quinta-feira, março 30, 2006

Preto Chagas, um homem de armas

Desde a segunda metade do século XIX que Sesimbra ansiava pela construção de um porto de abrigo. Não havia ninguém que não reclamasse a obra, porque todos a tinham na justa conta de condição indispensável ao progresso das pescas. Certo que, no lado poente da baía, a pequena angra do Forte de Cavalo proporcionava, pela sua natureza, algum abrigo às embarcações que nela se procuravam refugiar; certo que, por mais de uma vez, ali se erguera um molhe – mas a obra era coisa pouca, uns quantos metros tímidos de pedra, afrontando, indefesos, a fúria do mar. Na verdade, só o porto de abrigo poderia pôr termo a décadas desesperadas de privação e angústia.

Ainda não tinha passado ano e meio sobre a sua tomada de posse como Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal quando, em Fevereiro de 1931, o Major Preto Chagas vai a Lisboa e leva consigo a vereação e outros notáveis da vila e um propósito inabalável: obter, junto do Governo, a garantia da construção do futuro porto de abrigo de Sesimbra.

A viagem valeu a pena: quando regressa da capital, a comitiva sesimbrense traz na bagagem uma certeza e algumas esperanças desenhadas no horizonte: o Ministro do Comércio adiantara novecentos contos para a construção imediata da estrada marginal – necessariamente o primeiro passo a ser dado para que a construção do porto de abrigo pudesse ter lugar, uma vez que, sem a concretização daquela via de comunicação, apenas por mar ou através da serra poderiam os materiais chegar ao destino, adivinhando-se difícil e ruinoso o seu transporte.

Em 4 de Junho desse ano, é lançada a primeira pedra da estrada e, em pouco tempo, a vila de Sesimbra fica ligada por terra à futura doca. Feita a marginal, o porto de abrigo começa a ganhar forma no papel. Anos depois, Duarte Pacheco põe o preto no branco e dá luz verde ao início da obra, que será incluída no Plano Geral dos Portos do Continente. Estávamos já na década de quarenta e Preto Chagas no seu segundo mandato ao leme do concelho.

Com efeito, o engenheiro militar que combatera pelo seu país em França, na Primeira Guerra Mundial, integrado no Corpo Expedicionário Português, há-de servir por mais de uma vez, como edil, a terra que o viu nascer (em 1889), cumprindo dois mandatos de quatro anos: entre 1929 e 1934, primeiro; entre 1937 e 1941, depois – e antes de ser empossado no cargo de Governador Civil de Beja. A meio do seu segundo governo sesimbrense, é promovido a major, patente militar que, desde então, lhe irá avultar o nome civil.

A sua acção à frente dos destinos da terra, longe de se ter quedado pela questão marítima do porto de abrigo, fica perto da perfeição administrativa. Tal como Abel Gomes Pólvora – que dirigira o concelho até 1926 –, empreende um esforço notável de desenvolvimento de Sesimbra. Espírito de instinto pioneiro, pleno de dinamismo, irrepreensível no plano financeiro – será lembrado por bem gerir os recursos estreitos da época, dando tréguas aos contribuintes e sem pedir um tostão emprestado –, Preto Chagas faz também expandir a vila para nascente: procedendo ao arranjo do Largo de Bombaldes; construindo o troço de estrada marginal onde, em breve, vai nascer a aprazível Esplanada do Atlântico. Dir-se-ia que Sesimbra cresce então a olhos vistos, bonita aos olhos que a vêem.

Preto Chagas conclui a rede de saneamento da vila – cuja construção tivera início ainda sob a égide de Gomes Pólvora – e manda tapar os ribeiros que a atravessam na Fonte Nova, na Misericórdia e no Canino. Mas vai muito mais longe, porque se embrenha pelos caminhos da memória: é no seu tempo que o Castelo de Sesimbra beneficia de importantes obras de restauração, emergindo, reconstituído, da ruína dos seus próprios escombros; que é editada a «Monografia de Sesimbra» de Barros Bernardo, nos nossos dias um clássico incontornável, a reclamar, com pertinência, reedição.

Não é de hoje a actividade turística como móbil poderoso da vida sesimbrense. O homem que debruça a terra sobre o mar, constrói ainda os passadiços do Macorrilho e de Alcatraz, permitindo que as praias da baía comunicassem, que o mar unisse, já não separasse… Mas há mais: cria a primeira Comissão Municipal de Turismo; e planta a mata anexa ao forte de Cavalo – é lá que irá surgir o primeiro parque de campismo do concelho…

O político de boas contas faz-se comprador: adquire o prédio da antiga Fábrica Nacional de Conservas, para nele instalar os grandes armazéns dos serviços municipais, e enceta negociações tendo em vista a transferência de domínio, para o Município, da herdade enorme da Vila Amália, onde hoje se concentram as instalações desportivas de Sesimbra.

Em 1945, o homem de armas passa à reserva e, três anos mais tarde, já está reformado. Ninguém sabe se a chuva copiosa que se abate sobre Sesimbra, no dia do seu funeral, em Janeiro de 1969, era feita de lágrimas pelo corpo que ia a enterrar, como alguém então sugeriu. Mas dizer saudoso Preto Chagas é dizer bem pouco. Quando alguém marca o seu tempo pondo na acção um ímpeto tão surpreendente, já não deixa saudades – está simplesmente presente: nas ruas e nas muralhas, nas páginas dos livros e nas proas de certos barcos, quando deixam o porto e se fazem ao mar…

4 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

E quantos "Velhos do Restelo" se teriam manifestado na época?

6:25 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

"Sesimbra já aconteceu" na agenda.
Ainda não viram?
Não está mal de todo, não senhor!

6:35 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Espere por segunda-feira

6:59 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Com o meu sócio Macorrilho, descendemos do nosso major Preto Chagas. Apesar de estarmos hoje enterrados, erguemos a nossa voz em homenagem a um Grande Homem.
E felicitamos o Pedro Martins por tão belo e eloquente texto.

5:44 p.m.  

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