domingo, fevereiro 19, 2006

Evocação do Dr. Alberto Leite

O Doutor Alberto Leite deixou-nos há exactamente dez anos. Dele ficou a recordação de um homem bom e a memória de um grande médico. Aqui o lembramos, nalguns traços essenciais da sua vida.
Alberto Leite, o Doutor de Santana

Poucas vezes em Sesimbra o obituário da imprensa local terá sido tão pungente e tão unânime quanto o foi no final de Fevereiro de 1996. Poucos dias antes, a 19, falecera o Dr. Leite. Sesimbra - a Sesimbra de todos os quadrantes, de todos os credos, de todos os caminhos - chorava a perda de um dos seus melhores homens.

Alberto Augusto Leite nasce, em 26 de Outubro de 1903, em Trouxemil – uma aldeia das cercanias de Coimbra –, formando-se em Medicina, em Novembro de 1927, pela universidade desta cidade. Mas, ao contrário do que semelhante trajecto, balizado pelo nascimento beirão e pelo frémito da vida académica da Velha Alta, poderia levar a supor, serão sesimbrenses – desde então e até ao fim – a existência, o percurso e o destino de Alberto Leite.

Acto contínuo, logo em 1928, é provido no lugar de facultativo municipal da freguesia do Castelo e instala-se em Santana. Está em começo de carreira, mas em pouco tempo irá conquistar o coração dos sesimbrenses. Dedicado, acorre a inúmeros chamamentos que dos vários pontos da freguesia – uma das de maior área em todo o país – lhe vão chegando, percorrendo, por caminhos inóspitos e sem o préstimo, sequer, de um automóvel, centenas e centenas de quilómetros. Calcorreia, amiúde, estradas e córregos, atalhos e veredas. Por vezes, desloca-se numa carroça. De quando em vez, montado num burro. A imagem do recurso a semelhante meio logo impõe a comparação – tão óbvia quanto prestigiosa – com João Semana, simpática personagem de «As Pupilas do Senhor Reitor», romance da autoria de Júlio Dinis.

Alberto Leite acudirá aos pacientes com dedicação e eficácia. E quando, quatro anos volvidos sobre a sua chegada, se sabe ser sua a intenção de mudar de ares e de concorrer a uma vaga no Algarve, o povo da freguesia congrega-se em torno de uma comissão de notáveis presidida pelo Padre António Pereira de Almeida, então prior do Castelo, e assenta arraiais junto da porta do clínico. Pedem-lhe que fique.

Atónito e emocionado, fica. Para sempre. Por cá vai casar e ter filhos. Por cai irá desenvolver, ao longo de seis décadas, a sua actividade profissional, na vila como no campo, no consultório como no hospital.

A sua disponibilidade é quase infinita. A sua generosidade só não é lendária porque são reais e constantes, anos a fio, os inúmeros casos de assistência gratuita que lhe testemunham. Dadivoso, só cobrava honorários a quem, na verdade, os podia suportar. E, se fosse caso disso, custeava, por vezes, os medicamentos dos mais necessitados.

Depressa o cobrem de epítetos. Consabido “médico dos pobres”, alguns – tão fortes são as raízes que, progressivamente, o enleiam à capital do campo – chamam-lhe, também, Santaninho ou Santaneiro. Mas é por “Dr. de Santana” que ficará para a posteridade: o seu prestígio, forjado no denodo e na dedicação com que se entregara ao múnus, é, afinal, o prestígio da terra, que o adopta.

Mais tarde – mas em devido tempo e desafiando, em boa medida, a póstuma fatalidade de que padecem os reconhecimentos públicos no nosso país – chegam as homenagens: em 1973, quando se aposenta da função pública, por limite de idade; em 1985, quando a Assembleia Municipal recomenda à Câmara que o seu nome seja dado a uma artéria do concelho e que a sua pessoa venha a ser condecorada; em 1988 quando a estrada nacional, no troço que atravessa Santana, passa a chamar-se Rua Dr. Alberto Leite; em 1993, quando, num acto a que se associou o primeiro-ministro de então, Aníbal Cavaco Silva, a edilidade lhe atribui a Medalha de Ouro do Concelho; em 1997, já depois da sua morte, quando é descerrado um busto em sua honra no Jardim de Santana.

Filho dilecto e adoptivo deste rincão, Alberto Augusto Leite foi clínico que, num país de eminente pobreza e ruralidade ancestral, e num tempo em que a medicina não dispunha ainda dos meios de diagnóstico e de terapêutica com que hoje debela poderosamente a maioria das enfermidades, seguiu o exemplo da personagem de Júlio Dinis e abraçou a profissão como se de um sacerdócio se tratasse, antepondo sempre o juramento de Hipócrates a qualquer outra motivação.

E se, nesse país remoto da primeira metade do século, Alberto Leite não foi o único, ou o derradeiro exemplo de uma casta de homens nobres e de hábitos brancos, neste pedaço ocidental das faldas da Arrábida a evidência persistente da sua singularidade está tão certa quanto o juízo que dele fez o povo.

1 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Thank you, mr. Martins!
Admirável texto, como sempre, e justíssima homenagem a uma figura inesquecível, um homem bom e um médico competente e dedicado.
Bem hajam!

11:41 a.m.  

Enviar um comentário

<< Home