segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Nos cem anos do Refugo (3)

Iniciamos hoje, no "Sesimbra e Ventos", a publicação do texto da palestra que António Reis Marques consagrou ao centenário da Sociedade Recreio Sesimbrense, e que foi escutada no passado sábado, na sessão solene comemorativa daquela efeméride.
No centenário da Sociedade Recreio Sesimbrense
Embora nunca tenha participado na sua vida associativa, ligam-me porém a esta colectividade alguns laços afectivos, dado que foi aqui que aprendi as primeiras letras, através da “Cartilha Maternal” ou “Arte de Leitura” criada por João de Deus, o grande pedagogo ou poeta lírico que esteve em Sesimbra a fim de orientar a fundação de uma escola para aplicação do seu método de ensino, a qual foi instalada num prédio da antiga Rua da Praça, hoje Rua Coronel Barreto.

Foi também nesta casa que meu pai, ainda adolescente, integrou o seu primeiro agrupamento musical, sendo depois subscritor dos primitivos estatutos, ficando por isso também ligado à sua fundação.

Assim, foi com muito gosto que aceitei o convite, que tanto me honra, para tomar parte nas comemorações do primeiro centenário desta Sociedade.

Não podendo fazer a sua história, até porque, e infelizmente, se perdeu a documentação que o permitiria, procurarei somente dizer-vos algo do que me foi dado conhecer sobre a sua origem e também sobre algumas das suas mais relevantes actividades ou realizações que a memória preservou.

Relativamente à origem, sabe-se que foi neste edifício, construído no mesmo local onde existiu o antigo forno da Ordem de Santiago, o forno comunitário da freguesia, que daria origem ao primitivo nome de “Rua do Forno”, como ainda é vulgarmente conhecido este arruamento, que nasceu em 18 de Fevereiro de 1906, a agremiação que ficou para sempre designada por “O Refugo”.

Como sabemos, refugo significa o que se rejeita, aquilo que de alguma coisa se põe de parte, depois de se ter separado ou escolhido o seu melhor. Porquê então foi dada a esta Sociedade, logo na sua origem, a depreciativa alcunha de refugo, que curiosamente o vulgo consagrou?

Na época já existiam em Sesimbra duas boas colectividades recreativas: o Grémio, que fez há pouco 153 anos, e a desaparecida Sociedade Impressão Musical, que foi predecessora da actual Sociedade Musical Sesimbrense.

No Grémio preponderavam os monárquicos, e na Impressão Musical os republicanos. Devido às constantes disputas políticas, características desses conturbados tempos que antecederam a implantação da República, os seus dirigentes ultrapassavam bastas vezes a natural e até salutar rivalidade, na organização de festas, na actuação das suas filarmónicas ou dos grupos de teatro, para se envolverem nas lutas partidárias, que chegaram a ser causa de graves confrontos e distúrbios. Manifestando o seu descontentamento pelo rumo dos acontecimentos, um grupo de sócios da Impressão Musical incompatibilizou-se com a respectiva Direcção e decidiu abandonar a colectividade com o propósito, que tinha sido previamente acordado entre eles, no maior sigilo, de criar uma nova agremiação onde não imperassem os facciosismos políticos.

Desagradavelmente surpreendidos pela insólita ocorrência, que causou alguma perturbação na vida interna da Sociedade, até porque alguns dos dissidentes eram membros da banda de música, que por isso ficou longo tempo impossibilitada de actuar, os dirigentes tentaram minimizar os seus reflexos na opinião pública, onde aliás gozavam de alguma influência.

Assim, e ocultando o verdadeiro motivo da dissidência, fizeram constar que os elementos desavindos eram pessoas de comportamento indisciplinado, indesejáveis, constituindo portanto a menor valia, o refugo dos seus associados, dos quais se viam livres com satisfação.

Que eles não eram merecedores da injuriosa qualificação, que apenas por despeito lhes fora atribuída, ficou bem evidente no número e qualidade dos conterrâneos que conseguiram reunir para criarem a nova associação, verificando-se até o facto curioso de alguns deles serem oriundos, também por idênticas desavenças, da colectividade rival, que era o Grémio.

A Sociedade Recreio Sesimbrense nasceu, por conseguinte, duma dissidência na Sociedade Impressão Musical e, já decorrido um século, continua a ser nomeada pela alcunha de “refugo” com que desde logo a quiseram, mas não conseguiram, desacreditar.

De facto, a atitude dos seus detractores, em vez de os desanimar, teve exactamente o efeito contrário, visto que ainda mais incentivou os fundadores a prosseguirem com entusiasmo no seu propósito de criarem esta sociedade, que viria desde o seu início a afirmar-se, perante a comunidade sesimbrense, pelo carácter meritório e inovador das suas iniciativas.
António Reis Marques
(continua)

4 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Obrigada senhor Pedro Martins por nos trazer este belo artigo do senhor Reis Marques que é uma pessoa que muito sabe sobre Sesimbra. Já tenho saudades do que ele escrevia na Sesimbra Eventos.
A propósito, o senhor Martins saberá dizer-me se a revista acabou mesmo ou se vai continuar?
Continuem, meus senhores, já nos habituámos à vossa companhia.

11:38 a.m.  
Anonymous Anónimo said...

Revista de qualidade e livros da Colecção de Sesimbra, resumindo, cultura da terra e legado para os jovens, neste momento só se o anonymous, for ao Arquivo Municipal, e mesmo assim, duvido que não tenham ido para abate...

Urban@

2:45 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

O António Reis Marques, o nosso "velho de terra", é e continuará a ser uma referência para a companha do "Sesimbra e Ventos".
Estamos-lhe gratos por quanto lhe devemos e, em especial, por nos ter cedido para publicação, em primeira mão, o texto da sua magnífica palestra de sábado passado, que é, salvo erro, o seu primeiro escrito publicado desde Outubro do ano passado.
Sobre a "Sesimbra Eventos" nada lhe poderei dizer, pois deixei de estar ligado aos destinos desta publicação. Talvez a Câmara Municipal de Sesimbra o possa esclarecer.
Mas, constantando eu que boa parte da sua pretérita equipa está nesta companha e não pretende mudar de barca, o quer que seja que aí venha, pouco terá a ver com o passado. Digo eu, não sei...
Seja como for, o meu caro amigo sempre se pode ir orientando por estas bandas, pois o peixe, seja fresco ou congelado, abunda e é de primeira água. Olhe, faça como a Urbana: governe-se!

6:58 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

É pena que o senhor Pedro Martins não possa ser mais concreto, mas compreende-se as razões. Pela minha parte, tendo sido leitor atento e apreciador da Sesimbra Eventos, acho estranho que a Câmara ainda não tenha sido capaz de nos dizer se mantém a publicação ou se vira a página.
Se mantiver, o título será o mesmo?
E a companha qual será? A ajuizar pela qualidade literária do Boletim, vou ali e já venho.
Se não mantêm, como é, vai haver outra? Quando? Em que moldes?
Confesso que tenho muita curiosidade, mas fraca expectativa.
Não fiquem vaidosos, mas a vossa Eventos era uma maravilha.
Resta-me aguardar, paciente que sou. Believe me...

9:48 p.m.  

Enviar um comentário

<< Home