quarta-feira, abril 26, 2006

A primeira vez

Será como alguns afirmam. Talvez não haja uma segunda oportunidade para causar uma boa primeira impressão. A verdade é que, ontem, o Presidente da República disse coisas com as quais todos – ou quase todos – nós concordamos. Disse o óbvio. Mal se compreende, por isso, que um canal televisivo – creio que a SIC Notícias – anunciasse para a sua edição da noite uma hermenêutica aturada das palavras de Cavaco Silva. Com fama e proveito de esfíngico, só nos faltava agora que os meios de comunicação social entrevissem na sua circunspecção o dom dos epigramas.

Com objectividade, Cavaco disse o que já se sabia. Que a pobreza e as desigualdades persistem, que a rarefacção do interior é um drama nacional. "É possível identificar os problemas mais graves e substituir o eterno combate ideológico por uma ordenação de prioridades, metas e acções." São palavras naturalmente suas. Pode parecer que é pouco, que não adianta muito. Mas, ao menos, até certo ponto, poupou-nos. Nem que fosse pelo tom. Não ajudou à missa laica. Já o apelo ao “compromisso cívico” para estancar as desigualdades é música celestial. Cavaco sabe disso. Mas alguma coisa tinha de dizer. Mesmo àqueles que, como eu, votaram em Manuel Alegre.

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