domingo, maio 28, 2006

O espírito do lugar (6)


CANTIGAS DE COIMBRA

Rio que corres tão fundo,
Erva e choupos corcovados,
Nem toda a água do mundo
Faz os meus versos lavados!

Coimbra, minha madrinha!
Mondego, meu coração!
Ó Alta, a noiva que eu tinha
Morreu de pura paixão!

O meu amor, que é Letrado,
Mandou-me dizer a mim
Que não me quer (desalmado!)
Com proclames em latim!

O meu bem anda em Direito,
Aprende para juiz:
Mostra que guarda preceito
Nas sentenças que me diz.

O meu amor é estudante,
Caloiro de Medicina:
Já me opera o coração
Com sua lanceta fina.

O meu amor é estudante,
Vai-se formar em Ciências:
Não quero que se adiante,
Que as fitas medem ausências.

Amor que não quer sarar
Passa com panos de arnica:
Por isso eu quero casar
Com quem me ponha botica.

Já me formei em amores,
Tomo capelo em saudades:
Deitei fitinhas de cores
Pelas cinco Faculdades.

As tricanas são da Alta,
Os futricas de Sansão,
O Mondego deu à malta
Um choupo por coração.

Vitorino Nemésio

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