sábado, maio 06, 2006

Perdidos & Achados (5)

Conhecido, sobretudo, pelas obras de ficção que escreveu – é um dos grandes romancistas portugueses do século XX –, Vergílio Ferreira, habitualmente conotado com o Existencialismo, foi também um importante pensador (os seus próprios romances deixam-no entrever), legando-nos cerca de uma dezena de ensaios. “Pensar”, livro que veio a lume em 1992, quatro anos antes da sua morte, é verdadeiramente um diário com centenas de entradas – fragmentos que encerram ideias, reflexões e outros apontamentos de carácter especulativo. Alguns, como aquele que vos proponho, com o n.º 68, são virtualmente polémicos.

[As ruínas do comunismo]

Agora que o comunismo acabou, valerá a pena olhar o rasto das suas ruínas? Que rasto enorme esse, o da sua passagem. Mas ele foi o maior mito do nosso século e possivelmente o de sempre, exceptuado o cristianismo, de que é filho bastardo. Convertendo o hegelianismo na prática, com todas as deformações que se quiserem, o marxismo investiu de uma filosofia toda uma prática política em todos os sectores dela, adicionando-lhe como força o fanatismo de uma religião. Podia agora ter mesmo os seus mártires que são «semente de cristãos». Mas exactamente por isso o seu descalabro foi imenso quando falhou, porque envolveu não apenas uma política mas toda uma configuração da sociedade e do homem. Por ironia do destino, foi o método «científico» do marxismo que demonstrou que o marxismo era um logro. E a ciência era ao tempo de Marx a segurança indiscutível. Alguma coisa, porém, ficava de fora do seu bloco de cimento armado e era a própria liberdade humana que só dentro da evidência de uma crença não é uma opressão. E aí, o primeiro sinal de alarme foi dado pela arte. O equívoco dos artistas comunistas foi que eles eram livres apenas no dizer não, contra aquilo que desejavam combater, ou seja, contra o execrável do erro e da injustiça. Mas dizer «não» é ter a infinidade da recusa; e dizer «sim» é concentrar aí todo o positivo do que no negativo se recusava. Dizer «não» é abrir à rejeição toda a imensidade do mal. Mas opor-lhe um «sim» é fechar nele todo o bem contraposto a esse mal, ou seja pressupor que nada do inverso desse bem lhe ficava de fora. Ora o que ficou logo de fora foi a liberdade. E a sua falta sentida demonstrava que o comunismo não era a evidência de uma religião. Porque tal falta aí não é sentida, antes de se corroer e de ter de haver por isso uma Inquisição. E quem deu necessariamente o alarme foi quem a não podia dispensar por lhe ser consubstancial, ou seja, o artista. Mas sacrificada ela embora ao reputado essencial, e era a justiça socioeconómica, esse núcleo duro do sistema estalou também por fim e todo o logro se abriu. E o desastre universal é agora bem visível na devastação das ruínas que a ilusão provocou. Não apenas para os que se iludiram, mas para os que se opunham e tinham nela uma referência. O fim. O fim? Depois de um incêndio dominado há sempre ainda focos por apagar. Mas sobretudo há agora as razões do mito destruído que são antes de mais as da necessidade de que um mito exista; e depois, as de que exista um mais que nunca é bastante, sobretudo para os que não têm bastante.

Vergílio Ferreira

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