sábado, maio 27, 2006

Fragmentos (2)

De Portugal e a guerra e a orientação das novas gerações*
Utopias românticas, no campo literário, são inofensivas; são perigosas no campo social.
O nosso idealismo não é utópico. Representa a própria realidade elevada ao ideal, atingindo, sem mudar de natureza, uma forma superior. É este o verdadeiro idealismo que devemos opor à utopia.
O idealismo concorda com a natureza das cousas. Na utopia há hostilidade a tudo o que é. Utopia significa demência. O idealismo significa a tendência do imperfeito para o mais perfeito; a própria essência da Vida.
Às utopias dos nossos maiores que só acreditavam na Matéria, é preciso que suceda o verdadeiro idealismo: a crença no Espírito, como sendo o fim divino da Matéria!... A Necessidade tornando-se Liberdade. Todas as formas materiais, sofrendo e amando, atingem a expressão espiritual, liberta e redimida. Para que existem o sol, as estrelas, os mundos? Para que, um dia, a criatura humana, iluminando intimamente a noite de que descende, sentisse aflorar nos lábios a voz duma Oração. Para que o Universo, num vivo instante da sua eternidade morta, num lampejo de alma consciente, revelasse e concebesse, para além das suas trevas, o esplendoroso Reino de Deus. A luz do sol quis ser a luz dos olhos. O mar banhando a terra quis ser lágrima banhando um coração. A rocha bruta quis ser justiça, dor, amor, liberdade, o sonho, o ideal.
O ideal não é utopia, mas sim a própria realidade sublimada, a força moral que aperfeiçoa; é a carne e o sangue da esperança, a razão superior da vida, que lhe dá beleza e alegria.

Teixeira de Pascoaes

in A Águia, 2.ª série, n.º 36, Porto, Dezembro, 1914, pp. 161-168

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