quarta-feira, fevereiro 22, 2006

A emenda e o soneto

No passado fim-de-semana, e por mero acaso, deu-se a coincidência feliz de o “Sesimbra e Ventos” publicar dois belos poemas de Jorge de Sena. Um no sábado, pela mão do José Pedro Francisco, nessa sua interessantíssima rubrica que é “Ut Pictura Poesis”; o outro no domingo, nos meus “Instantâneos”. E ainda bem que assim foi. Releiam-nos, se fazem favor...

Bastaria a Jorge de Sena ter sido um notável poeta (e prosador) para o trazermos ao nosso convívio. Mas a esta sua condição maior, e para o que nos importa, acresce o facto de Sena, no seu romance “Sinais de Fogo”, que decorre nos anos trinta do século passado, ter proclamado, pela voz do narrador referindo-se a uma personagem (o Mesquita), a excelência de Sesimbra. Aí nos é dito que “o Mesquita ia todos os anos para Sesimbra, o que era, suponho, uma tradição de família: ele e os pais, como outros parentes e antepassados, não concebiam que fosse possível veranear-se noutro lugar.”

Por tudo isto – a grandeza da sua poesia e o presumível apreço que nutriu por Sesimbra – Jorge de Sena não merecia estar a ser tão maltratado na toponímia do concelho. Eu passo a explicar.

O nome do autor de “O Físico Prodigioso” foi dado a um dos arruamentos perpendiculares à Avenida João Paulo II, em Santana, à direita de quem vai para Lisboa. Decisão meritória e incontestável!

Num primeiro momento, o poeta ingressou na toponímia local por mor de uma placa com os seguintes dizeres: Rua Jorge Cândido de Sena – Engenheiro – 1919-1978. Causa assombro, não é? Não sabemos se Jorge de Sena teve particular mérito como engenheiro. Sabemos, porém, que não ficou para a história no exercício desta profissão. Nem ficou para a história da literatura com o nome de Jorge Cândido de Sena.

Supostamente alertados para o erro, os serviços de toponímia locais tentaram emendá-lo com a colocação de uma nova placa em que o nosso escritor, já identificado como tal, se viu, no entanto, privado do “de”, partícula que faz parte integrante da sua graça. E aí está a Rua Jorge Sena, a revelar a insustentável leveza que logrou tratar o nome do poeta como se estivesse a introduzi-lo numa qualquer base de dados informática.

Se a toponímia local tivesse uma função meramente identificadora, bastaria dar às nossas ruas números ou letras em vez de nomes. Acontece ainda em muitos lugares, por esse mundo fora. Como, porém, parece que se pretende ao mesmo tempo distinguir vultos da nossa história, e nomeadamente da nossa literatura, há que ter especial cuidado com o que se inscreve numa placa toponímica, não vá dar-se o caso de, em lugar de se homenagear o escolhido, acabar por se diminuí-lo.

Por tudo o que representa, Jorge de Sena não merecia nada disto. Estamos certos de que, se ele ainda cá estivesse, o engenheiro que também foi teria já resolvido esta difícil equação de fazer equivaler o nome correcto ao ofício dilecto.

Quer-me bem parecer que, quanto a placas, não haverá duas sem três... E já agora, o mesmo quanto a poemas. Por isso, feita a emenda, aqui fica o soneto:

INDEPENDÊNCIA

Recuso-me a aceitar o que me derem.
Recuso-me às verdades acabadas;
recuso-me, também, às que tiverem
pousadas no sem-fim as sete espadas.

Recuso-me às espadas que não ferem
e às que ferem por não serem dadas.
Recuso-me aos eus-próprios que vierem
e às almas que já foram conquistadas.

Recuso-me a estar lúcido ou comprado
e a estar sozinho ou estar acompanhado.
Recuso-me a morrer. Recuso a vida.

Recuso-me à inocência e ao pecado
como a ser livre ou ser predestinado.
Recuso tudo, ó Terra dividida!

30/6/42

Jorge de Sena

4 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Ainda em relação ao que escreveu sobre a toponímia, engenheiros e poetas, tomo a ousadia de também eu deixar aqui um poema magnífico de Jorge de Sena:

A Diferença Que Há

A diferença que há entre os estudiosos e os poetas
É que aqueles passam a vida inteira com o nariz num assunto
A ver se conseguem decifrá-lo, e estes
Abrem o livro, lêem três páginas, farejam as restantes
(nem sequer todas) e sabem logo do assunto
o que os outros não conseguiram saber. Por isso é que
os estudiosos têm raiva dos poetas,
capazes de ler tudo sem Ter lido nada
( e eles não leram nada tendo lido tudo).
O mal está em haver poetas que abusam do analfabetismo,

E desacreditam a gaya Scienza

Urban@

10:09 a.m.  
Blogger Ruy Ventura said...

Pode parecer uma distracção, mas no fundo este caso mostra uma indiferença profunda em relação aos valores do espírito. Para certa gente um nome de rua é só uma nome de rua, tanto lhes dá que esteja bem ou mal escrito, que seja uma homenagem a um bom homem ou a um sacripanta. Por isso para eles o "de" é assunto de lana caprina.

2:05 p.m.  
Blogger Joao Augusto Aldeia said...

Durante o ano passado soube-se algo que revela um pouco da nossa actual situação: nas freguesias do Castelo e Quinta do Conde, há um tão grande número de ruas para nomear, que se tem recorrido a nomes que nada têm que ver com Sesimbra nem com qualquer adopçãopor paixão, mas apenas pela necessidade de lá colocar qualquer coisa. Isto foi divulgado pela Câmara numa Assembleia Municipal.

Por outro lado, sei que o anterior presidente da Junta de Freguesia do Castelo, o meu amigo Vieira, travou alguma luta para "impor" nomes tradicionais, associados popularmente aos caminhos ou às suas vizinhanças; do outro lado estaria uma visão, enfim, mais "cosmopolita"...

O que parece - e é confirmado por outros indicadores - é que o ritmo de crescimento urbano vai muito à frente do crescimento natural da população, pelo que os processos tradicionais de nomear as ruas não funcionam aqui, dada a rapidez do crescimento e a fraca ligação à terra dos novos moradores, se é que pode chamar assim aos fins-de-semanistas e feriadistas.

Sinais dos tempos. Mas isso não chega para explicar o bi-lapso do Jorge de Sena, é claro.

6:26 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Meu caro João Aldeia,

Estou inteiramente de acordo com a análise que faz da situação da toponímia no nosso concelho.

Pessoalmente, também prefiro a via local e tradicional à via cosmopolita.

Quero com isto dizer que, quando para um determinado "topos" (caminho, rua, estrada, largo, etc.) já haja um nome resultante da tradição histórica, deverá ser esse o nome adoptado. Naturalmente...

Por outro lado, quando não exista essa prévia designação de base costumeira, e se opte então pela atribuição de um nome de figura ou de instituição (em sentido amplo), creio que o prisma local (ou regional) deverá ser privilegiado.

Em todo o caso, é como o João Aldeia diz: o crescimento urbano (sobretudo na Quinta do Conde, e também no Castelo) vai muito à frente da criação e sedimentação de verdadeiras raízes sócio-culturais, que nos garantam uma toponímia mais autêntica, mais vivida, mais espontânea. E aí a via cosmoplita encontra necessariamente um espaço próprio.

Mas, seja como for, e não podendo nós evitar que a carroça se adiante aos bois, seria, pelo menos, de esperar que fosse posto algum cuidado, alguma atenção, algum critério naquilo que se faz.

A história da Rua Jorge de Sena é simplesmente de cabo de esquadra, é algo que brada aos céus. Mas, infelizmente, não é um caso isolado.

Lembro-me, ao acaso, desse espantoso topónimo que é a "Rua Bairro Antunes", na vila de Sesimbra. Aqui nem está em causa o falso dilema via tradicional/via cosmopolita. Optou-se pelo topónimo pré-existente, e bem. Mas depois fez-se tudo mal...

A designação mais adequada seria sempre - parece-me - "Bairro Antunes". No limite, "Rua do Bairro Antunes". Nunca "Rua Bairro Antunes". Tal como está parece que se quis tratar o "bairro" - que é uma só rua, no fundo - como um corpo estranho, um peso morto. Ora, basta subir ou descer esta íngreme e castiça rua a qualquer hora do dia para perceber que ali conversa, convívio, vizinhaça... Em suma: a vida própria, pachorrenta e prazenteira, de um minúsculo bairro. No entanto, a insensibilidade com que se tratou o topónimo reduziu o lugar a uma mera coisa.

A toponímia urbana não se limita às ruas e às avenidas, aos largos e às praças: ele há "pátios", "vilas", "calçadas", "regueirões", "campos", "passeios", "couraças". Mas quem trata da nossa toponímia parece não ter um mínimo de maleabilidade no espírito para compreender isto.

A questão da toponímia até pode parecer insignificante, mas para mim é bastante reveladora. É por aqui que começa o humanismo que alguns gostam tanto de apregoar...

Dito isto, fico-lhe grato pelo pretexto que me deu para estas divagações...

Até sempre

8:14 p.m.  

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