Vem tudo isto a propósito...
Com a devida vénia, tomo de empréstimo às edições do jornal “O Sesimbrense” num passado ainda não muito distante, o título desta entrada. E isto porque, de alguma sorte, o António Cagica Rapaz, no seu D. Dichote de hoje, invoca o grande Maigret (na imagem, interpretado por Jean Gabin) para poder sondar o universo do Dr. Sequerra, fazendo-me lembrar que, há coisa de dois anos, escrevi e publiquei uma crónica na imprensa local onde relaciono a figura do Comissário criado por Simenon com este nosso pequeno mundo, que vai de Sesimbra ao Marco do Grilo e do Espichel ao Alto das Vinhas. Por tudo isto, não resisti a partilhar convosco este escrito ainda recente. Ele aqui vai.
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Sesimbra e o caso Maigret
Nunca fui muito dado à leitura de romances policiais. Não que semelhante literatura alguma vez me tenha merecido verdadeiro desprezo. Antes pelo contrário: pelos meus treze anos, recordo-me de ter passado pela “fase Frank Gruber”, o criador dessa curiosa dupla de personagens que são Johnny Fletcher & Sam Cragg, parelha de tesos, caloteiros que sobrevivem em plena selva urbana norte-americana graças aos mais diversos expedientes, e que invariavelmente se vêem envolvidos em crimes que não cometeram, mas que ajudam a desvendar, quanto mais não seja para afastarem as suspeitas que sobre si recaem. A gente lê, diverte-se e fica com a ideia de que, de semelhante exercício, nenhum mal pode vir ao mundo. Seja como for, e com as excepções contadas de “O Falcão de Malta” de Dashiel Hammet (que deu depois um filme celebrado de John Huston com o magistral Humphrey Bogart), e de um ou outro volume de Conan Doyle, juro que não voltei a pegar em policiais anos a fio. Porventura, fiquei amarrado ao preconceito de estar perante uma literatura menor, que honradamente cumpre a sua missão no puro entretenimento que proporciona.
Nunca fui muito dado à leitura de romances policiais. Não que semelhante literatura alguma vez me tenha merecido verdadeiro desprezo. Antes pelo contrário: pelos meus treze anos, recordo-me de ter passado pela “fase Frank Gruber”, o criador dessa curiosa dupla de personagens que são Johnny Fletcher & Sam Cragg, parelha de tesos, caloteiros que sobrevivem em plena selva urbana norte-americana graças aos mais diversos expedientes, e que invariavelmente se vêem envolvidos em crimes que não cometeram, mas que ajudam a desvendar, quanto mais não seja para afastarem as suspeitas que sobre si recaem. A gente lê, diverte-se e fica com a ideia de que, de semelhante exercício, nenhum mal pode vir ao mundo. Seja como for, e com as excepções contadas de “O Falcão de Malta” de Dashiel Hammet (que deu depois um filme celebrado de John Huston com o magistral Humphrey Bogart), e de um ou outro volume de Conan Doyle, juro que não voltei a pegar em policiais anos a fio. Porventura, fiquei amarrado ao preconceito de estar perante uma literatura menor, que honradamente cumpre a sua missão no puro entretenimento que proporciona.
O caso começou a mudar de figura no dia em que vi Rafael Monteiro requisitar, para leitura, um romance de Georges Simenon. Foi isto no princípio dos anos noventa, na Biblioteca do “Raio de Luz”. Tratava-se de uma edição recente, incluída numa série de quatro ou cinco títulos publicados pela Dom Quixote, tudo obras de Simenon sem o Comissário Maigret.
Já então, a meus olhos, o toque de Rafael conferia algum prestígio às coisas do espírito que se propunha eleger, ultrapassada que ficara, entre nós, a polémica sobre o “Humor de Perdição” de Herman José. A questão fora travada nas páginas do “Raio de Luz”, dois ou três anos antes. E ficou sanada de modo tácito, em virtude de uma convivência fugaz e circunspecta que mantivemos na redacção daquele periódico, eu a dar os primeiros passos nas lides, e ele divagando por Santana, entre o “Angelus” e o jornal, praxe costumada nos últimos tempos da sua vida.
Por um lance de ironia, foi no grande ecrã que a figura de Maigret se me revelou. Deu-se o caso anos mais tarde, num ciclo da Cinemateca dedicado às relações da sétima arte com a investigação policial. Logo aí me foi dado compreender que, aquém da imaginação de cada leitor, só há, na verdade, um rosto possível para o comissário do Quais des Orfèvres: Jean Gabin. O eminente actor francês, que descobri na fita daquela noite – a adaptação de “Maigret tend un piège” –, de tal forma deu vida, nalgumas longas-metragens, à personagem maior de Simenon, que passou a ser a sua imagem animada, a cara e a voz que invocamos quando evocamos Maigret.
Esta foi apenas uma das impressões que, passado algum tempo, e já bastante lido no meu Maigret, descobri partilhar com António Cagica Rapaz. Logo na primeira vez em que lográmos conversar detidamente, numa tarde de sábado com sol de inverno, paredes-meias com a Galé, as andanças e façanhas do Comissário vieram à baila num bosquejo sobre as preferências literárias dos circunstantes, que neste e noutros casos se revelaram coincidentes. Desde então, amiúde temos reflectido sobre o estilo de Simenon e o universo de Maigret. E então confessamos a nossa admiração comum pela escrita sóbria, sumamente concisa, com que o escritor belga nos introduz nesses seus casos sérios e graves em que quase sempre alguém morre, levando o famigerado polícia a colocar-se numa situação de empatia com o ambiente em que se move, para reconstituir psicologicamente os meandros do delito. A chave do crime, que, envolta em mistério, fazia o dogma do policial clássico e concitava aparatosos malabarismos dedutivos a um Hercule Poirot, perde muita da sua importância na lição policiária de Simenon, que não raro abre o jogo ao leitor nas primeiras páginas de um livro, para logo depois o comprometer em narrativas fulgurantes, que o estreitam ao pulsar da grande cidade parisiense no coração dos seus bairros.
A propósito da singular e inconfundível marca de água que perpassa as obras de Simenon, Cagica Rapaz contou-me que o primeiro livro que dele leu foi “O homem que via passar os comboios”, na versão portuguesa. É uma obra onde Maigret não surge, mas de que Cagica muito gostou, sem todavia ter retido, então, o nome do autor. Anos depois, ao ler, no original, o seu primeiro “Maigret”, julgou reconhecer, nas páginas iniciais, o estilo que se lhe gravara no espírito. Foi confirmar e viu que se não tinha enganado.
A descoberta de Maigret obsidia-nos, mesmo quando as traduções deixam algo a desejar. É uma paixão que fica para o resto da vida, e que nos pode levar a bater os alfarrabistas em demanda de títulos que há muito saíram do circuito livreiro. Perguntem ao Paulo Pitôrra…
Tenho para mim que ninguém fica indiferente a Georges Simenon, e a essa sua extraordinária invenção que é Jules Maigret. Haverá por certo quem não goste, mas eu prefiro estar do lado de José Régio, que, no seu alto e severo juízo, punha a obra de Simenon entre as grandes criações literárias…

2 Comentários:
Eu bem sei ter já dito isto, mas parece-me sempre faltar aquele Maigret-Gabin qualquer coisa...
Uns cantos de boca curvos de fumador inveterado de cachimbo (à inspector Varatojo se se lembrar
dele)...
E todos concordaremos que Maigret sem cachimbo congénito deixa de ser Maigret.
Para correcções politicamente correctas já basta o Lucky Luke quando perdeu a beata porque teve de deixar de fumar...
Meu caro,
Agradeço o seu comentário.
Aqui, talvez Gabin, por mérito próprio, se (me) tenha imposto a Maigret. Há que não descurar o sortilégio do cinema...
Em todo o caso, verdadeiramente importante é cada um, a partir da leitura, reconstruir este universo por e para si próprio...
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