Impressões

A leitura das “Namoradeiras” do António Cagica Rapaz, além do grande prazer que me proporcionou, teve ainda o condão bem “proustiano” de me revolver o limbo das recordações.
Apesar das suas tonalidades serem mais realistas, tudo nesta bela crónica me evocou a presença de um Monet em Saint-Adresse, Argenteuil ou Etretat, e, de um modo geral, a forte atracção que os impressionistas franceses sentiam pelas margens do Sena ou pelas praias da Normandia. Além do mais, americanas a pintar na Europa é coisa que logo nos traz à lembrança os quadros da também impressionista Mary Cassat.
Sensivelmente na mesma época, mas bem mais perto de nós, o mar e os rios (o Tejo, o Sado) são duas constantes na vasta produção saída da paleta luminosa de João Vaz, pintor setubalense cuja obra foi, há alguns meses, objecto de uma grande exposição na Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, em Lisboa. Entre o realismo e o impressionismo, este membro do grupo do Leão fica-nos como um dos bons mestres da pintura portuguesa no último quartel do século XIX e no primeiro do século XX.
Mas estamos em Sesimbra, lugar comum ao sol e ao sul, praia que é oiro sob azul, e a crónica do António fez-me também lembrar que o Verão se aproxima, e que, com ele, há-de regressar o óleo que, ao longo dos anos, entre duas leituras, fui esboçando na tela do espírito, sentado à sombra de um toldo do José Horta, numa das suas eternas cadeiras de braços: uma floresta de estacas pintadas de verde e branco, o claro-escuro das sombras móveis e das lonas brancas, o pequeno bulício de gestos e vozes que Agosto sempre nos traz, e, lá ao fundo, para as bandas do poente, sob o oiro aveludado do cair da tarde que se avizinha, barcos que partem para a faina, em romaria, e gaivotas que dançam ébrias, sobre a silhueta listada do farol…
(Imagem: A Praia, de João Vaz, Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves)

4 Comentários:
Sesimbra tem a luz dos impressionistas e, ao deambular pela região, lamento não ser pintor!
Do mar (de Monet) à Arrábida (Sainte Victoire de Cézanne) tantas paisagens podiam ter sido aqui pintadas...
Obrigado pelo esboço do quadro.
Não é uma impressão, é a certeza de estarmos perante um texto luminoso, memória fotográfica de um crepúsculo eterno.
Nunca haverá outro mais poético, para quem viveu aquele...
Grato, a ambos os leitores, pelas suas simpáticas palavras. Ao leitor impressionado, agradeço ainda a ideia que me deu para uma nova entrada. Segue dentro de momentos.
Ao autor,
"Mas estamos em Sesimbra, lugar comum ao sol e ao sul, praia que é oiro sob azul, e a crónica do António fez-me também lembrar que o Verão se aproxima, e que, com ele, há-de regressar o óleo que, ao longo dos anos, entre duas leituras, fui esboçando na tela do espírito, sentado à sombra de um toldo do José Horta, numa das suas eternas cadeiras de braços: uma floresta de estacas pintadas de verde e branco, o claro-escuro das sombras móveis e das lonas brancas, o pequeno bulício de gestos e vozes que Agosto sempre nos traz..."
Desculpe , será que este ano a velhota ainda vai ler poesia?
Será?
Não me parece...
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