domingo, abril 30, 2006

O espírito do lugar (2)



















PORTUGAL SACRO-PROFANO
VILA DO CONDE


O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo Agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é vila do conde

Ruy Belo

5 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Só uma pergunta:
Um advogado com este gosto pela poesia... nunca teve vontade de mandar a toga às urtigas?
Aposto que sim!!!

6:27 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Ó Impaciente Português! E isso são lá perguntas que se façam aqui?!

Bom, digamos que há procurar a devida arrumação mental das coisas...

O Pascoaes escreveu um livro de memórias chamado "Uma fábula - o advogado e o poeta", onde dá conta de um conflito semelhante, e do qual sai triunfante a poesia. Sucede que eu não sou poeta. Falta-me esse argumento, e os outros de que o Dr. Teixeira de Vasconcelos também dispunha. Ser-se senhor da Casa de Pascoaes ajuda muito, dá outra margem de manobra...

Um abraço.

6:40 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Já agora, e a propósito: o Ruy Belo, católico progressista, doutorou-se em Direito Canónico. Mas voltou costas aos cânones e à própria Igreja...

6:43 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Conhecia a história de Ruy Belo!
Escrevi, durante algum tempo, em "A Bola", por onde ele tinha passado. A diferença está (não na fruta!) mas num "pormenor":
Ele era poeta; eu escrevia uns versos!

8:50 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Uma opinião muito minha: ele foi, provavelmente, o melhor poeta da segunda metade do século XX, em Portugal.

9:20 p.m.  

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