidente. E é de uma evidência visceral...
Sou daqueles que acham que cada ser humano é único e irrepetível. Daí que, só por isto, a morte de qualquer homem seja, a meu ver, uma tragédia. E a morte de cem, ou mil, ou um milhão, continua a ser uma tragégia, não uma estatística.
Brincar com a morte, brincar com mortos, como Saramago fez, é profundamente lamentável.
E será bom lembrar que Deus também é, para os pescadores de Sesimbra, o Senhor das Chagas. Como hoje é 4 de Maio, estará tudo dito.
Se assim lhe não parecer, paciência.
Seja como for, é só a minha opinião. Cada um tem a sua.

1:06 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Estranho o azedume de Cagica Rapaz.

"Se este apelo é patético, como diz, fique-se com o Saramago, está em boa companhia..."

Claro que Cagica Rapaz, mesmo que quisesse, não pode impor a companhia de ninguém a ninguém. Penso aliás que Cagica Rapaz nem pretendia com o seu comentário impor fosse o que fosse.

Entendi antes, que quis defender e subscrever a opinião do seu amigo. Não lhe fica mal mas era desnecessário.

José Saramago, para mim está para a literatura como Manoel de Oliveira está para o cinema ou os Madre de Deus estão para a música, ou ainda como Maluda ou José Guimarães estão para a pintura. Não sou apreciador.
Mas não subscrevo nenhuma tese, repito, nenhuma, que apague a obra de nenhum destes autores, ou que em nome de uma qualquer moral ou sentido ético se fomente a sua exclusão.

Estou seguro que Cagica Rapaz não subscreve as teses que na ex URSS excluíam, deturpavam, minimizavam a obra de autores das mais diversas formas de expressão.


Anónimo 12:15PM

2:46 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Leitor das 12:15 pm,

Se atentar no que escrevi, há-de reparar que, na minha entrada, me limitei a dizer que esperava que ninguém em Sesimbra se lembrasse alguma vez de homenagear José Saramago. E fi-lo em consonância com aquilo que entendo ter sido, da parte do escritor, um tremendo borrão despejado sobre a memória daqueles homens, muitos dos quais sesimbrenses, desaparecidos de uma forma tão trágica.

Lembro-me bem da comoção profunda que a comunidade sesimbrense sentiu com esta desgraça. Aqui, trata-se apenas de aplicar a velha máxima: “Quem não se sente não é filho de boa gente”. A minha premissa (a péssima atitude do escritor) será sempre discutível. Mas, uma vez que, como hipótese de raciocínio, esteja assente, a conclusão correspondente parece-me razoável.

Faço-lhe, porém, notar que não propus que se submetesse a obra de José Saramago a qualquer índice expurgatório, ou que se votasse o escritor ao ostracismo. Ele tem de resto uma máquina promocional tão poderosa, e tão bem oleada, que tal desejo seria quimérico. Assim, se alguém em Sesimbra decidir promover uma qualquer sessão pública sobre a obra de José Saramago, com ou sem a sua presença, tal facto não me incomoda. Mas estará sempre muito longe de despertar o meu entusiasmo.

Na verdade, tal como o caro leitor, também não sou apreciador da obra de Saramago, e, no entanto, conheço razoavelmente a sua escrita romanesca e diarística (esta francamente má). É um escritor com algum talento, cuja medida será muito discutível, mas não é, nem de perto, nem de longe, um escritor de génio. Ou sequer um grande escritor. Já como pessoa, torna-se insuportável. E eu não creio que se consiga separar o homem do escritor. Por isso, não irei “gastar cera com tão ruim defunto”.

Peço-lhe que não veja nas minhas palavras ponta de azedume ou de acrimónia (já basta a azia que outros, baldadamente, pretendem atribuir-me). Simplesmente, o homem não me convém, e não me custa dizê-lo aqui.

5:46 p.m.  

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