Nocturnos (5)
MEDITAÇÃO DA NOITE
Vinha alargando a noite… Eu continuava,
Já rouco, e aos berros sem decência alguma.
Ai boca estéril, tumultuosa, e escrava!
Cuspia fumo, pó, fel, sarro, espuma…
Minh’alma aflita ouvia-me, e aguardava,
Pesando-me as palavras uma a uma:
Mas, entre tantos sons, só não ressoava
A Palavra essencial que me perfuma!
Quem me julgou – julgou-me, pois, por tudo
Menos por essa Nota inexprimida
Sem a qual nem respondo aos que me chamem…
E eu fiquei só, desconhecido, mudo,
Pairando, estranho à minha própria vida,
Per omnia secula seculorum…, amen.
José Régio
Vinha alargando a noite… Eu continuava,
Já rouco, e aos berros sem decência alguma.
Ai boca estéril, tumultuosa, e escrava!
Cuspia fumo, pó, fel, sarro, espuma…
Minh’alma aflita ouvia-me, e aguardava,
Pesando-me as palavras uma a uma:
Mas, entre tantos sons, só não ressoava
A Palavra essencial que me perfuma!
Quem me julgou – julgou-me, pois, por tudo
Menos por essa Nota inexprimida
Sem a qual nem respondo aos que me chamem…
E eu fiquei só, desconhecido, mudo,
Pairando, estranho à minha própria vida,
Per omnia secula seculorum…, amen.
José Régio

2 Comentários:
Amen, Pedro Martins!
Assim seja, Impaciente Português!
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