sábado, abril 29, 2006

Perdidos & Achados (4)

Verdadeiro monumento literário, o “Diário” de Miguel Torga é um documento indispensável à compreensão do século XX português. A par de muita da melhor poesia do autor, e de inúmeros aspectos do seu pensamento, os 16 volumes desta obra dão-nos também a conhecer, aqui e ali, a sua faceta de médico, que está intimamente ligada ao ofício da escrita. A entrada que se segue, do Diário III, é disso um bom exemplo.

[Penicilina]

Coimbra, 1 de Fevereiro de 1945 – Penicilina. Lá ensaiei também a última panaceia que a ciência inventou. Um miúdo a arder em febre, o pus a estalar-lhe pelos ouvidos, e dores medonhas. Dantes, deitavam-lhe sobre a membrana do tímpano leite de parida, e era a cura radical. Agora, penicilina. Quando a fui buscar a casa de um doente onde havia sobrado, o pai do enfermo não queria largar mão do tesoiro. Tinha ali um talismã de saúde, e não o vendia nem o emprestava por preço algum. Estava bêbedo, e talvez por isso acreditava com uma força sobrenatural na magia da droga. A mulher, mais calma, interveio então, e lá me deram o santo viático. Em casa do meu doente esperavam a mexinga com orações. E eu injectei aquilo ao mesmo tempo humilhado e contrito. Por um lado, sabia que o fungo havia de ser ridículo daqui a cinquenta anos; por outro, era o máximo que o esforço, a inteligência e a esperança da humanidade tinham conseguido até hoje.

Ah! Gregos, gregos, que não acreditastes nas realizações! Que vos ficastes pela especulação, pela compreensão, pela beleza e pela saúde natural!

Miguel Torga

2 Comentários:

Blogger António Godinho Gil said...

Boa Pedro

Um dia conto-te a história do post no meu blogue que tu comentaste.
Entretanto, devo dizer-te que a especialista mundial em literatura inglesa Clara ferreira Alves não gosta do Torga e ridicularizou o M. Alegre quando o homenageou, durante a campanha eleitoral. Há casos assim...
Entretanto, a crónica do VPV hoje no "Público" é de leitura obrigatória.
Abraço

8:55 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Meu caro Gil,

Os gostos literários, por vezes, funcionam como axiomas, são de um rigor matemático absolutamente notável. Fico, pois, mais descansado por saber que a senhora não gosta do Torga, ela que, enquanto directora da Casa Fernando Pessoa, foi capaz de dizer que o lado religioso do poeta da "Mensagem" lhe não interessava e que, aliás, achava esse aspecto da sua obra, salvo erro, "detestável".
Tudo está certo...

Li, como de costume, o VPV.

Até breve.

Um abraço

9:02 p.m.  

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