O ano de Mozart, Schumann e Shostakovich

O ano de 2006 revela-se pródigo em efemérides no domínio da música erudita. Temos os 250 anos do nascimento de Mozart (1756-1791), os 150 da morte de Schumann (1810-1856) e o centenário de Shostakovich (1906-1975). São três compositores geniais que viveram em três séculos distintos. Representam coisas diversas na história da música e, por uma razão ou por outra, têm um grande significado para mim.
Mozart, o divino Mozart, ganhou traços mitológicos no dealbar da minha adolescência. A primeira abordagem a uma peça musical séria (digamos assim, à falta de melhor expressão) fi-la com a audição do concerto para piano n.º 9, “Jeunehomme”, num disco de vinil da etiqueta Erato, com interpretações de Maria João Pires e da Orquestra Gulbenkian. Não foi uma revelação arrebatadora, nem a minha estrada de Damasco. Apenas a descoberta, perturbante e inesperada, de um universo que até aí eu menosprezara, e que de uma forma lenta, quase insidiosa, se me foi insinuando na alma, para desabrochar, já tardiamente, nas primícias dos trinta.
Mozart, o divino Mozart, disputa hoje, com Bach, Beethoven e alguns outros, um lugar cimeiro no meu coração musical. Na verdade, não consigo eleger o maior dos meus compositores. Limito-me a venerar os grandes, sem entregar a coroa de louros, ciente de que são únicos e irrepetíveis.
Toda a obra de Mozart é uma alegoria da eterna infância, ditada pelo génio da mais sublime das crianças, a seguir ao Menino Deus. Na sua música há algo de alígero, graça sem fim que a torna inconfundível perante qualquer outra criação, uma autêntica Primavera perpétua, apenas ensombrada, aqui e ali, por nuvens que, ao longe, dessoram melancolia. Conversa baldada, evidentemente: estamos no domínio do inefável.
Schumann. Tenho, para mim, que ele é o mais perfeito paradigma do Romantismo, uma das últimas escolas que fizeram a glória da Arte. Ele é o cume da montanha, a suprema altura das Riesengebirge dadas na tela de Friedrich, a exaltação poética da íntima comunhão com a Natureza, o apogeu da paixão, a fúria dos elementos, a medida do excesso – a que tragicamente se junta, no seu caso pessoal, o paroxismo sem regresso da Loucura.
Schumann não será o maior dos compositores, mas é o maior dos Românticos, e aquele a quem, mais gritantemente, na ara da fama, não foi ainda prestado o inteiro tributo que é devido à sua grandeza. Será Schumann o eterno relegado para segundo plano? Mas o quinteto para piano e os concertos para piano e para violoncelo são obras sublimes, as sinfonias e os quartetos de cordas verdadeiramente exemplares, e as sonatas para violino e as obras para piano preciosidades autênticas. Faltará porventura à obra de Schumann a dimensão monumental das de Bach e de Mozart, a audácia e o rasgo trazidos pela de Beethoven? Talvez. A obra de Schumann evoca os píncaros, não as cordilheiras.
Ainda hoje a obra grandiosa de Dimitry Shostakovich poderá parecer um milagre, se atendermos ao facto de ter sido criada na União Soviética, malgré Estaline, o Partido, a censura e a “auto-crítica”, apesar da atmosfera irrespirável que o comunismo impunha a qualquer criador que se pretendesse expressar livremente, fora dos estreitos ditames da visão oficial da arte, realista e revolucionária.
Apesar de tudo isto, apesar de uma vida quase sempre vivida no fio da navalha, Shostakovich deixou-nos um impressionante legado, nomeadamente com as suas quinze sinfonias e os seus quinze quartetos de cordas, dois dos maiores edifícios da música do século XX. Nacionalista e cosmopolita, tradicionalista e modernista, lírica e rude, a música de Shostakovich faz-se de sínteses que revelam bem as contradições do tempo em que viveu. Afinal, uma noite tão longa como tantas outras…
Mozart, o divino Mozart, ganhou traços mitológicos no dealbar da minha adolescência. A primeira abordagem a uma peça musical séria (digamos assim, à falta de melhor expressão) fi-la com a audição do concerto para piano n.º 9, “Jeunehomme”, num disco de vinil da etiqueta Erato, com interpretações de Maria João Pires e da Orquestra Gulbenkian. Não foi uma revelação arrebatadora, nem a minha estrada de Damasco. Apenas a descoberta, perturbante e inesperada, de um universo que até aí eu menosprezara, e que de uma forma lenta, quase insidiosa, se me foi insinuando na alma, para desabrochar, já tardiamente, nas primícias dos trinta.
Mozart, o divino Mozart, disputa hoje, com Bach, Beethoven e alguns outros, um lugar cimeiro no meu coração musical. Na verdade, não consigo eleger o maior dos meus compositores. Limito-me a venerar os grandes, sem entregar a coroa de louros, ciente de que são únicos e irrepetíveis.
Toda a obra de Mozart é uma alegoria da eterna infância, ditada pelo génio da mais sublime das crianças, a seguir ao Menino Deus. Na sua música há algo de alígero, graça sem fim que a torna inconfundível perante qualquer outra criação, uma autêntica Primavera perpétua, apenas ensombrada, aqui e ali, por nuvens que, ao longe, dessoram melancolia. Conversa baldada, evidentemente: estamos no domínio do inefável.
Schumann. Tenho, para mim, que ele é o mais perfeito paradigma do Romantismo, uma das últimas escolas que fizeram a glória da Arte. Ele é o cume da montanha, a suprema altura das Riesengebirge dadas na tela de Friedrich, a exaltação poética da íntima comunhão com a Natureza, o apogeu da paixão, a fúria dos elementos, a medida do excesso – a que tragicamente se junta, no seu caso pessoal, o paroxismo sem regresso da Loucura.
Schumann não será o maior dos compositores, mas é o maior dos Românticos, e aquele a quem, mais gritantemente, na ara da fama, não foi ainda prestado o inteiro tributo que é devido à sua grandeza. Será Schumann o eterno relegado para segundo plano? Mas o quinteto para piano e os concertos para piano e para violoncelo são obras sublimes, as sinfonias e os quartetos de cordas verdadeiramente exemplares, e as sonatas para violino e as obras para piano preciosidades autênticas. Faltará porventura à obra de Schumann a dimensão monumental das de Bach e de Mozart, a audácia e o rasgo trazidos pela de Beethoven? Talvez. A obra de Schumann evoca os píncaros, não as cordilheiras.
Ainda hoje a obra grandiosa de Dimitry Shostakovich poderá parecer um milagre, se atendermos ao facto de ter sido criada na União Soviética, malgré Estaline, o Partido, a censura e a “auto-crítica”, apesar da atmosfera irrespirável que o comunismo impunha a qualquer criador que se pretendesse expressar livremente, fora dos estreitos ditames da visão oficial da arte, realista e revolucionária.
Apesar de tudo isto, apesar de uma vida quase sempre vivida no fio da navalha, Shostakovich deixou-nos um impressionante legado, nomeadamente com as suas quinze sinfonias e os seus quinze quartetos de cordas, dois dos maiores edifícios da música do século XX. Nacionalista e cosmopolita, tradicionalista e modernista, lírica e rude, a música de Shostakovich faz-se de sínteses que revelam bem as contradições do tempo em que viveu. Afinal, uma noite tão longa como tantas outras…
P. S. - Em Portugal, assinala-se os centenários de Fernando Lopes-Graça (1906-1994) e Armando José Fernandes (1906-1983).

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