terça-feira, abril 04, 2006

A ideia aqui fica...












Talvez o maior sortilégio dos blogues resida na circunstância de, a qualquer momento, podermos aproveitar uma deixa, seguir um trilho, aprofundar uma pista que nos tenham sido sugeridos por um outro membro da companha ou por qualquer leitor. Segundo parece, a isto chama-se interactividade ou, se preferirem (eu prefiro), partilha.

E tudo de um modo quase instantâneo, como se, no fundo, salvas as devidas distâncias, se tratasse de uma mera conversa de café. Algo que, verdadeiramente, nunca poderá acontecer numa publicação periódica convencional.

A verdade é que, no domingo, as “Namoradeiras” do António Cagica Rapaz, com as suas pintoras americanas, amadoras domingueiras de cavalete armado na nova marginal, não só me levaram a operar certas associações de ideias, como me despertaram lembranças de impressões recebidas à beira do nosso mar em verões passados.

Hoje, um leitor benevolente, que se confessou impressionado, dirigiu-me palavras de simpatia pelo quadro que ontem procurei esboçar toscamente. Estou-lhe grato pela imerecida gentileza do seu comentário, mas outrossim por me ter dado a ideia que motivou esta entrada. Diz ele que Sesimbra tem a luz dos impressionistas e que, ao deambular pela região, lamenta não ser pintor! E prossegue: “Do mar (de Monet) à Arrábida (Sainte Victoire de Cézanne) tantas paisagens podiam ter sido aqui pintadas...”

Por paralelismo, também eu havia lembrado ontem a relação frequente, e intensa, de Monet com o mar e com os rios, no que foi acompanhado por muitos outros mestres, entre os quais o pintor setubalense João Vaz. E, de repente, ao ler o comentário de hoje, dei-me conta de que, com efeito, muitas paisagens sesimbrenses, marinhas ou não, ficaram por pintar. A verdade é que quer a escola romântica, quer as sucessivas gerações naturalistas portuguesas, parecem ter passado ao lado das vistas da Piscosa e do seu termo.

João Vaz, vizinho desta terra, consagra muitos dos seus óleos à sua cidade natal, à foz do Sado e à Serra da Arrábida, mas, ao que julgo saber, não se terá sentido inclinado a armar o cavalete por estas paragens. E, na verdade, o que é que existe? Em que medida, e de que formas, estará Sesimbra presente na pintura portuguesa?

No que respeita às últimas décadas, e da autoria de nomes relevantes, alguma coisa haverá, já devidamente identificada. Mas… e até ao modernismo? A avaliar pelas colecções públicas, o acervo não será muito grande. Seja como for, julgo que estará ainda por fazer um levantamento, tão exaustivo quanto possível, da iconografia sesimbrense na pintura portuguesa.

Graças ao site MatrizNet, pude descobrir, nas colecções do Museu de José Malhoa, uma aguarela de Alberto de Souza (a par de Roque Gameiro, um dos grandes aguarelistas portugueses do século XX), datada de 1940, onde se representa um pescador de Sesimbra. Ainda nas reservas do museu caldense, conserva-se um “Retrato do Dr. Joaquim Rumina”, óleo de Eduardo Malta (na imagem). Refira-se, a propósito, que o grande retratista era genro do pioneiro historiador sesimbrense. O retrato de Dulce Malta (filha de Joaquim Rumina) também integra a pinacoteca do museu. Se a memória me não atraiçoa, creio que este último quadro pode ser visto na exposição permanente.

Fora isto, o que será que resta? Talvez se pudesse começar por um inquérito às muitas instituições que integram a Rede Portuguesa de Museus, pondo especial interesse nas reservas do Museu Nacional de Arte Antiga (e em particular na sua colecção de gravuras), e nas colecções do Museu da Marinha e do Palácio Nacional da Ajuda (convém não esquecer que o rei D. Carlos era simultaneamente um bom amigo de Sesimbra, um distinto oceanógrafo e um notável pintor). E, com o prudente conselho de conhecedores, talvez se pudesse também descobrir algo em colecções particulares.

Deste trabalho preliminar poderia resultar, quem sabe?, para deleite de nativos, adoptivos e forasteiros, uma significativa exposição temporária de pintura, a realizar na nossa terra, nalgum dos espaços museológicos que se anunciam, ficando o seu catálogo a constituir mais um precioso inventário do património sesimbrense. Talvez se pudesse mesmo conseguir a cedência, a título de depósito, de certas peças, de modo a enriquecer algum dos futuros núcleos do Museu Municipal. A ideia aqui fica, à consideração do pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Sesimbra…

3 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Excelente ideia. Recordo-me de um grande quadro cujas figuras humanas são pescadores de Sesimbra, quase em tamanho natural,que esteve há muitos anos na Biblioteca, quando esta ainda funcionava no Largo 2 de Abril. Penso que era propriedade da Câmara. Onde está? Porque não expô-lo na actual Biblioteca, onde todos o víssemos? Penso que Cargaleiro, que tem em Sesimbra, 2ª casa, também tem obras da nossa Vila. Contactem-no e peçam ajuda para esse trabalho bastante interessante. Ou não gostam pedir ajuda a ninguém? Faz-me lembrar a anedota do alentejano que está a regar à chuva e passa um condutor que pára o carro e pergunta: "Oh, amigo, então você está a regar a horta quando Deus lhe mandou tanta àgua e de graça?" Responde o alentejano de dentes cerrados e carrancudo: "NÃO PRECISO DE FAVORES DE NINGUÉM!"

Basta esperar pelo final do dia e voltarem aqui...Vão ver as ideias que irão surgir e depois será só compilá-las.
Obrigado, Sr. Pedro.

10:22 a.m.  
Anonymous Anónimo said...

Tenho estado atenta ao vosso espírito crítico, por vezes, mordaz, embora sempre alicerçado em factos indesmentíveis.
As opiniões podem ser diferentes das de outros, mas na base há sempre coisas concretas, nunca palpites vagos ou teses abstractas.
Por isso vos leio com interesse e agrado.
Esta sugestão do Pedro Martins deixa-me satisfeita pelo que encerra e por mostrar que não se limita a críticas, antes revela espírito de colaboração.
Oxalá seja lido por alguém interessado.

11:10 a.m.  
Anonymous Anónimo said...

Minhas senhoras,

Realmente dois grandes " post's".
Pena que, possivelmente eles não sejam lidos por quem de direito.
Mas é... o país que temos !!!
Gente assim como vocês faz falta.
Já pensaram em se candidatar ???

Parábens SENHORAS do nosso Portugal.

10:27 a.m.  

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