As últimas palavras
Quando, anteontem, aqui (re)publiquei o meu artigo “O amigo americano”, no qual, além de falar do António Ladeira, digo o que penso sobre os Estados Unidos da América, não sabia que, nesse mesmo dia, Clarence Ray Allen completava 76 anos de vida. Clarence Ray Allen era um homem cego, surdo, preso a uma cadeira de rodas, padecendo de diabetes e de graves problemas de coração (em 2 de Setembro passado, um ataque cardíaco quase lhe fora fatal). Tinha sido condenado à morte, em 1982, por um tribunal do Estado da Califórnia.
Anteontem, eu desconhecia igualmente que ele seria executado no dia seguinte, pelo método da injecção letal, na prisão de Saint Quentin.
Verdadeiramente, ficamos sem palavras num caso destes. Nós e eles. Afinal, como é que se diz a um homem cego e surdo que é agora que ele vai morrer, que é agora que o vão matar? Talvez as únicas palavras ditas tenham sido as suas. As suas últimas palavras…
* * *
Deixemos a sinistra Califórnia de Schwarznegger, tão evocadora, no plano histórico, de raízes sesimbrenses, e atravessemos, no “post” anterior, o continente americano, até à costa leste, na companhia do José Pedro Francisco e do António Ladeira.
Anteontem, eu desconhecia igualmente que ele seria executado no dia seguinte, pelo método da injecção letal, na prisão de Saint Quentin.
Verdadeiramente, ficamos sem palavras num caso destes. Nós e eles. Afinal, como é que se diz a um homem cego e surdo que é agora que ele vai morrer, que é agora que o vão matar? Talvez as únicas palavras ditas tenham sido as suas. As suas últimas palavras…
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Deixemos a sinistra Califórnia de Schwarznegger, tão evocadora, no plano histórico, de raízes sesimbrenses, e atravessemos, no “post” anterior, o continente americano, até à costa leste, na companhia do José Pedro Francisco e do António Ladeira.

3 Comentários:
A pena de morte é realmente inaceitável numa sociedade civilizada, dado que impede a libertação do condenado, caso se venha a provar a sua inocência (mesmo que seja trinta anos depois...).
Quanto à prisão perpétua, já não me causa tanta repulsa, pois há cidadãos cujos crimes deveriam ser motivo para afastá-los do convívio público muito mais do que vinte e cinco anos.
Que pena para uma mãe (eu disse mãe!!)que esquarteja uma filha-criança-de 9 anos??
Que tal uma pena de prisão com televisão, refeições a horas, recreio, sem despesas, aulas de inglês, de bricolage, possibilidade de estudar,...hum,...deixem-me ver,...de fazer um curso e quando sair será considerada um caso social com direito a casa, um qualquer subsídio para ajudar a pagar a renda, mais um para viver e apoio a reinserção social...
Vejamos agora o caso por outro prisma:
Feche os olhos, imagine o seu filho naquele dia em que disse que lhe adora, naquele sorriso naquele dia de praia com uma moldura de sol que lhe iluminava a cara numa foto que lhe ficará para sempre na memória... Agora imagine que lho tiram....que ao fim de algum tempo de busca ...lhe dizem que foi esquartejado por uma mulher qualquer sem qualquer problema mental... Quando fecha os olhos o que é que vê??? O Tribunal ou a sua vingança?? Parece que faço o elogio da violência mas não, faço sim o elogio do nosso amor pelo que é nosso, muito nosso... E temos sempre que nos pôr no lugar do outro e tentar pensar como ele...Sei que é uma abordagem simplista e popularucha mas...è tão bom ter ideais quando os assuntos estão longe de nós...
Recordo-me de um amigo que tinha a mãe a depender de uma máquina num hospital, e que me dizia "Sabes, eu até era a favor da eutanásia, mas agora ao vê-la aqui e com os médicos a insistirem em tentar-desligar-para-ver-se-reage, sobressai o meu lado mais egoista: enquanto ela aqui estiver, mesmo sem me sentir ou até mesmo ver, eu posso-lhe tocar, sentir o seu cheiro, beijá-la...Achas mal??"
Como dizia Baltasar Gracián "Por vezes, o não compreender é prova da mais elevada compreensão".
Urban@
Cara Urbana,
Agradeço-lhe o seu comentário.
A pena de morte é, seguramente, um dos temas que maior controvérsia gera, suscitando as mais desencontradas paixões.
Não nego que há crimes hediondos, a reclamarem uma punição exemplar (no fundo, todas as penas se revestem de uma dimensão exemplar). No entanto, isso não me permite aceitar, seja em que caso for, a morte de um homem, legitimada e consumada pela comunidade.
Bastaria o argumento que o Prof. Ruy Ventura aflorou no seu comentário – que igualmente agradeço –, o da possibilidade séria de erros judiciários, para rejeitar a pena capital. O mal entretanto feito seria irreparável. Quantos casos já não houve de inocentes executados?
Mas não é só isso… é também a percepção (de confessada raiz cristã) de que todas as vidas humanas são sagradas; a ideia de que a vingança é um péssimo sentimento (não querendo isto dizer que haja de faltar a firmeza); e, por fim, a noção de que, do ponto de vista da política criminal, a pena de morte é absolutamente ineficaz (os estudos demonstram que a criminalidade não diminui, para os crimes punidos com a pena capital, nos estados onde esta existe).
Além disso, tenho do meu lado páginas sublimes de Torga e Pascoaes, Dostoievski e Victor Hugo. Dá que pensar, não é?
Tudo isto sopesado, não poderia estar mais de acordo com o Ruy Ventura, quando defende a prisão perpétua (se também entendermos esta como algo que não é irreversível). Pode parecer paradoxal, mas admiti-la ainda é a melhor forma de evitar que a pena de morte ganhe novos apoiantes, como parece ser o seu caso. Posição que posso compreender, que devo respeitar, mas que está nos antípodas daquilo que penso. Também não podemos estar de acordo em tudo, não é verdade?
Os meus cumprimentos
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