domingo, janeiro 22, 2006

Uma crónica de Joaquim Penim

Joaquim Manuel Penim passa, a partir de hoje, a colaborar no "Sesimbra e Ventos".
E, já que no passado dia 17 se completaram 35 anos sobre o seu regresso da guerra colonial, o autor de "No Planalto dos Macondes - C. Caç. 2448" entendeu por bem recordar-nos como esta sua involuntária aventura africana começou, em Outubro de 68.

A viagem

Duas malas e dois sacos bastaram para meter todas as coisas…
Na cabeça, mil e uma recordações de 23 anos de vida…
No coração, o amor de familiares, numa amálgama de angústia e de esperança…
Dos olhos, brotavam lágrimas esbatendo as imagens dos que ficavam no cais, acenando, longe, cada vez mais longe, imensamente longe.
Decorria o dia 21 de Outubro de 1968 e o velho “Niassa” vogava em direcção a Moçambique, numa viagem diferente de tantas outras, apenas porque esta era a minha.
Madeira!...
Funchal!...
O mar, imenso mar…
E calor, e humidade e despertar para uma realidade, a das diferenças sociais e de tratamento, que na tropa mais se acentuava, independentemente de se ir num mesmo navio e, possivelmente, para uma mesma guerra. Refiro-me a tudo, mas muito concretamente às instalações, no respeito a que todo o ser humano deveria ter direito.
Haviam decorrido alguns dias e, desde que nos avizinhámos do Golfo da Guiné, que estranhava a colocação no mastro da proa de uma gigantesca manga de oleado, que entrava pelo porão da proa. Ao mesmo tempo, estranhava também a proliferação, pelo convés, de inúmeros colchões onde uma boa parte dos soldados dormiam.
- Está calor lá em baixo, disseram-me aqueles que eu então questionei. Era uma razão, devo ter pensado, ou disse, não me lembro. Mas lembro-me perfeitamente que, quando estive de Sargento de Dia ao navio e tive que descer ao porão onde estavam instalados os soldados da minha Companhia, percebi essa razão. O acesso a esse porão, o primeiro da proa e aquele que melhores condições apresentava para quem ia para tão longe, fazia-se por uma escada íngreme. Ao quarto, quinto degrau, um cheiro nauseabundo já se fazia sentir, um misto de suor, urina, vomitado e fezes, impossível de caracterizar.
Lembro-me que parei e os soldados que iam comigo pararam também, porque devo ter vacilado, devo ter manifestado vontade de não continuar. No primeiro patamar existia uma prisão, sim, porque havia gente em regime de prisão, como se ir naquele navio não constituísse por si só uma perda de qualquer conceito de liberdade. Não desci mais. Visitei apenas o porão da minha Companhia e fiquei com a noção, em absoluto, das condições sub-humanas em que iam instalados, sobretudo todos os que iam nos restantes dois pisos que ficavam bem no fundo do navio.
- Furriel!, lá em baixo falta o ar…, disse-me um dos soldados.
Percebi o porquê da longa manga de lona e relacionei todo aquele ambiente com a falta de chuveiros, cagadeiras, refeitório, bar e local de convívio para os soldados que iam naquele navio.
Luanda!... Puxa!, depois de tanto mar, Luanda foi um sonho. E lá estava o meu amigo Ricardo, que, num forte abraço, simbolizou o reencontro com a nossa terra, familiares e amigos.
- Adeus amigo, até sempre!, e lá fui de novo mar fora.
Cruzamo-nos com o “Vera Cruz”, ao largo do Cabo, que transportava tropa de regresso a casa. Assustei-me com o estridente apito que soou do “Niassa”, com imediata resposta do “Vera Cruz”. Era o cumprimento, era Portugal que se cruzava num mar que já fora seu, resgatado ao Adamastor. A portugalidade passou então pelo meu espírito…
Em Lourenço Marques revi conterrâneos e amigos, o Zé Augusto e o João Galo e as respectivas famílias e os primos Taklim.
Não gostei de ver, enrolados em mantas da tropa, negros deitados no poial das portas, fazendo segurança às casas dos seus senhores. Também não gostei de ver e sentir a arrogância com que uns senhores trataram um negro que limpava o Café Scala.
Na cidade da Beira, fui eu que senti a arrogância e o sarcasmo de uma família do concelho e assídua de Sesimbra, quando ostensivamente me ignoraram. Não gostei!, e hoje, vejo-os por cá e ignoro-os, ostensivamente…
Nacala! Constituiu para mim a antecâmara dos infernos. Encontramo-nos com os militares da 4.ª Companhia de Comandos que transpareciam, na maneira de vestir, falar e proceder, uma realidade dantesca que jamais imaginara. Cantavam mortes e tragédias, atrocidades e vinganças, sarcasticamente, desumanamente.
Em Mocimboa da Praia, franquearam-nos as portas do inferno…
Despejados numas barcaças, fomos flanqueados por tubarões, ao encontro do nosso último porto, o de desembarque.
- Atenção ao saltar!, gritavam uns que estavam no pequeno cais.
- Agarrem as vossas coisas…, gritavam outros.
No olhar de uns e outros lia-se um sentimento de pena daqueles que acabavam de chegar.
O tempo deixara de contar. Andei, debaixo de chuva, carregado, em rebanho, sem pensar, tropeção após tropeção, até chegar a um campo de futebol, onde me entregaram uma espingarda G3 e dez munições. Comemos rações de combate e entregaram-nos mais duas para os próximos dias, desejaram-nos sorte e…, boa noite. Não me lembro de dormir. Encostado à roda de um carro e alheio, até à própria chuva que me fustigava o rosto, ali permaneci, vazio, completamente vazio.
Amanheceu cedo e rapidamente me vi sentado num Unimog.
Andamos quilómetros e quilómetros e comemos pó.
Entramos em Mueda por uma larga avenida de terra batida.
- Meu Deus! Estupefacto, abano a cabeça, fecho e abro os olhos e fixo-os bem num pedaço de madeira e releio em voz alta:
- Sesimbra – Praia a 3 Kms.
O resto do caminho, até ao Batalhão onde iríamos pernoitar e enquanto me foi possível, foi percorrido olhando para trás na tentativa de fixar bem aquele local. O meu coração batia descompassadamente, na expectativa de poder ver ali, tão longe, alguém que eu conhecesse. Não descansei enquanto não fui àquele local e pelo caminho achei que já não era importante conhecer ou não quem tinha colocado tal letreiro. Era certamente alguém, como eu, saudoso da sua terra e das suas gentes que via naquele letreiro a forma de se achar apenas a uma curta distância daquilo que mais desejava, estar em casa.
- Eh! Amigos! Quem é o dono daquele letreiro?, perguntei para um grupo de militares.
- Eh! Pá! Sesimbra!, gritou uma voz.
Foi assim que conheci o Diniz e senti uma nova forma de ser sesimbrense e solidário num sentimento de saudade, que transpareceu até no semblante de todos aqueles que nos circundavam.
Manhã cedo, retomamos a caminhada…
Miteda foi a primeira paragem desse dia.
Mais quilómetros de saltos e sobressaltos, uma enorme cruz no lado direito da picada – o Cruzeiro, uma curva para a direita, um cemitério no lado esquerdo e, lá ao fundo, uma igreja sobressaía de um conjunto de casario, outrora designado por Missão.
Era Nangololo, o nosso destino, e decorria então o dia 23 de Novembro de 1968.

Joaquim Penim
(Originalmente publicado em "Sesimbra Eventos", n.º 25, Junho-Julho de 2003)

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