quarta-feira, janeiro 25, 2006

O triunfo do Barroco

Começou hoje, em Nantes, a 12.ª edição da Folle Journée. A versão portuguesa deste acontecimento, a já bem conhecida Festa da Música, realiza-se desde 2000, sempre no Centro Cultural de Belém.

O seu propósito é evidente e merece aplauso: divulgar a música clássica junto do grande público, proporcionando-lhe, em poucos dias, e a preços acessíveis, a fruição de muitos concertos e recitais, dados por grandes intérpretes.

Este ano (agora em Nantes e mais tarde em Lisboa) teremos uma festa dedicada ao tema “A Harmonia das Nações – A Europa Musical Barroca”.

Particularmente digno de nota é o facto de a escola portuguesa, representada por Carlos Seixas (1704-1742) e Francisco António de Almeida (1702-1755), ser uma das seis contempladas pelo vastíssimo programa da Folle Journée. As restantes são a alemã (Bach e Telemann), a inglesa (Handel e Purcell), a francesa (Rameau e Couperin), a italiana (Domenico Scarlatti e Vivaldi) e a espanhola (Nebra e Soler).

Mesmo sabendo-se que a Folle Journée tem uma relevante extensão portuguesa, não deixa de ser significativo que a organização francesa tenha decidido incluir, na sua programação, a par das grandes escolas musicais europeias, dois compositores lusitanos.

Algo surpreendente, mas garantida pelo insuspeito critério gaulês, talvez esta opção faça com que os portugueses comecem a encarar com outros olhos o seu património cultural, valorizando-o na justa medida em que a realidade no-lo consente, e pondo de parte o atávico servilismo que resulta da nossa estranha falta de amor próprio. Que o barroco nos sirva de mote. Vejamos, pois.

É bem verdade que Portugal não terá grande pintura barroca: Josefa de Óbidos foi a andorinha que não fez a Primavera. Depois da enigmática figura de Nuno Gonçalves e do valor que se reconhece à escola maneirista portuguesa (veja-se, em Sesimbra, a “nossa” tábua de Nossa Senhora da Misericórdia, atribuída a Gregório Lopes), seguiram-se quase dois séculos de apagamento da nossa pintura, a que só as obras de Domingos Sequeira e Vieira Portuense lograram pôr termo. Enquanto a Espanha, no seu século de ouro, dava à Humanidade mestres como Velásquez, Ribera, Zurbarán ou Murillo, as paletas portuguesas quedavam-se por uma produção muito secundária.

Mas o caso muda de feição quando se pensa na arquitectura. É também um autorizado e insuspeito francês, Germain Bazin, que, na sua “História da Arte”, afirma que “Portugal empreendeu, nos séculos XVII e XVIII, as suas mais belas realizações” nesta área. E oferece vários exemplos, espalhados por todo o território nacional.

Antes de Bazin, já Eugénio D’Ors, em “O Barroco”, aventara que, provavelmente, metade do sentido secreto da história espiritual europeia provinha de Portugal. Com efeito, se na Grécia se deve procurar a essência do classicismo, “Portugal oferece-nos o arquétipo do Barroco”, escreve o autor catalão, salientando o carácter madrugador da nossa arte na idade moderna, “a sua vocação naturalista, a supremacia da paixão sobre a razão, a turbulência dinâmica, a religiosidade panteísta e intensa – elementos que, apenas mais tarde, cristalizarão nos outros países”. Ao cotejar Nuno Gonçalves com Rembrandt e Velásquez, declarando-o, de alguma sorte, um precursor destes expoentes do barroco europeu; ao afirmar que “o que se chama “estilo jesuítico” tem um antecedente mais do que fraternal no estilo dito “estilo manuelino”; ao proclamar a “extensão colonizadora” deste último “através de terras de Espanha”, o imparcial autor catalão teria por certo noção das “heresias” que lhe seriam apontadas. Ainda assim, não hesitou em concluir: “Os eruditos de ontem trabalhavam para separar da arte mundial a arte portuguesa; os de hoje preferirão incorporar na arte portuguesa a arte mundial.” Que o seu destemor nos possa servir de exemplo…
(Imagem: Carlos Seixas)

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