FEITIÇO TORTO
por ElísioO Coração e a Cabeça, partes do corpo que representam atitudes em relação à Vida. A Cabeça ao Coração. Assim Zinedine Zidane nos deu uma amostra. O engraçado é que, nesse esforço máximo que é uma final mundial da indústria e do espectáculo de massas, mais a do prestígio nacional reduzido à sua versão mais superficial, passou-se algo de mágico. O italiano pagou a uma bruxa para lhe ensinar uma frase que fizesse o campeão francês descontrolar-se, sendo que a bruxa já nem se lembra que filtro vendeu, nem a quem, nem para quê. O campeão mordeu o isco e saiu, passando de lado, com o seu ar circunspecto de homem do Norte de África ao lado da taça dourada, filmado em grande plano, de costas para ela, como um rapazito em cuecas a ir à casa-de-banho. Nesse momento já se sabia que o jogo estava perdido. Quer dizer: não se sabia, mas as pessoas passaram a desejar, todas, que o Drama se consumasse. Todas, franceses e italianos, jogadores, público e telespectadores. Porquê? Porque o que desejamos é a consagração de um herói. Quando o herói se retira, o jogo passa a ser outro, que continua sempre, porque é que ele reagiu assim, o que é que lhe disseram, foi racismo contra orgulho árabe, fidelidade à França ou à Família, provocação, o que foi, afinal?
Ora, se o jogo de futebol é ainda o altar onde idolatramos o Homem e onde o sacrificamos, para nos purgar de nós mesmos, então fomos todos levados. Levados por nós mesmos. Queremos que as coisas se revelem como julgamos que elas são. E hão-de ser sempre como as recordamos, com drama, tragédia, violência, suor, lágrimas e pele molhada. Tal como no amor, tal como na guerra. Porque queremos amor e guerra. E todos os estádios, todas as mesas de jogo, todas as corridas e competições desaguam aí. Temos que soltar o bicho que há cá dentro. Quando o único bicho que soltámos foi o Burro! Burros! Em vez de nos ordenarmos por dentro, metemos a cabeça no coração, num golpe que vai fazer moda. Os nossos heróis são um italianeco agarotado e um francês nu, dois garotos afeminados a brigarem uma lata. E pagamos-lhes milhões porque pensar ou rezar é uma chatice. Desistimos de meter o coração na cabeça, mergulhamos de cabeça no coração, saímos relaxados do duche da vida, não lhe acrescentámos nada. Ah, mas quem é que nos ensinou esta porcaria?!
A alegria vem dum coração que se ilumina. E aí, talvez as pálpebras nos dêem um pouco de fresca sombra ao olhar...

3 Comentários:
António,
E é capaz de ter razão. Andei aqui a ver os jornais e já há mistério, porque o que foi dito tem um sentido social ou até político e, por isso, não o divulgam. Mas não deixo de achar que os gladiadores do futebol são um bocado galos que pagamos para lutar, numa espécie de jogo ameninado que traduz a eterna meninice das massas. Embora eu saiba o que é no campo por ter sido amigo do velho Migel Arcanjo que foi talvez o homem mais bondoso que alguma vez conheci e que morreu na sequência de lesões no campo (um dia destes faço-lhe um texto-poema).
Agora gostava de lançar um concurso cómico: Que disse Matterazzi realmente a Zidane (Dão-se alvíssaras)?
1- Que achas do Presidente Bush para o Nobel da Paz de 2006?
2 - Com esse penteado pareces mesmo o Berlusconi...
3 - Oh, Zidane, quem é que achas melhor: a Condolezza Rice ou a Hillary Clinton?
E.
Os argelinos têm vindo a destruir, nos últimos anos, a bela França. Porque razão o Z.Zidane não haveria de colaborar?
Lamento que o maior artista do futebol (o Ronaldinho ainda é um aprendiz) termine a carreira com um tipo de agressão que seria, numa pessoa normal, mortal.
Possiveis frases de Materazzi a Zidane:
-Oh Zidane, traz cá essa cabecinha para eu acender um fósforo!
- Anda cá, vá lá, dá-me um beijinho, Mona Lisa!
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