Omar

“O que resta de uma urbe é o olhar desprendido que sobre ela tiver pousado um poeta meio ébrio”.
Amin Maalouf colocou esta frase na boca de Omar Khayyam para exprimir a decepção e o desencanto que sentiu quando regressou a Samarcanda, cidade que inspirou o romance com o mesmo título e do qual Omar é o herói. Omar Khayyam nasceu na Pérsia, em 1048, foi poeta, astrónomo, sábio, príncipe dos filósofos. Amin Maalouf a escrever sobre Omar é um poeta a contar a vida de outro poeta, com sensibilidade, ternura, admiração e talento, a meio caminho entre o historiador e o romancista. Omar é o autor do “Manuscrito de Samarcanda”, que contém poemas simples, roboyat sobre o vinho, a beleza da vida e a sua vacuidade. Omar apenas precisava de um observatório com um grande sextante de pedra e alguns instrumentos. E tinha a noção lúcida de que dos seus poemas nada restaria, apenas cacos, detritos, fragmentos. Dir-se-ia que adivinhava que, quase novecentos anos mais tarde, o seu manuscrito acabaria sepultado no mar, nas entranhas do Titanic que se afundou na noite de 14 para 15 de Abril de 1912, ao largo da Terra Nova.
Aqui mais perto, aqui entre nós, o que resta da nossa urbe, do que conhecemos há trinta ou quarenta anos?
Quando olhamos à nossa volta já não encontramos traineiras nem barcas ancoradas em frente da fortaleza; armações em comboio de regresso do largo; passadiços bordejados por algas; a estrutura sombria do Numância; as ruas enfeitadas a cheirar a alecrim e a polvo assado; o sortilégio do carnaval de mil feitiços; um mar rico em peixes e mariscos pescados quase na borda d’água; um tempo tranquilo numa terra pachorrenta onde se vivia em paz e com alegria.
O que resta da nossa urbe é o olhar melancólico que alguns teimosos palermas, como eu, teimam em pousar sobre Sesimbra, tentando descobrir, desenterrar, trazer à superfície restos de beleza, de poesia, do encanto do passado. Se quisermos ser realistas, não precisamos de observatório nem de sextante para detectar a monstruosidade do porto de abrigo, a destruição criminosa que as pedreiras continuam a fazer, a aflição que é a ETAR, o trânsito medonho, o ruído alarve, o lixo na vila e no campo, a construção sem traça nem carácter, o grotesco de um carnaval parolo e deslocado, o drama da falta de peixe, etc.
A nossa urbe é, afinal, como a imensa urbe que é este país, pimba, de mau gosto, das crianças amestradas para fazerem perguntas idiotas e cantarem desajeitada e tristemente na televisão, macaqueando adultos pirosos. É uma urbe sem urbanidade, sem outros valores que não sejam o dinheiro, a ostentação, a ganância, a insolência, o rei na barriga.
Continuamos a não perceber que a vida é curta, frágil, e está condenada à extinção, como o peixe do mar e dos rios que poluímos, como o ar que envenenamos, como as florestas que queimamos e derrubamos, como a água que estragamos com o nosso egoísmo, a nossa estupidez e a nossa maldade.
De facto, só poetas meio ébrios poderão pousar um olhar, mesmo que desprendido, sobre esta nossa degradada urbe.
Mais vale ficar a ler Omar, a ver o mar…
António Cagica Rapaz

5 Comentários:
O lixo, a poluição, a construção sem traça, são as desvantagens do "progresso".
Concordo com muito do que foi dito, mas não podemos esperar que Sesimbra se mantenha no passado.
Pode ter perdido o seu charme de pequena vila piscatória, mas ganhou em abertura para um mundo em que nada é totalmente perfeito, com vantagens e desvantagens.
A questão é ou vivemos essa realidade ou acreditamos na utopia.
Concordo consigo, a minha visão é apenas um pouco diferente, eu não discuto o seu texto, que é belíssimo e inatacável. E penso também que a grande riqueza e beleza de Sesimbra são essas pessoas de que fala, as pessoas boas, que a olharam e a mantêm intacta no seu pensamento.
Apesar da melancolia , quem pode discordar dos inumeros atropelos que a nossa Sesimbra tem sofrido de então (anos 50/60) para cá em nome de um "progresso" que só beneficiou a vaidade de alguns e os bolsos de outros ...
Por onde andastes gaivotas perdidas nestes últimos oito anos de salutar devastação desta nossa urbe?
Onde estava a vossa veia critica que nunca se ouviu?
Talvez escondidos num qualquer barracão, onde outrora foi “Aldeia de Macacos”?
Que pena não terem soltado as vossas vozes, indicando caminhos a quem vos ia comprando com … e ventos.
Foi pena. Porque Sesimbra passou por um período de acidente histórico, que irá continuar, com outro patetinha, tão bom rapazinho como o outro.
Aliás foram todos tão bons rapazinhos.
Lourdes
Como o leitor anónimo que comentou o texto "Omar", de António Cagica Rapaz, o fez referindo-se a uma pluralidade de pessoas, sinto-me autorizado a responder-lhe, sem prejuízo do que os meus colegas entendam fazer.
Serei breve e dir-lhe-ei apenas que tenho muito orgulho de tudo aquilo que fiz nos últimos oito anos da minha vida, como aliás em todos os anteriores.
Tanto assim é que, neste blogue, à semelhança de todos os meus colegas, me apresento com o meu verdadeiro nome.
E quer-me parecer que "escondido", neste lamentável episódio, só estará mesmo o leitor, que se acobertou no anonimato - não na "Aldeia dos Macacos", mas ainda assim dentro do Jardim Zoológico. No Reptilário...
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