sexta-feira, março 10, 2006

As seitas

Eu sou da seita da Fonte Nova!

Era assim que me identificava na escola, perante os outros. Normalmente pertencíamos à seita da zona da nossa residência, pelo que, na altura, anos cinquenta, havia muitas mais seitas – a do Cemitério e a da Torrinha, que eram normalmente nossas aliadas; a do Canino e a do Bairro dos Pescadores, que por serem do lado nascente da vila (daquela banda, como então designávamos os que ali residiam, tal como eles em relação a nós), eram os nossos antagonistas. Para os mais novos, os de hoje e os desajustados desta realidade de então, é bom dizer-se que estas seitas não tinham nenhum carácter religioso e muito menos político, éramos mais… um bando… ou um grupo de bairro, isso, éramos sobretudo bairristas, muito bairristas.

Todos tínhamos um quartel e o nosso era no Ribeiro da Fonte Nova. Também conhecia bem o da Torrinha, que era na Casa Velha, e o do Cemitério, no Chico 18. Eram os nossos sítios de reunião e esconderijo, onde guardávamos os nossos arcos e flechas, as espadas e os escudos, mais o mealheiro dos dinheiros provenientes da venda do arame das lojas de companha, do chumbo das canalizações e do peixe que caía dos cestos dos homens que descarregavam os barcos das armações. Este dinheiro constituía o nosso fundo de maneio, que servia sobretudo para a compra das bolas de futebol.

Este nosso “mundo” era um sítio paradisíaco, uma zona densamente arborizada que apelidávamos de “Selva”. Poucas construções existiam por ali, a Cordoaria lá bem no alto, sobranceira ao mar e para onde nós íamos admirar os grandes vendavais, e uma outra, cá em baixo, junto a uma fiada de frondosas palmeiras, que eu via, bem defronte da janela da cozinha da casa de meus Avós, e de cujas folhas secas fazíamos braços que navegavam nos pequenos lagos que construíamos, aproveitando aquele fio de água que teimava em percorrer o leito daquele ribeiro. Este “nosso território” começava a norte nas terras do “Sanica” e estendia-se para sul, até à marginal, pela Quinta da D. Arminda, pelas terras do “Bezerro” e das “Barrocas” e terminava na Armação do Roquette, situando-se à esquerda a loja da companha e o armazém das redes e bóias, enquanto à direita ficava o estaleiro e o tanque do alcatrão. Ainda no lado esquerdo existia a moradia da família, onde há mais de cinquenta anos me arrancaram um dente, o primeiro e certamente o mais doloroso.

Para nós, putos da Fonte Nova, armados em D’Artagnans, Zorros e Tarzans, então as figuras do nosso imaginário, aqueles trilhos não tinham segredos e por eles chegávamos às nespereiras, figueiras, a uma ginjeira e ainda a uma amoreira, que sendo mais pequena do que a do Zé das Abóboras, também dava umas saborosas amoras.

Foi o tempo da absoluta despreocupação e de muitas amizades, que perduraram para além da “Selva” e dos “Quartéis”, substituídos por outros pólos de atracção e interesses que originaram depois novas amizades.

E assim surgiram o Colégio e o Café Central, o futebol, a tropa e a guerra e os vários locais de trabalho. Surgiram os casamentos e os filhos, as famílias dos consortes e os amigos dos filhos, os convivas dos petiscos, enfim, os “Xaxas”, “Marretas” e “Confrades”, que são nomes do nosso imaginário de despreocupação, que tentamos ainda fazer prevalecer sobre os problemas dos nossos quarenta e cinquenta anos, que agora sabemos ter, mas que nos nossos encontros não precisamos de entender.

Fevereiro/2004

Joaquim Penim

7 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Caro Pedro Martins,
Hoje haverá reunião da Assembleia Municipal para discussão do regimento. Poderá passar pelo Auditório Conde de Ferreira, esperar até ao final da reunião, altura ainda destinada à intervenção do público, para expôr a discordância em relação a algumas alterações previstas.

9:10 a.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Peço desculpa, mas... estou a falar com quem?

10:24 a.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Pois é... vir para esta freguesia pregar a virtude cívica da participação e não ter a coragem de dar a cara, tresanda a falsete...

Não, intrépido anónimo, bravo democrata, não vou passar pelo Auditório Conde de Ferreira, pois tomei a devida nota da expressão que empregou: "altura ainda destinada à intervenção do público".

Vê-se que sabe do que fala, vê-se que perora de ciência certa... se é "ainda" é porque vai deixar de ser. Estamos, pois, perante um facto consumado, não é verdade? Seja como for, anónimo intrépido, democrata bravo, a minha discordância neste ponto da intervenção do público não é o que mais importa. O que mais importa é a discordância prévia do legislador, da Assembleia da República (pelos vistos, uma ninharia para os democratas encartados da nossa praça). Isso e o bom senso...

Da próxima vez, ao menos, mostre o rosto. Ou será que temos que esperar pelo mega-cartaz da Dr.ª Felícia para procurar o Wally?

6:56 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Caro Pedro Martins,
Infelizmente, também não tive oportunidade de passar ontem à noite pelo auditório Conde de Ferreira. Tive, no entanto, o cuidado de me informar sobre o que lá se passou. Saiba que, apenas cerca das 3.30 horas, foi dada voz ao (pouco ou nenhum, atrevo-me a afirmar) público presente.
Aproveito ainda para o informar que a discussão sobre o regimento, entre outros pontos da ordem de trabalhos, tiveram de ser protelados para uma próxima reunião, devido ao adiantado da hora. Afinal, tem ainda uma oportunidade de passar por lá, na data marcada, se tiver vontade.
Nessa altura, no entanto, terá, claro está, de aguardar ainda até ao final da discussão (pode ser que seja mais curta que a de ontem) para expor, se assim entender, as suas razões.
Quanto ao resto, já percebi que neste blogue todos se incomodam em demasia com os anónimos, os pseudónimos, heterónimos e outros. Eu respeito quem se identifica e quem não se identifica. Não percebo qual a parte do meu comentário anterior que o ofendeu tanto ao ponto de me dar uma resposta pejada de ironia, muito fora do tom com que o interpelei.
No que diz respeito à lei que já várias vezes afirmou conhecer, confesso que desconheço. Conheço, no entanto, meu caro, a realidade. Na Assembleia Municipal de Lisboa, por exemplo, o público intervém no início da sessão. O mesmo acontece em diversas outras Assembleias Municipais um pouco por todo o país. Mas como o Pedro Martins fala tão insuflado de razão, receio, sinceramente, que todos andem a funcionar ao contrário. Eles estão todos enganados, não é?... Realmente, que “ninharia de democratas encartados”! Você é que sabe das coisas!

4:18 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Caro leitor anónimo,

Neste blogue, como em muitos outros, tem, naturalmente, o direito ao anonimato. Isso não está em causa. Mas reafirmo que, para mim, há algo que não faz sentido quando me faz uma interpelação - palavra sua - para estar presente num acto de natureza cívica, como seja uma reunião da assembleia municipal, e não se quer identificar. Com alguma veemência, é certo, limitei-me a pôr o dedo nesta ferida. Aliás, e se bem reparou, tive a bondade, logo pela manhã, de perguntar com quem estava a falar. Provavelmente não lhe calhou ter lido esse comentário durante o dia, são coisas que acontecem...

Para lhe fazer justiça, devo admitir que, com o seu primeiro comentário, não obstante o presumível tom provocatório, não me ofendeu. Daí que eu não perceba porque não assume a sua identidade.
Seria um bom contributo no plano cívico, não lhe parece?
Há trinta e tal anos atrás, com um regime repressivo, compreender-se-ia tanta reserva. Hoje, francamente, não...

Considera o leitor anónimo que a minha resposta está pejada de ironia, muito fora do tom com que me interpelou.

Quer-me parecer, no entanto, que fora do tom poderá ter estado o seu comentário, tendo em conta o "post" a que o dirige. Não me parece muito correcto para com o autor do texto, Joaquim Penim, envolvê-lo numa conversa cruzada que nada tem a ver com o que escreveu.

Sobre a questão da antecipação do período da intervenção do público na Assembleia Municipal já aqui escrevi o que penso. Como presumo que conheça bem este blogue - é realmente uma pessoa muito bem informada -, não adianta repetir-lhe a minha opinião, ou os argumentos - que não são apenas jurídos - que então aduzi. Seria estar a escrever no molhado. Há quem concorde comigo, e quem de mim discorde. É só isso. Por enquanto é assim, e não é proibido.

Creio que falo com razão, mas não insuflado, como sugere. Já agora, se quiser dar-se ao trabalho de conhecer a lei, pode sempre ler o Diário da República. Penso que seja capaz de se orientar.

Sabe, às vezes, quando se opina sobre certos assuntos, pode dar jeito conhecer as leis que os regem. Nuam democracia, é sempre um factor a ter em conta.

Quanto ao facto de nalguns sítios se não cumprir, neste ponto, a dita lei, isso vale tanto, do ponto de vista do respeito que ela deva merecer, como a circunstância de haver quem prevarique contra muitos outros normativos. Imagine que eu e o meu amigo deixamos de pagar impostos, porque achamos que eles representam um abuso de autoridade por parte do Estado. A solução é simples: revoga-se a lei. Pois então?!

Dir-me-á, no entanto, que a questão da intervenção do público na assembleia é uma bagatela. Mas essa é apenas a sua opinião. E se quatro ou cinco milhões de portugueses, e os seus representantes, pensarem de forma diferente? Prevalece a opinião do meu amigo? Ou a de uma ampla maioria? A democracia coloca-nos, de facto, perante problemas delicados. Mas eu já não opino nada, não vá o meu amigo achar-me insuflado de razão, ou pensar que eu é que sei das coisas! O meu amigo é que diz que conhece a realidade. E está realmente muito bem informado. Vê-se que tem boas fontes.

Se porventura o ofendi com o meu tom pejado de ironia, apresento-lhe as minhas sinceras desculpas. Não era essa, creia, a minha intenção. Seja como for, pouco ou nenhum dano lhe causei, pois, neste caso, o anonimato protege-o. Poderei, é certo, ter-lhe causado um pequeno desgosto, mas ninguém saberá quem foi a minha hipotética vítima.

Mas, se porventura, algum leitor menos prevenido tiver visto, nas palavras que me dirigiu, ontem ou hoje, uma pequena provocação, o prejuízo real terá sido meu.

Por isso, leitor anónimo, sobre este assunto, estamos definitivamente conversados. O meu amigo tem o direito a aqui continuar a aparecer e a interpelar-me como anónimo. E eu o direito de não lhe responder.

6:23 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Errata:

No 5.º parágrafo grafei "jurídos". Queria grafar "jurídicos".

No 7.º parágrafo grafei "Nuam democracia". Queria grafar "Numa democracia".

6:28 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Caro Pedro Martins,

Permita-me a colherada, mas confesso que não percebo o que levou o anónimo das 9.10 AM a trazer à baila esta questão da Assembleia Municipal como comentário às Seitas.
Parece que o homem tinha aquilo atravessado e disparou sem fazer pontaria.
Será que ele pertence a alguma seita?
Eu confesso que nada percebo dos meandros da Assembleia, mas tenho cá pra mim que ele vinha buscar lã e saiu tosquiado...

7:06 p.m.  

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