Palavra puxa palavra
O nosso compositor Luis de Freitas Branco, cuja obra ando agora a ouvir com o entusiasmo próprio das grandes descobertas, dedicou dois poemas sinfónicos a Antero de Quental, um deles inspirado no soneto “Solemnia Verba”. Não sei se a escolha que fiz do “Nocturno”, na sexta-feira, se ficou também a dever às minhas actuais tendências melómanas, mas certo é que o soneto anteriano inspirou o António Cagica Rapaz.
Palavra puxa palavra e, deste modo, o António, retomando a magna paródia em torno do Pantero do Quintal, revisitou a pré-história da nossa amizade, que haveria de esperar uns três anos (mais ou menos…) para dar os primeiros passos.
Até lá, fui continuando a ler, sempre com enorme prazer, as suas crónicas na última página de “O Sesimbrense”. São textos cheios de glória que, só por si, justificavam que se assinasse aquele jornal. Depois, bom, depois foi a aventura dos “Noventa e tal contos” e o mais que se sabe, e que já por aqui foi sendo dito.
Desde então é meu privilégio tê-lo entre os melhores amigos. O António só sabe cultivar a amizade com lealdade e franqueza, e isso talvez possa surpreender e desagradar aos que, nas relações humanas, estão mais habituados aos ziguezagues e aos malabarismos.
Dito isto, e para gáudio do Impaciente Português, regressemos aos sonetos de Antero. Este que se segue foi magistralmente lido pela actriz Carmen Dolores, há alguns anos, na Matriz de Sesimbra, numa noite de poesia em que o António Cagica Rapaz deu a conhecer as quadras que, havia pouco, escrevera sobre o Senhor das Chagas, e que depois ficaram nas páginas d’ "Os Chamadores".
À VIRGEM SANTÍSSIMA
Cheia de graça, Mãe de Misericórdia.
Palavra puxa palavra e, deste modo, o António, retomando a magna paródia em torno do Pantero do Quintal, revisitou a pré-história da nossa amizade, que haveria de esperar uns três anos (mais ou menos…) para dar os primeiros passos.
Até lá, fui continuando a ler, sempre com enorme prazer, as suas crónicas na última página de “O Sesimbrense”. São textos cheios de glória que, só por si, justificavam que se assinasse aquele jornal. Depois, bom, depois foi a aventura dos “Noventa e tal contos” e o mais que se sabe, e que já por aqui foi sendo dito.
Desde então é meu privilégio tê-lo entre os melhores amigos. O António só sabe cultivar a amizade com lealdade e franqueza, e isso talvez possa surpreender e desagradar aos que, nas relações humanas, estão mais habituados aos ziguezagues e aos malabarismos.
Dito isto, e para gáudio do Impaciente Português, regressemos aos sonetos de Antero. Este que se segue foi magistralmente lido pela actriz Carmen Dolores, há alguns anos, na Matriz de Sesimbra, numa noite de poesia em que o António Cagica Rapaz deu a conhecer as quadras que, havia pouco, escrevera sobre o Senhor das Chagas, e que depois ficaram nas páginas d’ "Os Chamadores".
À VIRGEM SANTÍSSIMA
Cheia de graça, Mãe de Misericórdia.
Num sonho todo feito de incerteza,
De nocturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza…
Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade…
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há na natureza…
Um místico sofrer… uma ventura
Feita só do perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira…
Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa…
E deixa-me sonhar a vida inteira!
Antero de Quental

1 Comentários:
É isso é, o vosso espírito de equipa, a cumplicidade que se pressente existir entre vocês, é coisa bonita. E invejável, se não invejada.
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