Curtas (36)
Saramago e as bexigas
Por estes dias, Sua Excelência mostrou-se descrente quanto à eficácia do Plano Nacional de Leitura aprovado pelo Governo, opinando que o estímulo à leitura é uma coisa estranha, e que o voluntarismo não vale a pena e é inútil numa área que sempre foi e será coisa de uma minoria. Mais revelou Sua Excelência desconhecer o conteúdo do dito Plano, de cuja comissão de honra faz parte por, segundo o próprio, tal presença, por causa do Nobel, ser “uma fatalidade, como as bexigas”. Se fizéssemos como o director do “Público”, que considera ser reaccionária e elitista, e merecedora de um grito de revolta, a atitude de Sua Excelência, não faltaria por estas bandas quem viesse indignadamente verberar-nos. A verdade é que, de um ponto de vista ideológico, mal se percebe a posição do nosso excelentíssimo Nobel, a não ser que, como sugere José Manuel Fernandes, a Sua Excelência incomode “que a multidão do “povo” ascenda ao seu nível”. Já a insuperável vaidade do escritor não tem nada que saber. Soa a fatalidade. E, nem por acaso, foi ele que falou em bexigas…
Por estes dias, Sua Excelência mostrou-se descrente quanto à eficácia do Plano Nacional de Leitura aprovado pelo Governo, opinando que o estímulo à leitura é uma coisa estranha, e que o voluntarismo não vale a pena e é inútil numa área que sempre foi e será coisa de uma minoria. Mais revelou Sua Excelência desconhecer o conteúdo do dito Plano, de cuja comissão de honra faz parte por, segundo o próprio, tal presença, por causa do Nobel, ser “uma fatalidade, como as bexigas”. Se fizéssemos como o director do “Público”, que considera ser reaccionária e elitista, e merecedora de um grito de revolta, a atitude de Sua Excelência, não faltaria por estas bandas quem viesse indignadamente verberar-nos. A verdade é que, de um ponto de vista ideológico, mal se percebe a posição do nosso excelentíssimo Nobel, a não ser que, como sugere José Manuel Fernandes, a Sua Excelência incomode “que a multidão do “povo” ascenda ao seu nível”. Já a insuperável vaidade do escritor não tem nada que saber. Soa a fatalidade. E, nem por acaso, foi ele que falou em bexigas…

19 Comentários:
Pois é Pedro. Apesar de tudo ainda vives ao pé do Mar. E o teu pequeno Rafael já deve estar crescidito. Espero que a Eugénia esteja bem, assim como a tua Mãe. E também a gente boa da tua terra.Descobri o Blog pelo do Godinho "Boca de Incêndio". Eu, por cá, sempre lutando. Tenho a Nossa Senhora da Atalaia na estante. André
André,
Nós por cá todos bem. Escreve-me para o mail: pmartins2001@aeiou.pt
Um abraço
O Nobel deveria ser atribuído tendo também em mira a personalidade não só artística mas também psicológica de cada um. Porque atribuir nobel a um prepotente e pecador é obra!(A vaidade é pecado mortal não é?)
Parece-me que a intolerância que o Nobel apredenta é inversamente proporcional à pontuação que o sr. usa nos seus textos. Diminue a pontuação aumenta a intolerância
É tempo de ouvir os ex-trabalhadores saneados (despedidos)do Diário de Notícias no tempo em o tal Saramago era o director do jornal.
Daqui a meia dúzia de anos, quando eles morrerem, é fácil reescrever essa História que fica por contar pela boca dos próprios. Tal e qual como a dos combatentes do Ultramar.
É esta a democracia dos aprendizes de fascistazitos que temos. E calamo-nos? Eu, não!
Creio que faríamos bem, quando falamos de literatura, em separar, tanto quanto possível, a obra da biografia do seu autor.
Imaginemos que lemos um livro (ou um poema) sem saber quem o escreveu, e que nos toca profundamente. Mais tarde ficamos a conhecer aspectos biográficos do autor, que nos desagradam: acaso a obra passa a valer menos por isso?.
Cita-se a intolerância do senhor escritor quando foi director do Diário de Notícias. Porém, o que deveríamos procurar, é sermos nós próprios tolerantes.
Se não, fica a dúvida sobre se Saramago não será, precisamente, o fiel representante de tudo o que, de bom e mau, caracteriza os portugueses.
Quanto ao mais, leiam livros. (A propósito: a piada das vírgulas em Saramago já tem barbas, mas muito pouca consistência: vê-se que não conhecem bem os livros desse autor; e revela-se desprezo por uma técnica legitimamente usada por outros autores.)
Em jeito de ponto de ordem:
Devo esclarecer que esta entrada não diz respeito à obra de Saramago, mas à sua pessoa, e às afirmações recentes que fez, e que me deixam perplexo. A sua obra literária, que conheço razoavelmente, diz-me pouco (e não é por causa das vírgulas), é a obra de um escritor menor (na minha humilde opinião), que me interessa sobretudo como um facto sociológico.
Vamos lá, pois, falar dos livros... Por exemplo: ainda ninguém viu que "O Homem Duplicado" é um "remake" descarado de "O Duplo", de Dostoievski? Que "O Evangelho segundo Jesus Cristo" envergonha até qualquer ateu doutrinado? Que o "Ensaio sobre a lucidez" (não passei da vintena de páginas) é de uma insipidez soporífera, que envergonha qualquer praticante de novela? Que mesmo o último romance, com toda a sua militância ateísta, só faz algum sentido por fazer concessões à metafísica (a personificação e a metamorfose da Morte, o "milagre" no final, como desvio à rigidez das supostas leis naturais)? Que há para aí leitores embasbacados só porque Sua Excelência disse que, em conversa com o seu tradutor, e a propósito de um romance seu, tinha descoberto que havia palavras intraduzíveis na língua portuguesa? A sério? Mas será que esta rapaziada nunca se deu ao trabalho de ler o Pascoaes? Por acaso tudo isto se passou no mesmo jornal em que o EPC montou cátedra há muitos anos e o Jorge Silva Melo prossegue a sua cruzada acéfala contra a Filosofia Portuguesa. Desculpem lá os desabafos, mas eu às vezes também leio livros...
Quanto à separação entre a obra e o artista, não digo que seja impossível, mas é difícil de fazer, sobretudo quando uma e outro estão relativamente próximos dos leitores, no espaço e no tempo.
Aliás, eu julgo que a obra de Saramago reflecte a sua personalidade, como a obra de Eça expressa a personalidade do autor de "Os Maias", e por aí fora.
Agradeço ao Pedro Martins a explicação, que me motiva agora a tornar um pouco mais completa a minha sugestão: faríamos bem, não só em separar, tanto quanto possível, a obra da biografia do seu autor, como também da ideologia.
É por o homem ser irritante que os seus livros não prestam? É por os seus livros não prestarem que as suas simpatias ideológicas estão erradas? É por causa das suas simpatias ideológicas estarem erradas que o homem é irritante? Sinceramente, é o que parece - mas tal salada russa é que não se me afigura iguaria recomendável.
A minha observação sobre o desconhecimento dos livros de Saramago não se destinava, obviamente, ao Pedro Martins, mas sim a quem escreveu que "a intolerância que o Nobel apresenta é inversamente proporcional à pontuação que o sr. usa nos seus textos". Só para exemplificar, aqui vai um pequeno excerto de Memorial do Convento, que é de 1982:
"Em Lisboa ninguém dormiu. Acabaram os outeiros, as damas voltaram dentro a compor a pintura esmaecida ou esborratada, daqui a pouco regressarão à janela, outra vez gloriosas de carmim e alvaiade. O povo miúdo de brancos, pretos e mulatos de todas as cores, estes, aqueles e os outros, estende-se ao longo das ruas ainda turvas do primeiro amanhecer, só o Terreiro do Paço, aberto para o rio e para o céu, é azul nas sombras, e depois subitamente rubro do lado do paço e da igreja patriarcal, quando o sol rompe sobre as terras de além e desfaz a bruma com um sopro luminoso. É então que começa a sair a procissão."
Agradeço também o comentário de António Cagica Rapaz, mas, se o que interessa é o homem, sou eu então que não vejo de onde nasce tanto interesse. Vejo interesse em comentar a obra literária (goste-se ou não). Vejo interesse em comentar a opção política (da mesma forma, goste-se ou não). Mas o homem e os seus humores, francamente, não vejo.
João,
O que se passou no DN - falamos do homem - não foi fruto das simpatias ideológicas (mesmo dando todo o desconto da época que se vivia)? O "Levantado do Chão", o "Memorial", o "Evangelho" ou "A Caverna" (não interessa agora, para este efeito, saber se são bons ou maus romances, se as suas ideias são justas ou injustas), não reflectem, mais ou menos directamente, as simpatias ideológicas do autor? Parece-me que sim. A meu ver, há muita coisa que está ligada e que não pode ser separada.
Agora, sejamos claros: não é por o homem ser comunista que é vaidoso e arrogante, nem é vaidoso e arrogante por ser comunista.
É porque é, isso torna-o insuportável, e pronto. E era só isso que estava em causa na minha entrada. Só que a conversa e as cerejas, já se sabe...
Depois, e aqui volto a expressar a minha opinião pessoal, há muita parra e pouca uva. Se o homem fosse um Goethe, um Beethoven, ainda se lhe desculpava a toleima. Mas sucede que não é.
Eu sei que a referência sobre o desconhecimento dos livros não era para mim, mas achei importante chamar alguns desses livros (e aquilo que julgo serem as suas fragilidades) à conversa. Tenho aliás, para mim, que a única fase interessante do Saramago é a que vai do "Memorial" à "História do Cerco", talvez pelo barroquismo da prosa, talvez por se tratar de narrativas situadas no nosso espaço. Aí, reconhecia-se um escritor português, e sem vergonha de o ser, o que não o impediu de granjear sucesso e reconhecimento por esse mundo fora. De aí em diante, o Saramago aplainou a escrita, se calhar a pensar em facilitar as traduções, e perdeu a sua diferença específica (que, não sendo original, despertava interesse). Quanto ao pensamento dos romances, aí, desculpem-me, mas é um desastre.
Aqui fica mais esta acha para a fogueira
Em jeito de adenda:
João,
Mas é claro que os humores do homem interessam! O homem goza de superior notoriedade, quando o homem abre a boca há sempre um batalhão de plumitivos prontos a escutá-lo. Bem ou mal, o homem é cá da terrinha e ganhou um Nobel da Literatura, caramba! Digamos que este interesse "é uma fatalidade". Como as bexigas, pois então!
Agora uma errata:
Eu disse: "nem é vaidoso e arrogante por ser comunista". Queria dizer: "nem é por ser vaidoso e arrogante que é comunista".
Ai a Filosofia Portuguesa, a Filosofia Portuguesa...
Talvez as bexigas sejam mesmo verdadeiras. As pessoas decerto as conhecerão. Que explicaria então a assistência desoladora que (não) rodeava Saramago na Feira do Livro, sábado passado?
Um esclarecimento: o que me levou a escrever comentários nesta entrada - tal como numa anterior sobre o Jornal de Sesimbra - foi o descambar, nos escritos dos comentadores externos, para atitudes pouco "literárias" (para não lhes chamar outra coisa). É bem verdade o que diz o Pedro Mexia, que as caixas de comentários da blogosfera tendem a atrair atitudes pouco interessantes. Eu, no meu blogue, não deixo passar em branco coisas deste tipo: que aparentam concordar com a minha opinião, mas acrescentam sentenças que eu jamais subscreveria. Se eu não disser nada, é como se concordasse.
Então? Arranjaram uma conversa só para vocês?
Assim sempre se entretêm sem chatear ninguém.
Parece que José Saramago está muito preocupado com as vossas atoardas.
O anónimo das 2.42 PM é o exemplo típico de quem nada tem para dizer, mas não resiste à vontade da ferroadazita.
Está satisfeito?
É chato ver os outros trocar argumentos, desenvolver ideias, ter opiniões, pensar sobre as coisas, não é?
Meu caro João,
O seu último comentário levanta um problema interessante. Perante ele, a minha posição é a seguinte: pode haver quem partilhe da minha antipatia por Saramago - ou de qualquer outra opinião que eu emita - por razões diferentes das minhas, e o expresse em comentários, sem que, na minha modesta maneira de ver, isso me obrigue a demarcar-me desses outros motivos. Da mesma forma - e esta é já outra questão, algo diferente - também não me vejo obrigado a reagir a comentários que divirjam daquilo que escrevo. Poderei fazê-lo (e fá-lo-ei muitas vezes), ou porque isso me dê prazer, ou porque eu seja interpelado de forma mais ou menos directa, mas não quer dizer que o faça sempre. Em todo o caso, seria interessante procurar saber até que ponto, e em que situações quem cala consente. A minha perpectiva, digo-o já, é, à partida, minimalista.
Ruy Ventura,
Porque é que, no Jardim Zoológico, o maior número de visitantes está, sempre, junto à Aldeia dos Macacos?
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