sábado, abril 08, 2006

Perdidos & Achados (2)

A proposta de hoje é um pequeno texto de Fernando Pessoa – também ele um notável cultor do género – sobre a quadra popular. Foi escrito para a obra Missal de Trovas, de António Ferro e Augusto Cunha, publicada em Lisboa em 1914.
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A Quadra Popular

A quadra é o vaso de flores que o Povo põe à janela da sua Alma.

Da órbita triste do vaso escuro a graça exilada das flores atreve o seu olhar de alegria.

Quem faz quadras portuguesas comunga a alma do Povo, humildemente de nós todos e errante dentro de si própria.

Os autores deste livro realizaram as suas quadras com destreza lusitana e fidelidade ao instintivo e desatado da alma popular.

Elogiá-los mais seria elogiá-los menos.

17-IV-1914

Fernando Pessoa

6 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Este prefácio é Pessoa! Quanto ás incursões do autor nas quadras, embora as tenha cultivado, não conseguiu, na minha opinião, grande colheita... Meter uma ideia em quatro versos, quando tinha tantos dentro dele, não era uma especialidade da casa!

12:25 a.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Estou de acordo com o luso Impaciente, quando sugere que o verdadeiro, o grande Pessoa não está nas quadras, e que este género não permite grandes veleidades.

Mas, seja como for, parece-me que entre as centenas de quadras que Pessoa escreveu, há coisas admiráveis, como aquela que já aqui dei à estampa, sobre o esquecimento, ou as que se seguem:

Há um doido na nossa voz
Ao falarmos, que prendemos:
É o mal-estar entre nós
Que vem de nos percebermos.

O meu sentimento é cinza
Da minha imaginação,
E eu deixo cair a cinza
No cinzeiro da Razão.

Claro está que estas poesias já não são populares, são eruditas, seja pelo vocabulário, seja pela sintaxe, seja pela temática.

Fora isto, há muitas quadras realmente ao gosto popular na obra do autor da "Mensagem".

8:58 a.m.  
Anonymous Anónimo said...

Parece-me que estamos de acordo! Os dois exemplos que dá, são exemplos de quadras... coxas!
Na primeira, "prendemos" rima com "percebermos"; na segunda, a "cinza" vem repetida no primeiro e no terceiro verso!
Liberdades poéticas que, por exemplo, o quase analfabeto, António Aleixo, um mestre da quadra popular, não teria...
Mas ninguém ousaria colocar Aleixo nem nos calcanhares de Pessoa!!!

8:14 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Pois, essa comparação...
Mas olhe que o Pascoaes disse um dia, numa entrevista, que o Pessoa, verdadeiramente, não era poeta. Considerava-o o nosso mais genial crítico, superior mesmo ao Eça, ao Camilo e ao Fialho...
Mas, na sua opinião, não era poeta, pois tentava intelectualizar a poesia, e isso era a morte dela.
E esta, hein!?

8:35 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Não é a poesia uma expressão do intelecto?
Pascoaes deixou-nos uma poesia que, quer queiramos ou não, reflecte uma intelectualidade acima da média... alta!
Tal não põe em questão o lugar que ocupa, com todo o mérito, no Panteão da nossa poesia.

9:43 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Obviamente, também não estou de acordo com Pascoaes. Referi esta sua opinião justamente por a considerar peregrina.

Do Pessoa ortónimo bastará ler a "Mensagem", "O menino de sua mãe" ou "Liberdade", para se ver que há suficiente emoção na sua poesia. Ainda que parte dela possa parecer "demasiado cerebral".

Mas o ponto é que Pascoaes aqui não teve razão. E custa-me sempre admitir uma coisa dessas.

Continuamos, pois, de acordo...

9:56 p.m.  

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