segunda-feira, maio 08, 2006

Quem sai aos seus...

Por vezes, nas caixas de comentários deste blogue, não dizemos tudo o que queríamos aos nossos leitores. Seja pelo imprevisto do estímulo, pela vontade de dar uma resposta pronta a quem nos interpela, ou simplesmente por nos faltar a necessária presença de espírito. Claro que podemos sempre voltar à liça, completar ou esclarecer aquilo que escrevemos. Já me tem acontecido. Mas há casos em que fica sempre algo por dizer.

De alguma sorte, foi isto que sucedeu no diálogo que mantive com um leitor, que preferiu não se identificar (é um direito que lhe assiste, tanto mais que usou comigo de inteira correcção), a propósito da minha entrada sobre Saramago, no passado dia 3.

Ficou então claro que eu e ele não atribuíamos a mesma gravidade às palavras do escritor galardoado com o Nobel, quando se referiu ao naufrágio do "Menino Deus". Cada um expôs os seus pontos de vista, ofereceu os seus argumentos, não cabe aqui retomar essa discussão.

Mas houve um ponto em que este leitor, num dos seus comentários, a dada altura tocou, e ao qual eu gostaria de me ter referido, sem que o tenha feito. Como mais vale tarde do que nunca, e como a entrada em apreço ainda não saiu de cena rumo aos arquivos, aproveito para reavivar a questão, que se me afigura interessante.

Considerando patético o meu apelo a que ninguém em Sesimbra se lembrasse de homenagear o autor dos “Cadernos de Lanzarote” (também sobre este ponto já cada um de nós disse o que tinha a dizer), acrescentava depois o referido leitor: “Já me chega que a “intelectualidade” do PCP tente apagar nomes como Agustina, Alberto, Luiz Pacheco, Vasco Graça Moura, Pacheco Pereira …. e tantos outros… só porque politicamente estão noutro lado…”

Aqui há por certo que distinguir. Uma coisa será os militantes – intelectuais, ou não – do PCP não lerem aqueles autores, pela simples razão de que com eles se não identificam. Convenhamos que nada há de mais lógico, nem de mais legítimo. Tal como os comunistas, eu não defendo a Arte pela Arte, não vejo nela um instrumento lúdico. Tal como eles, eu entendo que a Arte tem uma finalidade que transcende a busca do Belo. Significativamente, Platão dizia que a Beleza é o esplendor da Verdade.

Porém, ao contrário dos comunistas, que supostamente verão na Arte um propósito social, de natureza revolucionária, eu vejo nela um fim espiritual, maxime religioso. Olho para a Literatura como a suprema forma artística e entendo, segundo a lição de Álvaro Ribeiro, que a Literatura é expressão do Sagrado.

Daí ser muito pouco provável que empregue o meu tempo na leitura dos livros de Alves Redol, embora, por sinal, tenha nas estantes algumas obras suas, duas das quais edições princeps, que conservo como coisas preciosas, até porque as suas capas foram notavelmente ilustradas por Manuel Ribeiro de Pavia. Trata-se, no fundo, de uma questão de identidade intelectual, e de cada um dar livre curso às afinidades electivas.

Por outro lado, e em contraponto, não me causa estranheza que um leitor comunista não leia – ao menos com deleite – os romances de Agustina ou de Vasco Graça Moura, os poemas de Al Berto ou os “textos malditos” do Pacheco.

Uma vez que a Arte, tal como a entendo, é também, e sobretudo, pensamento, nada disto me faz confusão.

Diferente será o caso – e não sei se era nisto que o meu leitor estava a pensar – de em determinadas instâncias de poder – nomeadamente autárquicas – dominadas pelo Partido Comunista haver a tentação de projectar, sobre os serviços culturais, uma orientação ideológica que dificulte ou impeça, em razoáveis condições de igualdade, o acesso à obra de autores não comunistas, ou que negligencie ou boicote a divulgação desses escritores, sob o pretexto de pensarem de forma diferente – porventura antagónica. Fique já dito: a hipótese inversa é igualmente preocupante.

Não sei se há casos desses, mas admito que sim, e vindos de todos os sectores político-partidários. Serão naturalmente de deplorar. Pela minha parte, e embora pertença a uma família espiritual muito diferente, não deixarei de reconhecer interesse intelectual, valor literário e coragem cívica a autores como o já referido Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes, Fernando Namora, Carlos de Oliveira ou Manuel da Fonseca, sem esquecer esse nobre intelectual, tão próximo de Sesimbra, que foi Romeu Correia. E, mais nos nossos dias, como não referir aqui o tão respeitável romancista e crítico literário que é Urbano Tavares Rodrigues?

Já agora, e no campo da música popular, devo acrescentar que incluo Adriano Correia de Oliveira, José Afonso e Carlos Paredes entre os poucos nomes de génio que a música popular portuguesa tem tido. O mesmo valendo para Lopes-Graça no domínio da música erudita.

Tudo isto não me leva, porém, a dizer aquilo que não penso, isto é, que Saramago seja um grande escritor. Assim como nada disto me leva a retirar uma palavra ao que, fez há pouco onze anos, eu escrevi no “Raio de Luz” de 28 Fevereiro de 1995 (Sim, então, já eu escrevia nos jornais da terra! Sim, então, ainda eu escrevia no “Raio de Luz”!), na sequência do naufrágio do “Menino Deus”.

Na altura, não foi Saramago que verberei. Foi a Câmara Municipal de Sesimbra, que na capa do boletim municipal alusivo à tragédia, além de identificar pela matrícula a desditosa embarcação, reproduzia entre aspas a frase “Até amanhã, camaradas”, título de um conhecido romance de Manuel Tiago, aliás Álvaro Cunhal.

Hoje como ontem, considero chocante e intolerável esta atitude. Claro que isto não belisca Álvaro Cunhal como prosador de talento. Mas dá que pensar…

6 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Texto de grande qualidade e de perfeita estrutura, claro e objectivo, além de isento, como se deve.
Quanto à literatura comprometida (Sartre e Cia) ou planificada (URSS) não vale a pena perdermos mais tempo.
Agora, o "Até amanhã, camaradas" por ocasião da morte dos nossos pescadores, foi repugnante, miserável, mesmo.
Entre Saramago e Ezequiel, venha Estaline e escolha...

7:05 p.m.  
Blogger Ruy Ventura said...

Amigo Pedro, quanto ao Manuel Tiago ser um prosador apreciável, talvez assim seja, mas não nos esqueçamos que a prosa é apenas uma embalagem, que o produto em si na maior parte das vezes não passa de uma narrativa de propaganda dos ideais que defendia, bons ou maus.
Também gostei do esclarecimento de posições perante a literatura. Pessoalmente, posiciono-me ao lado de José Régio que, com os seus colegas da presença, combateu tudo quanto ameaçasse a liberdade do criador literário e artístico. Quem escreve ou cria arte deve ser sobretudo um mediador entre o mundo e o ser humano. Instrumentalizar a literatura ou a arte será sempre empobrecê-la.

5:37 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Amigo Ruy,

Nada a acrescentar ao teu primeiro parágrafo. Subscrevo-o.

Quanto ao que dizes no segundo, está visto que não temos exactamente a mesma visão das coisas, o que não tem nenhuma importância, uma vez que somos ambos pela liberdade.

Aceito que os criadores sejam mediadores entre o mundo e o ser humano, mas, na minha visão das coisas, a Arte deve igualmente, ou sobretudo, religar estas duas dimensões - a cosmológica e a antropológica - ao divino - à dimensão teológica, fechando a abóbada. Assim o requer uma filosofia que não prescinda das suas três ciências fundamentais.

É a consequência natural de se procurar seguir modestamente o pensamento de Sampaio Bruno - para quem é dever do homem libertar-se a si e libertar todos os outros seres - e de Pascoaes, para quem "o fim da Arte consiste em aperfeiçoar as almas e irmaná-las, em pô-las em relação com o Infinito, - com a sua origem transcendente."

Agora, esta é uma directiva estritamente pessoal, que não pretendo, de modo algum, impôr a ninguém. Mais: teria sempre estado ao lado de Régio - que, como bem sabes, é um dos poetas que admiro superlativamente - contra quem quisesse impôr por decreto ou pela força um qualquer fim à Arte. Esta é uma questão estritamente pessoal, e ai de quem pretender violar a liberdade de criação! Ponto final.

Algo ironicamente, Régio é um dos nossos maiores poetas do sagrado e eu tenho de novo justamente em mãos "As Encruzilhadas de Deus", que estou a reler. De Régio se pode dizer que ele foi verdadeiramente um livre-pensador, não no sentido do ateísmo, ou do agnosticismo, mas no de pensar livremente Deus. Sabes como, por temperamento e por formação, este valor me é caro. Está tudo dito na "Sarça Ardente": "Bendito sejas, Pai, louvado sejas!, / Em quaisquer livros, ritos, céus, igrejas."
Na impossibilidade de publicar no nosso blogue este extenso poema, desde há dias que andava a pensar em aqui deixar o poema de abertura das "Encruzilhadas - "Colegial", e já estava decidido a fazê-lo. Calhou agora esta tua interpelação com Régio pelo meio.. Serão coincidências. Acontece muito a quem se cruza n' "As Encruzilhadas de Deus"...

6:22 p.m.  
Blogger Ruy Ventura said...

A postura que assumo nada tem a ver com a poesia que escrevo ou que gosto de ler. Tem a ver com a necessidade absoluta de ecumenismo na arte e na poesia. Um poema ou uma quadro PODE ser tudo, mas não deve ser obrigado a ser coisa alguma. Hoje em dia, por exemplo, assistimos a uma vaga monopolista que defende o regresso do neo-realismo como realismo recauchutado, digo eu; chamam-lhe realismo imanente. Tem o direito de existir, como é óbvio; não pode ter é intenções monopolistas, como noutro tempo tiveram alguns próceres do realismo socialista. O mesmo acontece em relação a qualquer outra postura sobre a arte, seja lúdica, religiosa ou onírica. Os caminhos da arte são múltiplos, infinitos. Podemos pensar que alguns deles são perigosos ou sem-sal, mas têm o direito de existir. Devemos no entanto barrar-lhes o caminhos quando, como na política, desejam tornar-se em partido único.

11:55 a.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Meu caro Ruy,

Para fecharmos com chave de ouro(ou, quiçá, apenas continuarmos) esta tertúlia, cito algumas palavras de Pascoaes, numa entrevista que concedeu ao "Diário de Lisboa", em 25 de Janeiro de 1949, e na qual declarou explicitamente o seu apoio à eleição de Norton de Matos para a Presidência da República. Ora aqui vão:

"Há o problema da justiça e da liberdade; a justiça ligada ao pão do corpo igualmente dsitribuído; a liberdade ligada ao pão do espírito, isto é, o direito de cada alma comer aquele que for do seu agrado. Se os corpos têm uma só fome, não acontece o mesmo às almas. Fisicamente, somos todos iguais perante a fome, espiritualmente, diferimos uns dos outros. Se me contenta almoçar como toda a gente, não me contenta pensar como o meu vizinho ou dentro de qualquer regulamento."

Ou ainda: "É necessário que soprem livremente os ventos do espírito para que a vida intelectual se torne criadora e se considere que o único verdadeiro trabalho é o intelectual, o outro assume o aspecto de obrigatório, quer sob a pressão económica, ou então sob a fatalidade mecânica de qualquer máquina."

Creio que fica tudo dito. Ninguém tem o monopólio da luta pela Liberdade. Nem hoje, nem em 1949, ano em que esta entrevista foi concedida, nem em 1935, quando Pessoa escreveu os poemas que aqui publicámos no 25 de Abril. Liberdade, justamente. É também disso que fala Vergílio Ferreira, no texto que aqui deixei no sábado passado...

7:39 p.m.  
Blogger Ruy Ventura said...

Ora aqui está uma bela chave!

8:19 a.m.  

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