terça-feira, fevereiro 21, 2006

Nos cem anos do Refugo (4)

No centenário da Sociedade Recreio Sesimbrense

(continuação do texto publicado ontem)

Sesimbra tem uma forte tradição nas actividades associativas, que abarcam tanto as colectividades de recreio, como as desportivas e as de solidariedade social, todas elas depositárias duma longa memória da nossa vida colectiva.

No primeiro quartel do século passado existiam nesta vila, então com uma população de cerca de 7.000 habitantes, três sociedades de recreio, quatro desportivas e igual número de beneficência.

Organizadas segundo as necessidades e as preferências dos seus membros, foram sempre centros dinamizadores de convivência, de formação cultural e cívica, de coesão social.

O papel desempenhado na divulgação dos meios de cultura, principalmente no fomento da leitura, no ensino da música, no gosto pelo teatro e práticas desportivas, bem como nos actos de filantropia, conferiu-lhes também um grau de relevância na construção e afirmação da identidade sesimbrense.

Dentro desse espírito, os homens que foram obreiros desta Casa, ainda que não tenham conseguido um dos seus primeiros objectivos, que era formar uma filarmónica, que rivalizasse com as duas já existentes, lograram porém a criação, primeiro dum “Sol-e-dó” (nome que davam a um grupo musical com instrumentos de corda e de sopro), e, algum tempo depois, a constituição de uma orquestra, que animava as suas festas.

Para além disso, e também logo nos primeiros anos, promoveram acções não só inéditas no então muito eficiente movimento associativo local, mas também transcendendo o âmbito das respectivas disposições estatutárias.

Duas dessas acções, consideradas as mais relevantes, foram a criação de uma escola do ensino primário para os filhos dos sócios, aqui nesta mesma sala, e a sua contribuição para ao estabelecimento de uma cooperativa de consumo.

A escola, que teve a frequência de algumas dezenas de rapazes, funcionando de manhã e de tarde, foi patrocinada pelo ilustre sesimbrense, Prof. Joaquim Marques Pólvora, discípulo de João de Deus e mestre de três gerações de conterrâneos, que nasceu e viveu no prédio aqui mesmo ao lado e cuja rua, numa justa memorização, passou a ter o seu nome.

Embora sócio e frequentador assíduo do Grémio, que tanto prestigiou com o seu trabalho e saber, não deixou nunca de apoiar, apesar das rivalidades e dissídios existentes, tanto a fundação como as primeiras iniciativas desta sociedade, algumas delas por ele inspiradas, correspondendo generosamente às solicitações dos fundadores, que tinham sido todos seus alunos.

Quanto à Cooperativa, que foi instalada no rés-do-chão deste edifício, onde está agora a “Casa do Sporting”, e recebeu o nome de “Cooperativa Social Cezimbrense”, constituía aquilo que hoje chamaríamos de mini-mercado, dispondo dos principais bens de consumo, desde os géneros alimentícios aos artigos de higiene e limpeza.

Embora independente da colectividade, no seu funcionamento, a maioria dos membros eram os seus próprios sócios que, por isso, a tornaram como que numa sua extensão, até devido à proximidade.

Mas cedo se reconheceu o interesse e a conveniência de abri-la mais à generalidade da população, circunstância que iria porém ser-lhe fatal, porquanto, e como infelizmente por vezes acontece, alguns dos novos cooperantes, sendo ciosos dos seus direitos, eram muito esquecidos dos seus deveres, que implicavam o regular pagamento das quotizações e prestações. E, assim, a cooperativa extinguiu-se após alguns anos de funcionamento.
António Reis Marques
(continua)

4 Comentários:

Anonymous Anónimo said...

Para quando conhecermos mais da vida e obra do Dr. Reis Marques? O Sr. Pedro bem podia escrever um texto sobre ele e a Câmara que já deve ter uma lista enorme de medalhados para o 4 de Maio, podia juntar-lhe mais um.

Urban@

12:30 p.m.  
Blogger Ruy Ventura said...

Bem merecia uma reconhecimento público, ele que é um dos mais atentos cronistas de Sesimbra!

1:31 p.m.  
Blogger Pedro Martins said...

Vou tomar na devida conta a sugestão da Urbana.
Recordo que o António Reis Marques já foi distinguido, em 1997, com a Medalha de Mérito Municipal - Grau Bronze. Não tenho presente o regulamento e, portanto, não sei se, à luz do mesmo, lhe poderá ser atribuída medalha superior.
Todavia, a medalha de 1997 não pode deixar de ser vista como uma injustiça relativa para o António Reis Marques, tendo em conta que houve quem tenha recebido idêntico galardão sem lhe chegar aos calcanhares. E por hoje ficamos por aqui...

11:04 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

O sr.António Reis Marques se ler estes comentários até é capaz de não se sentir muito á vontade. Deixem o sr. sossegado, no seu cantinho e por favor não sejam irrealistas.

3:25 p.m.  

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