quinta-feira, maio 25, 2006

Estou a dar-vos música!

Agora que as bandeiras voltam a despontar nas varandas e o país está de novo à janela por causa de um Europeu caseiro e de um Mundial na estranja, não faltarão os debates e as reflexões sobre o amor pátrio e o orgulho de ser português. Eu também me considero patriota e não vou dizer que não desejo o triunfo da nossa selecção. Mais sei que tudo isto mais não é do que um fogo-fátuo, que há-de morrer com o desalento causado pelas derrotas ou, na melhor das hipóteses (Deus queira que sim!), esmorecer com o esquecimento dos feitos dos nossos heróis, que a glória pode ser eterna, mas a festa, essa, não dura para sempre.

Mais tarde ou mais cedo, teremos, pois, de despertar para a realidade, que não é famosa. Mas eu sou dos que acham que os três “pês” não explicam tudo. Não me refiro aos famigerados de Braga, mas aos de Portugal inteiro, tido por um país pequeno, pobre e periférico. Não creio que isto seja uma fatalidade. A verdade é que, muitas vezes, tendemos a não dar o valor que é devido àquilo que faz parte do nosso património artístico e cultural. É preciso que venha alguém de fora legitimar a excelência do que nos pertence. Veja-se a última “Festa da Música”, que em Abril, em Lisboa, pôs em relevo, tal como acontecera meses antes, em Nantes, dois grandes compositores portugueses do período barroco, Carlos Seixas e Francisco António de Almeida, a par de nomes como Bach, Telemann ou Handel. Sobre isto, já aqui disse algo.

Entretanto, deu-se o caso de, no seu blogue “Sesimbra”, o João Aldeia, tirando partido dos amplos meios que a cibernética nos oferece, estar a divulgar pequenos trechos de grandes compositores e intérpretes portugueses no domínio da música erudita. Nos últimos dias, já por ali passaram Carlos Seixas (na imagem) e o Allegro do seu famosíssimo Concerto em Lá maior, parte de uma preciosa Toccata em sol menor de João de Sousa Carvalho e uma rara gravação da mítica Guilhermina Suggia, provavelmente a maior violoncelista de sempre, à altura do grande Pablo Casals.

Depois de um comentário que fiz à entrada sobre Seixas, o João, num gesto de grande nobreza, desafiou-me, por e-mail, para uma divulgação conjunta dos barrocos portugueses nos nossos dois blogues, prontamente me enviando, para o efeito, alguns endereços necessários. Na volta do correio electrónico, agradeci-lhe a sugestão, e prometi-lhe que iria fazer o meu trabalho de casa, começando por aprender os passos necessários à “montagem” dos ficheiros com os “clips” áudio. Sucede que a preguiça, os inúmeros afazeres e, sobretudo, uma certa inabilidade para a coisa ainda me não permitiram corresponder ao seu generoso repto. Disse-lho há dias e ele compreendeu.

Espero que agora o João me perdoe a inconfidência benévola e a demora na resposta ao seu convite. Este diz bem do espírito que procuramos cultivar na blogosfera, indo ao encontro das palavras de mestre Agostinho: cooperar, e não concorrer. Nos próximos meses, contamos promover, os dois blogues, conjuntamente, uma ou outra iniciativa. Por ora, e graças ao João Aldeia, tentarei dar-vos, de Carlos Seixas, um pouco de música. A interpretação é de Felicja Blumental ao piano. Ouçam!

3 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Música de Carlos Seixas... é sempre bem vinda!
Não sei se tenho a obra completa mas, se não tiver, CRAVO!!!

1:03 a.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Ao que julgo que saber, a obra completa de Seixas gravada é coisa que ainda não existe. Mas partes importantes da obra para tecla estão já disponíveis em CD. Creio que, recentemente, havia um projecto - não sei se do COnservatório Nacional - para a gravação de uma integral. Ainda não dei por ela...

7:20 a.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Caríssimo Impaciente e demais interessados,

Notícias de última hora:

Nem de propósito, acabei de descobrir hoje, na FNAC, que a etiqueta NAXOS iniciou há pouco a edição integral das sonatas para cravo de Carlos Seixas, tendo já saído o cd do 1.º volume.

A intérprete é brasileira, chama-se Débora Halász, e é simplesmente brilhante.

A NAXOS, que actualmente lidera o mercado da música clássica, organiza o seu já vastíssimo catálogo de forma metódica e sistemática, e consegue a proeza de conciliar grandes interpretações (com músicos menos conhecidos), gravações irrepreensíveis e preços quase imbatíveis. Este CD custou apenas 6,90 euros! Melhor, talvez só a Brilliant Classics, que nos consegue oferecer discos notáveis a 3,50 euros. A Deutsche Grammophon, a Decca e a EMI que se cuidem.
Para terminar, mais uma vez se prova que os estrangeiros fazem mais pela nossa música que nós próprios. Ou estarei enganado?

8:19 p.m.  

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