quinta-feira, janeiro 26, 2006

Sesimbra na poesia brasileira

Graças ao meu amigo Ruy Ventura, e às suas deambulações pelos alfarrabistas de Lisboa (um hábito que nos é comum), pude descobrir o belíssimo poema “Estrela-do-Mar em Sesimbra”, da autoria do escritor brasileiro Ribeiro Couto (na foto), que hoje partilho com os leitores.

Autor do romance “Cabocla”, Ribeiro Couto foi uma das vozes mais importantes da literatura brasileira do século XX. Nasceu em Santos, São Paulo, em 12 de Março de 1898. Sua mãe, Nísia da Conceição Esteves Ribeiro, era madeirense.

A sua vocação literária manifestou-se muito cedo. Formado em Direito, Ribeiro Couto foi também jornalista, tendo começado a frequentar, no início da década de 20 do século passado, os meios intelectuais do Rio de Janeiro, onde conhece, entre outros, Olavo Bilac e Manuel Bandeira, de quem ficará amigo íntimo até ao fim da vida.

O seu primeiro livro de poemas, “O Jardim das Confidências”, foi publicado em 1921. No ano seguinte surgem dois livros de contos: “A Casa do Gato Cinzento” e “O Crime do Estudante Batista”.

Desde então, em paralelo com a carreira diplomática, em que ingressara em 1931, e até à sua morte (ocorrida em Paris, a 30 de Maio de 1963, devido a um enfarte fulminante), publicará uma vasta obra, que abrange a poesia, a ficção (conto e romance), o ensaio e a crónica.

Em 1943 foi indicado para a Embaixada do Brasil em Lisboa, onde permaneceria até 1946. Deve-se à sua estada em Portugal o notável “Estrela-do-Mar em Sesimbra”, que, a par de outros poemas dedicados a localidades portuguesas, integra o livro “Entre Mar e Rio”, de 1952. Ele aí fica.


ESTRELA-DO-MAR EM SESIMBRA

Morta na areia, dura estrela fria,
Que abandonada luz em ti viveu?
Estrela, sim, mas quem te chamaria
Estrela, se à mercê da mão como eu
Sentisse a tua condição sombria?

De que noite abismal, de que remota
Paragem ao molusco o céu chegou,
Qual o seu nascimento e a sua rota,
Se do fundo do mar se afeiçoou
Ao que anda além da superfície ignota?

Caída, não. Não vem de estrela alguma
Esta que nos oceanos já dormiu
E amortalhou-se com areia e espuma.
Da terra vem. Do chão do mar surgiu
E ainda é mar que da concha lhe ressuma.

Quebrá-la agora bem que eu poderia.
Mas para quê? Nada compreenderei.
Nada compreenderei, estrela fria,
Senão que morta estás e que não sei
Se duraste um milénio ou só um dia.

Ribeiro Couto

6 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Lindo!!!
Já viram que os sesimbrenses só querem maledicência??
Ninguém comenta nada que seja cultura!!

Continuem com a poesia e com a escrita fantástica! Bem hajam D'Artagnan e os Três Mosqueteiros! (Quem é o D'Artagnan?). Ainda estou à espera da história do Cavaleiro!! Agora que A Nossa História de Sesimbra parou, talvez através deste blog continuemos a conhecer as pequenas histórias que fizeram esta grande Vila. Força Caqgica Rapaz, Precisamos de eventos!

Urban@

12:36 p.m.  
Blogger rafaela said...

Manuel Bandeira também é fabuloso, descobri-o quando descobri a poesia e ainda hoje não deixa de ser um dos meus poetas de eleição.

4:29 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

A Urban@ se fosse de onde quer parecer ser sabia que por essa história não se pergunta .

7:05 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Agradeço à Urbana a simpatia das suas palavras.
O "Sesimbra e Ventos" pretende ser um espaço de descoberta e partilha, mas não descura a vertente crítica. As críticas sempre aqui terão um lugar importante, desde que sejam justas, oportunas e relevantes...
A comparação com os três mosqueteiros (que afinal eram quatro) é curiosa. Não sei qual de nós será o D'Artagnan, mas o lema de união das personagens do Alexandre Dumas calha-nos bem.
E já agora, vou procurar seguir o sugestão da Rafaela A. no que diz respeito ao Manuel Bandeira.

9:19 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Agora que li pela "enésima" (Ai, meu Deus, que o Sr. Cagica Rapaz e o João Aldeia me vão estrangular pelo termo usado!...)"Sesimbra na poesia brasileira" lembrei-me de um autor romântico brasileiro de nome Lupicínio Rodrigues que, (e sem alusão nenhuma a Sesimbra, lembrei-me, pronto!), fez a meu ver duas descobertas extraordinárias: a dor de cotovelo, e a música "Felicidade" (Felicidade/foi embora e a saudade no meu peito/Ainda mora e é por isso que eu canto/lá de fora ...) Linda. O curioso é saber que Felicidade aqui é a amada que o deixou e não um estado de espírito! A muito custo se consegue um CD, só mesmo de um amigo de um amigo. Ouvi pela 1ª vez falar do autor/cantor por uma cronista de um diário lisboeta, e iniciei uma busca hercúlea e lá consegui um cd de chorinho e desgracinha! Às vezes também sabe bem ouvir!!

Mas voltando à dor-de-cotovelo, que é erradamente usada para demonstrar inveja, não é senão para demonstrar dôr de amor, ou seja,refere à prática, comum nos bares, do homem ou mulher que se senta no balcão, crava os cotovelos no mesmo, pede um whisky duplo, faz bolinhas com o fundo do copo e chora o amor que perdeu.
Lindo!
Por isso,Satélites Galileanos (Para quem não sabe são 4 - Io, Europa, Ganimedes e Callisto e são os 4 satélites mais brilhantes descobertos por Galileu), desculpem a intromissão desta "aula de cultura", no vosso blog onde era suposto apenas comentar-Vos.

Urban@

4:00 p.m.  
Blogger Ruy Ventura said...

Outros poemas aparecerão. Brevemente passarei ao Pedro um belo poema de José do Carmo Francisco intitulado "Sesimbra em Julho".

9:24 a.m.  

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