sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Nos cem anos do Refugo (7)

O “Sesimbra e Ventos” conclui hoje, com a quinta e última parte, a publicação do texto da magnífica palestra que foi proferida por António Reis Marques na sessão solene comemorativa do centenário da Sociedade Recreio Sesimbrense. Para o autor, aqui fica a nossa gratidão pela cedência deste notável escrito sobre a história do velho Refugo. E um abraço de toda a companha.
No centenário da Sociedade Recreio Sesimbrense
(continuação do texto publicado ontem)
As associações como esta designam-se habitualmente por sociedades de recreio. Sendo vulgar esta designação, não será todavia tão vulgar que o nome corresponda à actividade exercida.

Parece-nos que a palavra recreio tem perdido o seu real significado, ou seja a ideia ou conceito que encerra.

Recreio tanto se entendia por designar movimento como repouso, acção como inacção.

As actividades lúdicas, ou jogos, eram recreio, como recreio era também a imobilidade da meditação ou da contemplação.

Recreio, como se diz nas escolas, é um intervalo, uma paragem, em que se interrompem as aulas para descanso.

Na medida da sua pequenez o homem é um ser criador, cabe-lhe criar, dar vida, continuar a vida.

Para tanto, será no repouso, no descanso, que restaura as suas forças, do corpo e da alma.

A esse repouso, a esse descanso, se chama recreio, que é a paragem, o intervalo que possibilita, findo ele, continuar a criar.

Assim sendo, estas sociedades teriam de saber oferecer, a todos os que lhe pertencem, o recreio que permitisse restaurar as forças, o recreio que fosse descanso ou distracção das grandes tarefas, dos trabalhos diários.

Por conseguinte, uma sociedade de recreio que esteja ciente do nome que usa terá, na medida do possível, pois o ideal anda sempre longe do real, por principal missão exercer uma actividade recreativa conducente a despertar e a melhorar, nos seus associados, as potencialidades criadoras que estão na essência de todos os homens.

Bem sabemos que os tempos são outros, até porque se deram radicais transformações na vida social.

Talvez por isso, actualmente, um dos problemas que mais afectam as nossas colectividades seja o alheamento, o afastamento dos jovens.

Os rapazes e as raparigas de hoje procuram sensações cada vez mais fortes e excitantes, para satisfação das suas fantasias juvenis, cujos excessos são tantas vezes origem de graves ou irreparáveis males.

Afigura-se-nos até que a juventude, ou uma grande parte dela, já não sabe ou desconhece o que é criação, o prazer de criar.

Nos seus passatempos, nas suas distracções, os jovens já encontram tudo feito, tudo lhes é servido já imaginado, preparado e pronto. Em vez de criadores, são meros consumidores.

Atraí-los, facultando-lhes actividades que melhor os divirtam e exaltem, será hoje uma das maneiras de garantir o funcionamento destas agremiações, de acordo com o espírito com que foram criadas.

Com as nossas felicitações à Sociedade Recreio Sesimbrense, pela jubilosa data que hoje festeja, formulamos também votos para que nunca se possa dizer com legitimidade que nela está o refugo, mas antes, e como sempre aconteceu, o que de melhor existe na vida associativa de Sesimbra.
António Reis Marques

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