terça-feira, abril 25, 2006

O Museu das Janelas Verdes (2)

(continuação do texto publicado ontem)
De alguma forma, poderemos olhar para o Museu das Janelas Verdes como uma ante-câmara do Mosteiro dos Jerónimos. Depositário de alguns dos tesouros nacionais, o museu conta uma história, muito nossa, de ascensão, apogeu e declínio. Os Painéis, a Custódia, a Fonte Bicéfala, o Saleiro do Benim e os Biombos Nambam são testemunhos preciosos da emergência do Império. Quem procurar reduzir a expansão portuguesa a um mero fenómeno político e económico, terá, primeiro, que levar de vencida algumas destas peças.

Na minha maneira de ver, a obra de Domingos António de Sequeira (na imagem) é o outro grande pólo da exposição, no que toca às obras de significado nacional. A sua pintura, contemporânea da de Goya, subiu alguns dos degraus que levam ao altar da glória. Mas acaba por pagar um tributo pesado, vinda, como vem, de uma nação periférica e marítima. E, num agravo claro à escola portuguesa, lá estava, no Museu do Louvre, uma pintura de Sequeira – a “Alegoria à fundação da Casa Pia” – entre várias de Goya, em sala oficialmente consagrada à pintura espanhola. Pude vê-la em 2004. O “site” do Louvre dá-nos agora conta de que o quadro não está, de momento, em exposição.

Nalgumas das suas telas, Sequeira impressiona-nos sobretudo pela força do despojamento que há em toda a verdadeira melancolia. E nisto é bem português, como o será na expressão de espiritualidade que dimana da onírica “Coroação da Virgem” ou dos seus grandes desenhos religiosos. Os mais relevantes estarão patentes até ao próximo domingo, na exposição “Grandes Mestres do Desenho”, a que já aqui fiz alusão. Bem a propósito, com grande propriedade, o Ruy Ventura referiu-se há dias, na “Estrada do Alicerce”, à “luz intensa” das suas obras. E escreve: “Não sabemos de onde vem, mas não escapamos a ela, deixamos que ela nos penetre – e nos transforme.”
(continua)

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