Retratos dos artistas quando jovens (3)
António Cagica Rapaz: Tinta permanente
(Fevereiro de 2000)
Talvez a sua obra não seja só a sua vida; talvez a sua vida nem dê um romance. Mas as suas crónicas são tiros à queima-roupa, desferidos ao coração. É como se os leitores se fizessem ao mar e logo perdessem o pé; é como se, num ringue de boxe, ao soar o gong para o segundo assalto, alguém já estivesse deitado por terra. A terra é Sesimbra e Sesimbra é o mar.
«Porque não escreve este homem um romance?». Quantos leitores não terão feito a mesma pergunta? A gente, depois, pensa melhor e começa a perceber que as crónicas de António Cagica Rapaz são, na prática, o único, o verdadeiro romance que ele alguma vez nos poderia oferecer, um romance escrito ao longo de muitos anos, mês após mês, nas páginas dos dois jornais que há em Sesimbra; um romance sem rumo certo nem horas marcadas, em que cada novo capítulo se ajusta, com os anteriores, numa teia de sentidos cúmplices. Há, no fundo, nas palavras de António Cagica Rapaz, um romance sem enredo, mas que nos vem sempre com histórias; e há histórias passadas em lugares que nos parecem deste mundo, mas que só existem no universo do autor. São lugares de estilo…
Por outras palavras: «No fundo não há uma Sesimbra, há milhares de Sesimbras, uma para cada um de nós.» A frase vem com a força de uma sentença, mesmo se o autor pôs dúvidas no título da crónica, que se chama «Se calhar» e foi publicada na edição de Junho de 1993 de «O Sesimbrense». Há quem diga que a literatura não se faz com bons sentimentos, mas, neste caso, soube o escritor fazer com eles a melhor doutrina - para nos ensinar que há uma terra diferente - por mais pequena que seja - em cada pessoa que a habita.
Prosador de aparência distraída, sonhador impenitente, encenador das emoções e dos encantos, poderão alguns estranhar-lhe esta tendência para uma reflexão constante sobre as palavras – as suas e as dos outros. Mas, diga-se desde já, Cagica Rapaz não se limita a dizer que há milhares de Sesimbras, uma em cada pessoa. Em «Outono» (n’ «O Sesimbrense» de Dezembro de 1992) vai mais longe – até ao limite: «Há mil Figuras e Sesimbra vive por elas, através delas, graças a elas. Elas são Sesimbra.» Há uma Sesimbra – diferente – em cada um de nós. E não há Sesimbra sem pessoas. A terra é porque a vivemos; a vida o que fazemos dela. Querem outro humanismo?
Acusam-no de saudosista, naquilo que o sentimento tem de pior? Foi porque não leram tudo. Certo que, em «Se calhar», o autor reconhece a sua «idade de ouro», que era quando Sesimbra era «longe de Lisboa, fora do mundo, a leste do paraíso…», o tempo em que seu pai «se queixava da agitação que perturbava a vida pachorrenta da nossa terra, nos tempos idílicos dos charutos na praia do tio Abel, do Numância bem composto, das peregrinações à Arrábida, das caldeiradas monumentais que terminavam com histórias rocambolescas narradas pelo Antero do Pão». Mas nessa mesma crónica, com respeito a pretensos saudosismos – que entronizam sempre num espantalho o tempo embalsamado que julgam único e a quem prestam devoção –, ficamos todos conversados: «Cada geração tem a sua Sesimbra, cada geração perdeu a sua Sesimbra, mas ficou agarrada a uma recordação ideal, poetizada, retocada pela necessidade que todos temos de acreditar em alguma coisa, de nos agarrarmos a certas coisas.» Simplesmente, tudo tem o seu tempo, todos têm o seu tempo, cada qual a sua idade de ouro. A isto, chama-se saudade. Mais nada. E não tem mal nenhum…
A tinta é permanente: percebe-se que o romance nunca tenha um enredo, que esteja em perpétua maturação; que, ao arrepio dos cânones, não tenha um princípio, nem meio, nem fim. Porque a sua acção não se inscreve propriamente na ordem convencionada de que há um tempo e um espaço para que as coisas aconteçam. Há, sim, um tempo mítico – um tempo forte, sagrado, onde tudo aconteceu –, a que, em cada instante, se regressa e do qual se sai diferente. Um tempo que vivifica. Escrever é, por isso, um acto ritual, através do qual se busca uma harmonia mundi que se perde e logo se reencontra, e assim sucessivamente. Em bom rigor, não há passado nem há presente. O passado só existe porque existe no presente, e não pode ser revisitado como se estivesse entre quatro paredes: o passado reelabora-se – reelabora-nos – e cada um de nós é logo outro. É a vida…
Que não há passado, nem sequer presente, mas algo que transcende em muito esta noção simplista, é o que nos explica Cagica Rapaz, em «O Sesimbrense» de Junho de 1992, a propósito de uma roda de carroça encostada a um palheiro. A crónica – uma seta despedida sobre a infância – chama-se «Maria Amália» e é um dos mais belos textos que alguma vez escreveu: «Aquela roda era o tempo parado, a âncora lançada no mar da tranquilidade, da serenidade, da eternidade. Era o mar, era o campo, sem horas, ao ritmo dos dias e das noites, das carroças sonolentas, dos burros a passo curto, dos moinhos sem pressa, do sol a pino, do sol posto, das noites infinitas de céu estrelado…»
Só existe o futuro, que se chama sonho e é o motor do presente. A explicação vem, ainda e sempre, em «Se calhar»: «Mas Sesimbra será sempre Sesimbra, uma para cada um de nós, e a Pedra Alta, com ou sem placa, será sempre a Pedra Alta. Porque precisamos de lenda, precisamos de poesia e, sobretudo, de sonho…»
Talvez a sua vida nem dê um romance. Dá, por certo, um curriculum vitae, três ou quatro pontos cardeais. No seu caso, uma licenciatura em Românicas está longe de ser indiferente, por mais que o fosse à partida, como ele um dia parece ter confessado; há ainda uma carreira de futebolista interessante – na CUF, no Belenenses, na Académica; há, por fim, uma ausência profissional de dezanove anos em Paris, a perspectiva que se adquire com a distância.
Diga então quem puder como pode viver sem as asas do sonho um homem que nasce em Sesimbra, a ver o mar; que se vai deslumbrar com as aulas encantatórias desse ilhéu universal chamado Vitorino Nemésio; que segue as pisadas – cá dentro, lá fora – do lusíada António Nobre? Depois de Coimbra – haverá no mundo inteiro cidade mais bonita? –, depois de Paris, de Sesimbra, claro está, não o queriam poeta?
O futebolista explica por certo muita coisa: a poesia feita com as palavras do homem da rua; o humor gentil dos trocadilhos quando vira do avesso certos topónimos e os nomes próprios. Devaneios de Verão…
A gente lê e percebe que o maravilhoso das coisas é elas serem afinal tão simples: pessoas que rasgam sorrisos de orelha a orelha e nos fazem caretas; que nos pregam partidas e se desfazem em gargalhadas; que correm, num frenesim, atrás de uma bola … ou para apanhar o carro das sete.
Pessoas, momentos, lugares. O resto é teoria geral…
Pedro Martins
(Fevereiro de 2000)
Talvez a sua obra não seja só a sua vida; talvez a sua vida nem dê um romance. Mas as suas crónicas são tiros à queima-roupa, desferidos ao coração. É como se os leitores se fizessem ao mar e logo perdessem o pé; é como se, num ringue de boxe, ao soar o gong para o segundo assalto, alguém já estivesse deitado por terra. A terra é Sesimbra e Sesimbra é o mar.
«Porque não escreve este homem um romance?». Quantos leitores não terão feito a mesma pergunta? A gente, depois, pensa melhor e começa a perceber que as crónicas de António Cagica Rapaz são, na prática, o único, o verdadeiro romance que ele alguma vez nos poderia oferecer, um romance escrito ao longo de muitos anos, mês após mês, nas páginas dos dois jornais que há em Sesimbra; um romance sem rumo certo nem horas marcadas, em que cada novo capítulo se ajusta, com os anteriores, numa teia de sentidos cúmplices. Há, no fundo, nas palavras de António Cagica Rapaz, um romance sem enredo, mas que nos vem sempre com histórias; e há histórias passadas em lugares que nos parecem deste mundo, mas que só existem no universo do autor. São lugares de estilo…
Por outras palavras: «No fundo não há uma Sesimbra, há milhares de Sesimbras, uma para cada um de nós.» A frase vem com a força de uma sentença, mesmo se o autor pôs dúvidas no título da crónica, que se chama «Se calhar» e foi publicada na edição de Junho de 1993 de «O Sesimbrense». Há quem diga que a literatura não se faz com bons sentimentos, mas, neste caso, soube o escritor fazer com eles a melhor doutrina - para nos ensinar que há uma terra diferente - por mais pequena que seja - em cada pessoa que a habita.
Prosador de aparência distraída, sonhador impenitente, encenador das emoções e dos encantos, poderão alguns estranhar-lhe esta tendência para uma reflexão constante sobre as palavras – as suas e as dos outros. Mas, diga-se desde já, Cagica Rapaz não se limita a dizer que há milhares de Sesimbras, uma em cada pessoa. Em «Outono» (n’ «O Sesimbrense» de Dezembro de 1992) vai mais longe – até ao limite: «Há mil Figuras e Sesimbra vive por elas, através delas, graças a elas. Elas são Sesimbra.» Há uma Sesimbra – diferente – em cada um de nós. E não há Sesimbra sem pessoas. A terra é porque a vivemos; a vida o que fazemos dela. Querem outro humanismo?
Acusam-no de saudosista, naquilo que o sentimento tem de pior? Foi porque não leram tudo. Certo que, em «Se calhar», o autor reconhece a sua «idade de ouro», que era quando Sesimbra era «longe de Lisboa, fora do mundo, a leste do paraíso…», o tempo em que seu pai «se queixava da agitação que perturbava a vida pachorrenta da nossa terra, nos tempos idílicos dos charutos na praia do tio Abel, do Numância bem composto, das peregrinações à Arrábida, das caldeiradas monumentais que terminavam com histórias rocambolescas narradas pelo Antero do Pão». Mas nessa mesma crónica, com respeito a pretensos saudosismos – que entronizam sempre num espantalho o tempo embalsamado que julgam único e a quem prestam devoção –, ficamos todos conversados: «Cada geração tem a sua Sesimbra, cada geração perdeu a sua Sesimbra, mas ficou agarrada a uma recordação ideal, poetizada, retocada pela necessidade que todos temos de acreditar em alguma coisa, de nos agarrarmos a certas coisas.» Simplesmente, tudo tem o seu tempo, todos têm o seu tempo, cada qual a sua idade de ouro. A isto, chama-se saudade. Mais nada. E não tem mal nenhum…
A tinta é permanente: percebe-se que o romance nunca tenha um enredo, que esteja em perpétua maturação; que, ao arrepio dos cânones, não tenha um princípio, nem meio, nem fim. Porque a sua acção não se inscreve propriamente na ordem convencionada de que há um tempo e um espaço para que as coisas aconteçam. Há, sim, um tempo mítico – um tempo forte, sagrado, onde tudo aconteceu –, a que, em cada instante, se regressa e do qual se sai diferente. Um tempo que vivifica. Escrever é, por isso, um acto ritual, através do qual se busca uma harmonia mundi que se perde e logo se reencontra, e assim sucessivamente. Em bom rigor, não há passado nem há presente. O passado só existe porque existe no presente, e não pode ser revisitado como se estivesse entre quatro paredes: o passado reelabora-se – reelabora-nos – e cada um de nós é logo outro. É a vida…
Que não há passado, nem sequer presente, mas algo que transcende em muito esta noção simplista, é o que nos explica Cagica Rapaz, em «O Sesimbrense» de Junho de 1992, a propósito de uma roda de carroça encostada a um palheiro. A crónica – uma seta despedida sobre a infância – chama-se «Maria Amália» e é um dos mais belos textos que alguma vez escreveu: «Aquela roda era o tempo parado, a âncora lançada no mar da tranquilidade, da serenidade, da eternidade. Era o mar, era o campo, sem horas, ao ritmo dos dias e das noites, das carroças sonolentas, dos burros a passo curto, dos moinhos sem pressa, do sol a pino, do sol posto, das noites infinitas de céu estrelado…»
Só existe o futuro, que se chama sonho e é o motor do presente. A explicação vem, ainda e sempre, em «Se calhar»: «Mas Sesimbra será sempre Sesimbra, uma para cada um de nós, e a Pedra Alta, com ou sem placa, será sempre a Pedra Alta. Porque precisamos de lenda, precisamos de poesia e, sobretudo, de sonho…»
Talvez a sua vida nem dê um romance. Dá, por certo, um curriculum vitae, três ou quatro pontos cardeais. No seu caso, uma licenciatura em Românicas está longe de ser indiferente, por mais que o fosse à partida, como ele um dia parece ter confessado; há ainda uma carreira de futebolista interessante – na CUF, no Belenenses, na Académica; há, por fim, uma ausência profissional de dezanove anos em Paris, a perspectiva que se adquire com a distância.
Diga então quem puder como pode viver sem as asas do sonho um homem que nasce em Sesimbra, a ver o mar; que se vai deslumbrar com as aulas encantatórias desse ilhéu universal chamado Vitorino Nemésio; que segue as pisadas – cá dentro, lá fora – do lusíada António Nobre? Depois de Coimbra – haverá no mundo inteiro cidade mais bonita? –, depois de Paris, de Sesimbra, claro está, não o queriam poeta?
O futebolista explica por certo muita coisa: a poesia feita com as palavras do homem da rua; o humor gentil dos trocadilhos quando vira do avesso certos topónimos e os nomes próprios. Devaneios de Verão…
A gente lê e percebe que o maravilhoso das coisas é elas serem afinal tão simples: pessoas que rasgam sorrisos de orelha a orelha e nos fazem caretas; que nos pregam partidas e se desfazem em gargalhadas; que correm, num frenesim, atrás de uma bola … ou para apanhar o carro das sete.
Pessoas, momentos, lugares. O resto é teoria geral…
Pedro Martins

1 Comentários:
Por este andar, meu caro Tó Manel, ainda acabamos por dar razão ao nosso António Ladeira quando, há uns dias atrás (ele que me perdõe a inconfidência), me dizia só esperar que não
nos chamassem um dia a escola do "elogio mútuo", como chamava a geração de setenta aos
românticos serôdios, Pinheiro Chagas, Castilho, etc.,
salvaguardadas as devidas
distâncias, claro.
A esta luz, e não só como alibi, foi providencial a escolha das duas fotografias dos "Vencidos da Vida" para iniciar as "hostilidades".
Jantemos, pois...
Enviar um comentário
<< Home