quinta-feira, abril 27, 2006

O Museu das Janelas Verdes (4)


(continuação do texto publicado ontem)

Até há pouco, o Museu encontrava-se estagnado, parecia resignado a uma penúria crónica, resvalando perigosamente para o estado de mausoléu. A sua actual directora, depois do esplêndido trabalho desenvolvido no Grão Vasco, em Viseu, veio dar-lhe uma vida nova. É uma pessoa dinâmica, ambiciosa, competente, que está a fazer um excelente papel. Em pouco tempo, e sem grandes meios, o Museu está bem diferente, para melhor. Para começar, mudou o relacionamento com os visitantes. A propósito, recordo aqui alguns episódios que se deram comigo, vai para dois anos.

De uma vez, à entrada, comprado o ingresso, a funcionária pediu-me o roteiro que levava comigo, para me guiar na visita. “Tem de me deixar assiná-lo, senão podem pensar que o tirou da loja.” Debalde lhe fiz ver que o Museu não podia presumir em cada visitante um larápio. Afavelmente, retorquiu-me que não é habitual os visitantes levarem consigo o roteiro da visita. Hábitos de leitura! Mas hoje, divertido, conservo o autógrafo a lápis que me deixou no frontispício do volume…

De outra vez, numa altura em que, por falta de pessoal, algumas salas de pintura europeia tinham de fechar, aos fins-de-semana, à hora do almoço, um vigilante, fiado na cor do meu cabelo e na minha corpulência, aborda-me em inglês, referindo algo sobre o horário da visita. Confesso que levei alguns segundos a reconhecer-lhe o estatuto. Pelo meio, julgando-o turista, já eu me prontificava a confirmar-lhe que aquelas salas iriam, dentro de breves minutos, ser encerradas até às duas da tarde. Desfeito o equívoco de parte a parte, ficámos ambos visivelmente descorçoados. E dei comigo a pensar no estabelecimento desta presunção tão naturalmente aterradora que é a de um visitante de museu em Portugal ser estrangeiro até prova em contrário.
(continua)

2 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Também eu adoro o Meseu das Janelas Verdes e vou lá sempre que posso não só para me maravilhar com o espólio mas também para desfrutar do jardim, verdadeiro oásis, onde se pode almoçar bem e calmamente.
Sobretudo nos domingos de Verão é um achado porque, infelizmente para a cultura mas felizmente para mim, não está muita gente e é possivel deambular à vontade e depois almoçar sem atropelos.

10:55 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

O Jardim do Museu é, na verdade, um espaço de eleição. Concorre com o próprio Museu. Haverá quadro que se compare à tela marinha do Tejo e da barra, ou ao óleo impressionista da Arrábida a esfumar-se ao longe, para as bandas do Nascente?

É bem verdade que o Museu só tinha a ganhar se fosse ampliado. Parece-me que as hipóteses não são muitas... Só espero que tal nunca aconteça à custa do Jardim.

6:37 p.m.  

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