quinta-feira, março 09, 2006

Mea culpa

Sou, por natureza e por cultura, pouco dado a internacionalismos. Se há coisa que me causa aversão são os dias, internacionais ou mundiais, disto ou daquilo. Aliás, há muito que o rol destas celebrações, algumas por dá cá aquela palha, deixou de ter o seu fim à vista.

Há quem afirme que celebrar hoje o Dia Internacional da Mulher acaba por ser uma forma de discriminação. Pela minha parte, devo dizer que meto neste saco a questão das quotas.

Por outro lado, a bandeira da luta, inteiramente justa, pelo reconhecimento da dignidade da mulher, não raro se presta a inconfessados aproveitamentos partidários, ou tem descambado, aqui e ali, para um feminismo insuportável.

Seja como for, e ainda que a celebração do dia 8 de Março tenha, felizmente, perdido, por virtude da evolução sócio-cultural, boa parte do lastro histórico resultante da trágica efeméride que a inspira, dou de barato que se comemore com ênfase e dignidade o Dia Internacional da Mulher.

Parece que, para assinalar a data, a Câmara Municipal de Sesimbra promoveu ontem de manhã, com sonorosos altifalantes, um alarido tremendo no Largo 5 de Outubro, cortando ainda o trânsito no jardim e distribuindo flores às transeuntes. Vindo de quem vem, o estrepitoso espalhafato não surpreende, ou não nos tivessem prometido Carnaval todo o ano. Neste capítulo, estão a cumprir. Mas a verdade é que, apesar de tão óbvia, não fui capaz de prever a coisa quando, faz hoje um mês, vos falei do cartaz engendrado para o Dia de São Valentim. Podem reler esse “post”, clicando aqui.

Impunha-se, por isso, este acto de contrição. Mea culpa.

9 Comentários:

Blogger Ruy Ventura said...

Assino em baixo!

8:17 a.m.  
Blogger Joao Augusto Aldeia said...

Pedro Martins: são sete compreensíveis razões as que apresenta para não (se) comemorar o Dia Internacional da Mulher. Não compreendo, por isso, qual a justificação do acto de contrição.

Aprecio muito a escrita bloguística do Pedro Martins, mesmo se não concordo em alguns casos com as ideias expressas, o que, aliás, é raro. Mas esta argumentação, desculpe-me lá, faz lembrar aquele truque que é dizer que se gosta de algo e a seguir enunciar duzentos defeitos da coisa.

A nossa sociedade, por motivos culturais, discrimina muita gente boa e competente, afastando-a de funções e responsabilidades que por direito natural deveria assumir. A discriminação pelo sexo é uma dessas ínvias vias. Se denunciamos tanta coisa, às vezes menor, que nos irrita, como não o fazer neste caso, com igual veemência?

Claro que tal não tem que (nem deve) ser resumido a um dia por ano. E também é verdade que a comemoração em si, enquanto alimenta em alguns uma simbologia de emulação partidária - afinal, outra forma de discriminação - para outros assume um carácter mercantil e, até, pseudo-poético. La rose c'est la rose, n'est ce pas?

A "luta" contra esta discriminação, por outro lado, presta-se aos maiores equívocos, como pode ser o decorrente do sistema de quotas, as quais, diligentemente atribuídas por um qualquer sistema burocrático, ameaçam ser ainda piores que o mal que pretendem curar.

Enfim, comemoremos ou não comemoremos, ao menos bloguemos.

Um cordial abraço.

10:09 a.m.  
Anonymous Anónimo said...

O patrocínio era de quem???
Das floristas??? A iniciativa tinha por objectivo ajudar o comércio local ou o comércio autárquico??

11:45 a.m.  
Anonymous Anónimo said...

Por este andar, vamos passar do dia da mulher ao das mulheres a dias.

4:23 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Meu caro João Aldeia,

Antes de mais, agradeço-lhe esta amigável interpelação. O que eu quis dizer foi basicamente o seguinte:

1) Estou longe de apreciar, por sistema, os dias internacionais (coisas minhas, que quer o João Aldeia?).

2) Entre esses dias, inclue-se o Dia Internacional da Mulher (não contei as razões que aduzi, mas admito que sejam sete - por várias razões, é um número muito especial).

3) Seja como for, não creio que venha mal ao mundo em comemorá-lo, desde que a ênfase posta na coisa não prejudique a dignidade da celebração.

4) Ora o que passou ontem em Sesimbra escapa, em muito, a estes pressupostos. Foi uma coisa profundamente lamentável. Mais uma... no meu modesto entendimento, claro está

5) E o mea culpa teve apenas a ver com o facto de, há um mês, no "post" "Corações ao alto" (de 9 de Fevereiro), me ter escapado que isto ia acontecer. Apenas com isso, que eu normalmente não me arrependo do que digo ou do que faço...

Outro cordial abraço.

5:59 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Caro João Aldeia,

Em jeito de aditamento, direi que estou essencialmente de acordo com aquilo que diz quanto à questão de fundo. Vê-se que pomos as mesmas reticências nos mesmos sítios. No entanto, talvez este seja um bom motivo para não pormos um ponto final nesta conversa aprazível.

6:11 p.m.  
Blogger Joao Augusto Aldeia said...

Eu não tinha mesmo percebido.

Há um aspecto na blogosfera que dá origem a equívocos frequentes - e às vezes graves. É que este estilo dialogal parece-nos ser muito semelhante à conversa presencial, actividade para a qual o ser humano está especialmente adaptado.

Mas falta aqui algo muito importante: a visão do próximo, dos seus movimentos corporais, dos olhares, bem como o som da voz, as suas inflexões, etc. A falta disso empobrece a comunicação e origina equívocos.

Penso que terá sido isso que provocou, num dos primeiros comentários que aqui fiz, que uma obervação irónica que se dirigia a mim tivesse sido interpretada como indo em sentido oposto. E ainda recentemente, numa entrada de António Cagica Rapaz (sobre o restaurante do Meco) com um belo trocadilho final, a ironia parece ter sido igualmente mal compreendida por uma comentadora.

Agora coube-me a mim não ter entendido. Obrigado pela explicação.

6:18 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Nem mais, João Aldeia. Estou absolutamente de acordo.

Em todo o caso, a blogosfera, mesmo com as suas limitações - e dizer isto é usar um lugar comum - também tem as suas vantagens específicas.

Julgo que vai sendo tempo de termos, em Sesimbra, para quem nos lê e para os outros, uma conversa informal (ainda que a coisa leve o nome de colóquio) sobre esta realidade que são os blogues. E porque se trata de uma outra (nova) forma de escrita e de leitura (com as suas características "sui generis"), a Biblioteca Municipal, que está bem aptetrechada informaticamente, poderia apadrinhar a iniciativa. Que me diz?

6:37 p.m.  
Blogger Joao Augusto Aldeia said...

Creio que é boa ideia e agradeço a sugestão: terei todo o gosto em participar, até porque constituindo uma realidade recente e promissora, os blogues são também algo que ainda está no seu início e em desenvolvimento, podendo vir a assumir características novas e surpreendentes num lapso de tempo razoavelmente curto.

7:21 p.m.  

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