sábado, julho 29, 2006

QUESTÕES MORAIS

por Elísio
Ao Farol do Cabo

Todos gostamos das questões morais, porque elas nos reconhecem como pessoas capazes de decidir sobre as nossas vidas, nomeadamente, o que nos vai acontecer para futuro. E depois de muito decidirmos, julgamos que nunca pecámos aparatosamente, vemos até as asneiras que fizemos, como grandes «decisões» das nossas vidas.

Podemos ir de carro ou de comboio, de avião ou de bicicleta. Podemos até não ir. Mas temos que tirar as consequências. Nada há nada na nossa mente que não venha em séries e a essas séries podemos tirar-lhes ou pôr-lhes uma peça mas elas lá seguem. Quando um homem comanda a série, damos-lhe o lugar de Chefe, às vezes para o meter longe das nossas vidas e não nos perturbar. A vida é complexa e este Chefe já fala sozinho.

Entretanto veio-nos uma grande aflição: as coisas não nos correm bem. E então recorremos a Deus. Nunca Deus foi tantas vezes incomodado com os nossos pedidos. Andamos de credo na boca ou até alternamos isso com uma tranquilidade budista, de vez em quando, quanto a tudo o que nos vai acontecer. Deus nunca esteve tão perto de nós. Só que nós queremos ser quem vai ter com ele e não que ele venha ter connosco.

Depois desta abundância de Liberdade, o Ocidente passou a sentir uma grande Secura. Mas felizmente que há gente programada com uma força de vontade de ferro, vinda das selvajarias indianas e programada com lavagens ao cérebro heréticas, para que o reino da Liberdade tenha a sua coroa, ainda antes de cair. E quando não há força de vontade, há um labor de Castor, que acumula piscinas de dinheiro como o Tio Patinhas, a par de uma secura ainda maior. Os ricos são infelizes e os pobres sofrem. Nunca se viu tanta aflição e há razão para isso. O que temos são números que complicadas máquinas, nas esquinas, nos fornecem. Nem o ar que temos é nosso, que o diga o doente cardíaco.

Como nos deixámos enterrar nisto, é culpa nossa. Mas ainda temos tempo de procurar uma alternativa. Talvez começando por atender às pessoas concretas que nos rodeiam. Confiar menos em ideias, sonhos, imagens, estilos: deixar de estar morto, que as pessoas até parecem almas do outro mundo à nossa volta, e sair da morte em que caímos. O resto, Deus ajudará. A Terra continuará a girar depois dela sairmos.

5 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Cem por cento de acordo, meu caro senhor. As comparações são vitais e inevitáveis para quem deseja aproximar-se das verdades das questões, mesmo das morais.
E a verdade é simples, pura, embora as pessoas tentem torná-la difícil sabe-se bem com que intenções. O problema é que há muitas, muitas pessoas, que teimam em não absorver ou mesmo tentar copiar (porque não?) os sistemas político-sociais onde a raça humana tem, unânimemente reconhecida, melhor qualidade de vida. Será por a Noruega, Suíça e a Áustria terem governos de direita? Será, sr.Elísio?
É tempo de acabar com os papões! Afinal, todos lutamos para obtermos, solidariamente, o melhor.

8:38 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Peço licença ao Elísio e ao Farol do Cabo para me intrometer nesta conversa.

Se bem interpretei as palavras do Elísio, ele pretendeu salientar que o Ocidente, não obstante a propalada modernidade que o caracteriza, o seu poderio tecnológico, a abundância de bens materiais em que vive, não consegue tornar as pessoas verdadeiramente felizes. Em princípio, estou de acordo, muito embora a felicidade seja sempre o resultado de uma busca, e tudo isto tenha muito de individual. Cada um sabe de si e Deus Nosso Senhor sabe de todos, como se costuma dizer...

Ora isto é mais do que bastante para tornar muito discutível, tremendamente discutível, o que seja a "qualidade de vida" de que fala o Farol do Cabo. Poderá ser um ponto para desenvolvermos...

Por outro lado, não creio que a Noruega, a Suíça e a Áustria sejam (mais) ricas por terem governos de direita, como parece sugerir o Farol do Cabo. Haverá outros factores - perenes, estruturais - para explicar isso. Certamente que alguns desses países já experimentaram momentos de prosperidade com governos de esquerda, e momentos de crise com governos de direita...

E por agora passo...

9:46 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Carta aberta em circulação no correio electrónico dos Portugueses:

Em cada 100 euros que o patrão paga pela minha força de trabalho, o Estado, e muito bem, tira-me 20 euros para o IRS e 11 euros para a Segurança Social.
O meu patrão, por cada 100 euros que paga pela minha força de trabalho, é obrigado a dar ao Estado, e muito bem, mais 23,75 euros para a Segurança Social.
E por cada 100 euros de riqueza que eu produzo, o Estado, e muito bem, retira ao meu patrão outros 33 euros.
Cada vez que eu, no supermercado, gasto os 100 euros que o meu patrão
pagou, o Estado, e muito bem, fica com 21 euros para si.
Em resumo:
*Quando ganho 100 euros, o Estado fica quase com 55.
*Quando gasto 100 euros, o Estado, no mínimo, cobra 21.
*Quando lucro 100 euros, o Estado enriquece 33.
*Quando compro um carro, uma casa, herdo um quadro, registo os meus negócios ou peço uma certidão, o Estado, e muito bem, fica com quase metade das verbas envolvidas no caso.
Eu pago e acho muito bem, portanto exijo:
Um sistema de ensino que garanta cultura, civismo e futuro emprego para os meus filhos.
Serviços de saúde exemplares. Um hospital bem equipado a menos de 20 km da minha casa.
Estradas largas, sem buracos e bem sinalizadas em todo o país.
Auto-estradas sem portagens. Pontes que não caiam.
Tribunais com capacidade para decidir processos em menos de um ano.
Uma máquina fiscal que cobre igualitariamente os impostos.
Eu pago, e por isso quero ter, quando lá chegar, a reforma garantida e jardins públicos e espaços verdes bem tratados e seguros.
Polícia eficiente e equipada.
Os monumentos do meu País bem conservados e abertos ao público, uma orquestra sinfónica. Filmes criados em Portugal. E, no mínimo, que não haja um único caso de fome e miséria nesta terra.
Na pior das hipóteses, cada 300 euros em circulação em Portugal
garantem ao Estado 100 euros de receita.
Portanto, meus senhores, eu quero e tenho direito a tudo isto, que eu, Farol do Cabo, subscrevo.

Portanto, sr.Pedro Martins, talvez não seja este o melhor momento para passar.

1:20 a.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Farol do Cabo,

Atenção: eu só passei a palavra.

Diga-me: presentemente, é muito diferente - refiro-me a grandes discrepâncias percentuais - a situação fiscal que descreve da que existe nas governadas à direita Noruega, Suíça e Áustria?

Quanto ao mais, o Farol do Cabo quase pede o paraíso, que, como é sabido, não existe na Terra. Como princípio, não será má ideia. Mas, fez as contas? Sabe quantos hospitais distritais bem equipados tinha de criar só no Alentejo para observar a regra dos 20 quilómetros? Eu não sei, mas palpita-me que seriam muitos... E olhe que já tem, por exemplo, não uma mas duas orquestras sinfónicas nacionais, uma em Lisboa, outra no Porto.
Claro que há coisas muito pertinentes entre as suas exigências, não digo que não. Mas nem tudo está tão mal como pretende sugerir.

Seja como for, este nem será o ponto essencial do escrito do Elísio. O que ali está em causa é a crise do mundo ocidental, muito para além de uma dimensão material. Quando olhamos para as coisas numa perspectiva material, meu caro farol do Cabo, corremos o risco de ainda nos não termos libertado do marxismo que há em nós sem darmos por isso.
O que equivale a dizer que, para alguns, a felicidade não passa necessariamente pela concretização do seu caderno de encargos. Se não estou em erro, a Áustria tem uma elevada taxa de suicídios...

9:26 a.m.  
Anonymous Anónimo said...

Pedro e Farol do Cabo,

Como estou com uma dor de dentes e com os meus 45 já não vou sendo jovem, não pude acompanhar-vos. E acho que tudo o que disseram tem a sua razão, sendo que eu vou apenas juntar mais umas ideias.Primeiro: o meu texto diz respeito a coisas que eu acho mais reais e que estao ao alcance da mão ( se forem ao blog Duas Cidades, vêem lá o mesmo texto sob o título "dEUS", em que no fundo quero dizer é que hoje toda a gente invoca este Deus feito à medida dos nossos interesses, porque a gente se desesperou, quando, ao que me lembra, Deus invocava confiança e Fé). O mal da blogosfera é que nos põe a pensar como se fôssemos pessoas do poder jornalístico e pensamos assim de um modo um pouco grandioso. Depois devo ser honesto: eu vivi na Noruega e na Áustria (a Suíça só visitei) e acho que não é mentira dizer que toda a gente se queixa de que são países estruturalmente socialistas, com um peso do Estado tão esmagador que -- é verdade -- o número de suicídios faz recordes ( na Áustria, sobretudo em Viena, campeã absoluta da modalidade até 1975)talvez por falta de liberdade. E que, se forem ver nesses países, as séries governativas, depois da Guerra, a maior parte dos Governos sao socialistas e mesmo os de Direita tinham muito de socialismo (a começar pelo nacional).Embora o socialismo e a disciplina daqueles PS gerasse talvez umas revoltas em Portugal ( pensem só que a PM sueca utilizou um cartão Visa oficial para pagar 12 contos em chocolates e flores, porque nao tinha o dela para o fazer, repôs a quantia mas teve de se demitir e a sua carreia acabou).
Eu penso que o Farol do Cabo invoca muito justamente o direito de um cidadão ser tratado lealmente pelo Estado. Nao vou dizer o que penso da índole portuguesa actual, eu que vivo fora.Mas penso, no fundo, que há muitas formas de progredir que não sao apenas "ocidentais" e há vários critérios de medição ( o salto dum nível semelhante ao de África, da China ou da índia, em 40 anos, demorou três seculos na Europa). Também o Ocidente passava o tempo a rezar quando o Islão vitorioso e civilizado o cercava. E aí arranjou forças para reagir sendo que, depois, no séc. XIII começou a ultrapassar os que o cercavam. O Islão faz o mesmo, agora. Em suma, quero dizer, que há coisas que demoram mais tempo a ser apercebidas, mesmo quando somos gente normal e honesta e nos sentimos roubados, por exemplo, pelo Estado. Estas frentes Históricas mais largas e demoradas, infelizmente, podem passar pelas nossas vidas e confrontarem-nos com coisas tão simples como o Bem e o Mal, o Amor e o Ódio, a paciência e a Fúria, que existiam e existirão antes do confronto de Civilizações, antes do derby "Ocidente/Oriente" onde a fronteira é bem dificil de definir. Mas penso que enfrentar essas coisas reais não é idealismo, é o maior dos realismos que podemos ter e para o qual nos falta muitas vezes a coragem,talvez porque a técnica nos deixou um pouco eufóricos.

Elísio

10:04 a.m.  

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