Retratos dos artistas quando jovens (2)

Motel 6
(Junho de 2003)
Às primeiras páginas de “Descobri Que Era Europeia”, Natália Correia revela-nos, no rescaldo da viagem empreendida à América, uma “visão de contrastes e de agressivos antagonismos”. Soube disso pelo início de Agosto, ao folhear uma velha edição da Portugália à procura de referências para a viagem, que me levaria daí a dois dias a saltar o Atlântico.
Às primeiras páginas de “Descobri Que Era Europeia”, Natália Correia revela-nos, no rescaldo da viagem empreendida à América, uma “visão de contrastes e de agressivos antagonismos”. Soube disso pelo início de Agosto, ao folhear uma velha edição da Portugália à procura de referências para a viagem, que me levaria daí a dois dias a saltar o Atlântico.
Em 92, o António Ladeira partira para a Universidade da Califórnia, e ao longo de cinco anos, carta sim, carta não – alheios às comodidades do e-mail –, o assunto vinha à tona: atravessar os Estados Unidos, de ponta a ponta.
Por essa altura, o António preparava a mudança da UCSB para Yale, na Costa Leste. A decisão, tomámo-la na hora, ao telefone. Tão só, o tempo para a necessária tramitação burocrática: visto, passaporte, licença internacional de condução, bilhetes.
Creio ter chegado a Los Angeles no dia 6, depois de uma noite mal dormida nos assentos de Heathrow. Meia dúzia de dias em Santa Bárbara, atento aos estranhos hábitos californianos, a última entrega de livros no depósito bibliotecário da Universidade, uma passagem rápida por Isla Vist e descíamos a Ventura, conduzidos por um velho VW Jetta, inaugurando um ”costa a costa” através dos desertos da Califórnia e do Nevada, com Amália, Madredeus e Fausto no auto-rádio; a poesia e, inevitavelmente, Sesimbra e os amigos na conversa.
Chegávamos sempre de madrugada, de Motel 6 em Motel 6, dormíamos pouco, e voltávamos à estrada: 15, 70, 80, 95. De Las Vegas a Denver, de Omaha a Chicago: o fascínio do deserto e a imponência dos Cannyons, as tempestades fulgurantes do Nebraska e a geografia apertada do Colorado, as despidas cidades do interior, o centro colossal das capitais de Estado. E Nova Iorque, ao fim de seis mil quilómetros de estrada, a admirável Nova Iorque.
O António arrendou casa em New Haven, e pôs-se a preparar as aulas. Eu seguia num comboio da manhã para a Grand Central de Manhattan, uma cidade de carris sob a cidade. Subia os breves lanços de escada e perdia-me no coração do mundo. É tão impossível gostar da América como não gostar, escreveu Natália Correia no epílogo do seu livro de viagem.
Tal como ela, só através da América, descobri que era europeu.
O mais, é conversa de ocasião.
José Pedro Francisco

0 Comentários:
Enviar um comentário
<< Home