domingo, janeiro 08, 2006

Ruy Belo: Sesimbra e Ventos

Por vezes, os jogos de palavras dão em coisas muito sérias.
Sirva uma fugaz referência a Sesimbra de pretexto para a publicação de "Mudando de assunto", esse tão desolado poema de Ruy Belo, retirado do seu livro "Homem de Palavra[s]", o mesmo onde se revela "O valor do vento".

MUDANDO DE ASSUNTO

Entramos no inverno longo túnel
A noite cresce como a orla da maré
numa manhã de mar e neblina
Nunca mais saberei quem passou no corredor
Estendo-te a mão por cima destes séculos agrippa d'aubigné
Se eu pudesse lutero fazer alguma coisa por ti
Assim recordo apenas múltiplas cadeiras onde me sentei
e aquelas coisas todas que esqueci
Alguém alguma vez pela vidraça de um café
me terá visto e terá querido ser quem sou?
Pintaria matisse a dança II
alguém leria a trilogia das barcas
«Foi assim que voltei para frança»
Para onde voltaste verdadeiramente erasmo?
Estou tanto na velhice como nestes dias
compro o meu sono em comprimidos na farmácia
juro que nunca vi a invencível explosão das folhas
e choro tudo o que passou só porque fui capaz
Eu não dispenso a morte eu quero morrer muito
levar de uma só vez aquilo que me leva
e ficar a esquecer no meu mais puro espanto
Não perguntem quem sou
Neste momento em que recordo e escrevo
Alguma parte minha banha agora
o mar mediterrâneo do verão?
Farão ski em sesimbra ao fim da tarde
ou em vila do conde uma certa manhã?
E uns olhos azuis no comboio para versalhes?
E que fazer agora destas mãos
da cara que mostrar todos os anos par?
Entramos no inverno. Quantos são?
Tenho uma vasta obra publicada
e tenho a morte em preparação


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O VALOR DO VENTO

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

Ruy Belo

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