Retratos dos artistas quando jovens (1)
O amigo americano
(Maio de 2004)
As coisas querem-se claras desde o início e a verdade é que eu não gosto, nem por sombras, dos Estados Unidos da América.
(Maio de 2004)
As coisas querem-se claras desde o início e a verdade é que eu não gosto, nem por sombras, dos Estados Unidos da América.
Haverá quem admire um país que se arvora em farol da civilização e onde, ao mesmo tempo, a maioria dos estados federados que o integram lança mão dessa coisa bárbara chamada pena de morte. Não é o meu caso. E sempre vou dizendo que, se prestarmos atenção aos dados da Geografia, surpreendemos uma tendência muito esclarecedora: com excepção de alguns, poucos, estados situados no nordeste, o hediondo castigo tem curso legal em quase todo o território norte-americano. Quem se lembrar de que, historicamente, foi o norte da União que logrou abolir a escravatura, pode ser levado a estabelecer paralelismos mais ou menos inquietantes...
Teria o seu quê de oportuno, por actual, engrossar o coro de protestos que as denunciadas torturas e sevícias perpretadas por americanos e ingleses fizeram despontar por esse mundo fora, o mesmo orbe que, meses a fio, vem clamando contra a invasão do Iraque.
Todavia, prefiro indagar o que leva esta gente espantosa, que elegeu de forma duvidosa a sinistra figura do seu actual presidente e mantém em Guantanamo um dos cativeiros mais ignominiosos de que há memória em décadas recentes, o que leva esta gente, dizia, a elaborar periodicamente severos relatórios sobre direitos humanos onde não hesita em apontar o dedo às faltas alheias. À míngua de espelhos em casa, sobejam-lhe, sem pudor, as indiscrições do Echelon, sistema de espionagem com que os americanos e seus parceiros anglo-saxónicos interceptam as nossas comunicações em qualquer ponto do planeta, numa clara comprovação histórica do Grande Irmão profetizado por George Orwell.
E, como se tudo isto não bastasse, os americanos ainda arranjaram maneira de nos levar, daqui de Sesimbra, o António Ladeira!
Um dia, há cerca de uma década, o Tozé partiu para a Califórnia. A oportunidade surgiu e ele, bem avisado, não olhou para trás. Conhecendo-lhe, desde a adolescência, a extrema inteligência precoce e um apurado bom gosto em tudo quanto dissesse respeito às artes e letras, nem por um minuto duvidei de que seria bem sucedido. A vocação voltou a falar mais alto, e com a mesma decisão com que derivara de Comunicação Social para o curso de Línguas e Literaturas Modernas – Variante de Estudos Portugueses, que concluiu com brilhantismo, o António largou o mestrado que entretanto iniciara na Faculdade de Letras e atravessou o Atlântico. Foi para a Universidade de Santa Bárbara, onde deu aulas e veio a doutorar-se em Línguas e Literaturas Hispânicas com uma tese sobre a literatura de Herberto Helder. Mais tarde, passou por Yale, onde foi leitor de Português, e está agora numa universidade do Texas.
Entre publicações nacionais e estrangeiras, tem, como ensaísta, inúmera colaboração dispersa por jornais e revistas. Recentemente colaborou nessa monumental – e também polémica – recolha que é o “Século de Ouro da Poesia Portuguesa” (editada no âmbito de Coimbra 2003 – Capital Nacional da Cultura), onde assinou um estudo notável sobre um dos mais belos poemas que algum dia me foi dado ler: “Fonte”, de Herberto. Esta circunstância diz muito da sua autoridade…
Talvez por estar fora e estar longe – ou por estar de fora –, o António não viu ainda reconhecido o seu mérito como poeta, não obstante ter publicado dois livros excepcionais: entre a beleza feroz de “Todas as Línguas São Estrangeiras” e a ousadia experimental de “A Minha Cor Favorita é a Neve” ficam algumas das páginas mais interessantes da moderna poesia portuguesa, num estilo poderosamente original e pouco atreito a modas.
Mesmo à distância quase infinita a que se encontra de nós, “Tony Lad” parece não esquecer que o Atlântico é o mesmo mar dos dois lados do nosso mundo e talvez por isso arranje maneira de amiúde discretear sobre esta sua Sesimbra, dedicando-lhe, sempre que pode, a veia opinativa, a um tempo atenta e polémica, incisiva e sarcástica, que faz a demonstração clara do seu grande talento.
Quando, há alguns meses, li pela primeira vez o artigo “Para que serve o ar condicionado?”, que o António publicou na última “Eventos”, dei comigo a pensar que há muito lhe devia um texto como este que agora me preparo para assinar. Os elogios em catadupa entretanto dirigidos a essa crónica do Tozé fizeram com que me apressasse. De resto, parece que ele está a chegar. E é já este mês…
Pedro Martins

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