sexta-feira, março 31, 2006

Nocturnos (4)

AS ESTRELAS

«Somos estrelas que cantam,
cantamos a nossa luz.
Somos as aves de fogo
por sobre os campos celestes.

A nossa luz é uma voz
que abre caminho aos espíritos.

Entre nós três caçadores
seguem o rasto de um urso.
Não há memória de tempo
em que os três o não caçassem.

Vemos lá em baixo as montanhas.»

Esta é a canção das estrelas.


Um dos Poemas dos Peles-Vermelhas mudado para português por

Herberto Helder

quinta-feira, março 30, 2006

Preto Chagas, um homem de armas

Desde a segunda metade do século XIX que Sesimbra ansiava pela construção de um porto de abrigo. Não havia ninguém que não reclamasse a obra, porque todos a tinham na justa conta de condição indispensável ao progresso das pescas. Certo que, no lado poente da baía, a pequena angra do Forte de Cavalo proporcionava, pela sua natureza, algum abrigo às embarcações que nela se procuravam refugiar; certo que, por mais de uma vez, ali se erguera um molhe – mas a obra era coisa pouca, uns quantos metros tímidos de pedra, afrontando, indefesos, a fúria do mar. Na verdade, só o porto de abrigo poderia pôr termo a décadas desesperadas de privação e angústia.

Ainda não tinha passado ano e meio sobre a sua tomada de posse como Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal quando, em Fevereiro de 1931, o Major Preto Chagas vai a Lisboa e leva consigo a vereação e outros notáveis da vila e um propósito inabalável: obter, junto do Governo, a garantia da construção do futuro porto de abrigo de Sesimbra.

A viagem valeu a pena: quando regressa da capital, a comitiva sesimbrense traz na bagagem uma certeza e algumas esperanças desenhadas no horizonte: o Ministro do Comércio adiantara novecentos contos para a construção imediata da estrada marginal – necessariamente o primeiro passo a ser dado para que a construção do porto de abrigo pudesse ter lugar, uma vez que, sem a concretização daquela via de comunicação, apenas por mar ou através da serra poderiam os materiais chegar ao destino, adivinhando-se difícil e ruinoso o seu transporte.

Em 4 de Junho desse ano, é lançada a primeira pedra da estrada e, em pouco tempo, a vila de Sesimbra fica ligada por terra à futura doca. Feita a marginal, o porto de abrigo começa a ganhar forma no papel. Anos depois, Duarte Pacheco põe o preto no branco e dá luz verde ao início da obra, que será incluída no Plano Geral dos Portos do Continente. Estávamos já na década de quarenta e Preto Chagas no seu segundo mandato ao leme do concelho.

Com efeito, o engenheiro militar que combatera pelo seu país em França, na Primeira Guerra Mundial, integrado no Corpo Expedicionário Português, há-de servir por mais de uma vez, como edil, a terra que o viu nascer (em 1889), cumprindo dois mandatos de quatro anos: entre 1929 e 1934, primeiro; entre 1937 e 1941, depois – e antes de ser empossado no cargo de Governador Civil de Beja. A meio do seu segundo governo sesimbrense, é promovido a major, patente militar que, desde então, lhe irá avultar o nome civil.

A sua acção à frente dos destinos da terra, longe de se ter quedado pela questão marítima do porto de abrigo, fica perto da perfeição administrativa. Tal como Abel Gomes Pólvora – que dirigira o concelho até 1926 –, empreende um esforço notável de desenvolvimento de Sesimbra. Espírito de instinto pioneiro, pleno de dinamismo, irrepreensível no plano financeiro – será lembrado por bem gerir os recursos estreitos da época, dando tréguas aos contribuintes e sem pedir um tostão emprestado –, Preto Chagas faz também expandir a vila para nascente: procedendo ao arranjo do Largo de Bombaldes; construindo o troço de estrada marginal onde, em breve, vai nascer a aprazível Esplanada do Atlântico. Dir-se-ia que Sesimbra cresce então a olhos vistos, bonita aos olhos que a vêem.

Preto Chagas conclui a rede de saneamento da vila – cuja construção tivera início ainda sob a égide de Gomes Pólvora – e manda tapar os ribeiros que a atravessam na Fonte Nova, na Misericórdia e no Canino. Mas vai muito mais longe, porque se embrenha pelos caminhos da memória: é no seu tempo que o Castelo de Sesimbra beneficia de importantes obras de restauração, emergindo, reconstituído, da ruína dos seus próprios escombros; que é editada a «Monografia de Sesimbra» de Barros Bernardo, nos nossos dias um clássico incontornável, a reclamar, com pertinência, reedição.

Não é de hoje a actividade turística como móbil poderoso da vida sesimbrense. O homem que debruça a terra sobre o mar, constrói ainda os passadiços do Macorrilho e de Alcatraz, permitindo que as praias da baía comunicassem, que o mar unisse, já não separasse… Mas há mais: cria a primeira Comissão Municipal de Turismo; e planta a mata anexa ao forte de Cavalo – é lá que irá surgir o primeiro parque de campismo do concelho…

O político de boas contas faz-se comprador: adquire o prédio da antiga Fábrica Nacional de Conservas, para nele instalar os grandes armazéns dos serviços municipais, e enceta negociações tendo em vista a transferência de domínio, para o Município, da herdade enorme da Vila Amália, onde hoje se concentram as instalações desportivas de Sesimbra.

Em 1945, o homem de armas passa à reserva e, três anos mais tarde, já está reformado. Ninguém sabe se a chuva copiosa que se abate sobre Sesimbra, no dia do seu funeral, em Janeiro de 1969, era feita de lágrimas pelo corpo que ia a enterrar, como alguém então sugeriu. Mas dizer saudoso Preto Chagas é dizer bem pouco. Quando alguém marca o seu tempo pondo na acção um ímpeto tão surpreendente, já não deixa saudades – está simplesmente presente: nas ruas e nas muralhas, nas páginas dos livros e nas proas de certos barcos, quando deixam o porto e se fazem ao mar…

Diário em Sesimbra (11)

LIMITE DE VELOCIDADE

Desconfio que a Câmara Municipal de Sesimbra ou a Junta de Freguesia da Quinta do Conde encontraram uma maneira fácil e barata de limitar a velocidade dos automóveis na vila.
Não são necessários semáforos nem obstáculos artificiais. Basta a abertura incontrolada de valas e buracos e a ausência de reparação dos mesmos para impedir velocidades superiores aos 20/30 quilómetros por hora. Sinais avisando a buraqueira são igualmente desnecessários. O concelho, segundo parece, gosta de ser uma terra de surpresas.
Bom exemplo desta estratégia é a Avenida (estranha qualificação...) de Negreiros, muito boa para quem queira treinar o uso de veículos todo-o-terreno, mas imprópria para automóveis urbanos. Passem por lá um dia - e verão o que vos espera!

quarta-feira, março 29, 2006

Curtas (4)

Há coisa de semana e meia, António Pires de Lima afirmou querer que o CDS-PP fosse um partido mais sexy. Ribeiro e Castro parece ter-lhe dado ouvidos e mostra-se disposto a fazer-lhe a vontade. É ouvi-lo a discretear sobre o Simplex: “Parece-me um bocado propagandex, à Socratex, mas se for verdadex, é bonzex.”

O que vem à colecção

Que me desculpe o mestre António, mas é o que vem à colecção, sim senhor. Eu passo a explicar.

Ainda anteontem resgatei, num alfarrabista que agora abriu sucursal na Rua das Portas de Santo Antão – creio que o espaço ainda pertence ao Palácio da Independência –, um exemplar das póstumas “Horas de Luta” do venerando Junqueiro (na foto), e “O Arcanjo Negro”, de Aquilino. Em ambos os casos, trata-se de primeiras edições.

Com efeito, e se bem percebi, o dono da prestimosa Livraria Bizantina, estabelecida no Largo Trindade Coelho, que é como quem diz, ali à Misericórdia, mantendo a casa mãe, resolveu descer a colina do Bairro Alto e fazer escoar o seu precioso manancial nesta rua esplendorosa da baixa pombalina.

Como não sou invejoso, convosco compartilho a boa nova. Juro que não me fazem descontos. Aliás, os preços são assaz convidativos, como é timbre da firma. Os livros de Guerra Junqueiro e Aquilino Ribeiro estavam no lote da entrada, sobre uma mesa repleta de promissoras lombadas. Custaram-me, cada um, a módica quantia de um euro. O mesmo preço das edições princeps das “Cartas Peninsulares”, de Oliveira Martins, da “Vida de Zola” do mestre Agostinho da Silva, e da “Introdução à Música Moderna”, de Fernando Lopes-Graça, todos eles já devidamente incorporados nas estantes cá de casa. É o que vem à colecção…

Diário em Sesimbra (10)

AFINAL...

Tomei ontem contacto com o programa do festival "Onda Jovem" em que, segundo se afirmava, seria incluído o reprovável concurso do dia das mentiras. Deparei-me com uma programação correcta e variada, dentro do habitual neste tipo de eventos.
Para minha surpresa e relativa consolação não encontrei no desdobrável qualquer referência à triste iniciativa. Fiquei com dúvidas.
Será que o concurso de mentiras foi a mentira do 1º de Abril oferecida aos sesimbrenses pela câmara?
Será que a iniciativa foi inventada por um grupo de cidadãos para atrapalhar a edilidade?
Ou será que a vereação reconheceu o seu erro e cancelou o evento? Se esta última hipótese se verificou, está de parabéns a Câmara Municipal de Sesimbra. Errar é humano...

terça-feira, março 28, 2006

Uma questão de estatuto

Como seria de esperar, o director do “Raio de Luz” não esclareceu em que consiste a solidariedade institucional que, em Fevereiro último, expressou ao Presidente da Câmara Municipal de Sesimbra.

Mas, na edição deste mês, José Pedro Xavier dá-se ao trabalho de reproduzir, na capa da publicação, o estatuto editorial, no qual se proclama o pluralismo político e religioso do jornal e a sua independência face aos partidos.

Não sabemos se a súbita aparição estatutária se ficou a dever à necessidade de justificar o que quer que fosse perante a interpelação lançada por este blogue. Registamos, porém, a acrimónia epigramática do senhor director do “Raio de Luz” nas primeiras linhas do seu editorial deste mês, asseverando-nos que não responde a “provocações vindas de quem não tem nem se lhes pode dar a mínima importância”. É que, por “saber respeitar, acarinhar e estimar” um “universo de 16 mil leitores” (sic), José Pedro Xavier afirma não perder tempo “com futilidades e menos ainda com quem não tem o mínimo de elevação”.

Não sabemos se os leitores do “Raio de Luz”, sejam eles quais ou quantos forem, se sentirão particularmente respeitados, acarinhados e estimados pela meridiana clareza de todas estas palavras.

Sabemos, porém, que o estatuto editorial de qualquer jornal vale o que vale. Já lá vão alguns anos, ouvi dizer a um mestre que as árvores se conhecem pelos frutos. Pois com os jornais passa-se o mesmo. Um jornal não é aquilo que diz ser, é apenas aquilo que diz.

Neste número do “Raio de Luz”, deparamos com dois rasgados elogios ao Dr. Francisco de Jesus, Presidente da Junta de Freguesia do Castelo. Numa notícia que nos dá conta da visita deste autarca ao local onde está a decorrer a obra de construção do CECAS-RL, ficamos a saber que “aqui está um exemplo digno de registo que só eleva quem governa e dignifica as instituições”. E, prossegue o articulista, “isto significa que os ventos de mudança têm rosto e leitura possível no bom relacionamento com as pessoas e instituições.”

Porém, o “Raio de Luz” vai mais longe e, no já citado editorial, firmado pelo seu director, elogia o senhor presidente pelo trabalho desenvolvido com o novo boletim da Junta. Na apoteose do desvelo, o senhor director deixa mesmo escapar que “é assim que todos os autarcas deviam ser.”

Não discutimos a exemplaridade do autarca. Mas aconselhamos os jornalistas a procurarem outros modelos. Com um editorial destes, não há estatuto que resista…

segunda-feira, março 27, 2006

LEGENDA

Não me peças esmola, que sou pobre,
E avaro do meu pouco,
Se mo pedem!
Não me tragas esmola, que sou rico,
Se penso na miséria
Que poderias dar-me!
Dar-te-ei, sem que mo peças.
Dá-me, sem que eu o saiba.
Expulsei os mendigos do meu Reino!
Cá, só amor gratuito.

José Régio

UM MAU EXEMPLO

“SESIMBRA CÂMARA MUNICIPAL / CONCURSO DIA DAS MENTIRAS / NORMAS PARTICIPAÇÃO
1. No âmbito das actividades da Onda Jovem que terão início no dia das mentiras e dura até dia 15 de Abril, a Câmara Municipal de Sesimbra organiza o concurso “Dia das Mentiras”, que tem como objectivo encontrar as mentiras mais criativas. / 2. Depois de seleccionadas as melhores mentiras serão impressas em folheto e distribuídas no dia das mentiras, na Av dos Naúfragos durante o festivas de Abertura da “Onda Jovem”. / 3. Para participares, basta seres estudante do 3º.Ciclo ou do Secundário, criares uma mentira bestial, escreve-la na ficha anexa que deverá ser preenchida com os teus dados pessoais e entregue ao Conselho Executivo da tua escola, que posteriormente as fará chegar a esta Autarquia. / [...] / 5. Todos os participantes receberão um passaporte para as Semanas da Juventude, bem como o programa das mesmas... muitos jogos... muita festa e muita música!!!”

O documento que aqui apresento foi distribuído há poucas semanas em escolas do 3º Ciclo e Secundárias do concelho de Sesimbra. Transcrevo-o ipsis verbis, isto é, respeitando inteiramente todas as especificidades (chamemos-lhes assim) de sintaxe, de acentuação e de pontuação.
Não acreditei que existisse quando me falaram nele. Só encontrei certezas quando me chegou às mãos. Aliás, com uma certa ponta de ingenuidade – confesso... -, ainda espero ler nos jornais do município onde resido e trabalho um texto assinado pelos responsáveis autárquicos da “piscosa” negando a autoria de tal convite aos jovens sesimbrenses. É que nunca me passaria pela cabeça assistir, no país em que me foi dado nascer, ao mais aberto (outros, que não eu, chamar-lhe-iam “descarado”) apelo ao uso de um dos contra-valores mais abomináveis na convivência humana: a mentira. Leio e releio o papel e não consigo perceber o que levou os organizadores do “evento” a promover tal concurso. Como não acredito na sua maldade, logo em intenções malévolas, parece-me que – a ser verdadeiro este concurso (continuo incrédulo) – revela apenas uma clara inconsciência dos pilares que sustentam uma correcta e eficaz educação das crianças e dos jovens, pois a existência dessa consciência (coisa em que não acredito, sinceramente) apresentaria uma intolerável inversão de valores, inadmissível.
Quem quer que tenha promovido este concurso, não deve ter pensado em quão ofensiva é esta sua atitude para os educadores do concelho. Atenção: não falo apenas nos professores, mas sobretudo nas comunidades educativas em que as escolas existem, onde se incluem, como se sabe, os alunos, os professores, os auxiliares de acção educativa, mas também as famílias, as associações de pais, as juntas de freguesia, as paróquias e, até, a câmara municipal que, pasmemo-nos, organiza este concurso que promove a mentira.
Todos os educadores conscientes do concelho de Sesimbra têm em mente, para além da promoção do Saber e do Saber-Fazer, a edificação do Saber-Ser. Nenhuma Educação digna desse nome pode viver sem elevar cidadãos verticais, interventivos e verdadeiros. Ora, como podemos nós criar entre todos os participantes do processo educativo um clima de verdade, sem hipocrisia, se alguém promove o uso da mentira e o recompensa? Como podem os pais ou os professores exigir dos seus filhos e alunos o uso da verdade, sem alguém lhes dá tão mau exemplo. Os educadores de Sesimbra têm razões para se sentirem magoados e ofendidos, pois todo o seu trabalho a favor da verdade (um dos pilares da Ética) foi posto em causa.
Não acredito, como afirmei, na má-fé da Câmara de Sesimbra. Acredito que alguém ainda emendará este erro cometido não se sabe por quem. Se tal não for feito, dará interna e externamente uma péssima imagem do concelho. Não pode deixar de ser corrigido, não vão outros municípios, inconscientes, seguir tão desastrado exemplo.

domingo, março 26, 2006

Instantâneos (11)

Vilar Formoso, 13 de Junho de 1960.

REGRESSO

Pátria magra – meu corpo figurado…
Meu pobre Portugal de pele e osso!
Nada na tua imagem se alterou:
A casca e o caroço
Dum sonho que mirrou…

Miguel Torga

sábado, março 25, 2006

Ut Pictura Poesis: Mário Beirão


ANTÓNIO CARNEIRO
Lembranças desta Flor de linhas puras,
Lembranças deste sonho ardente e belo,
Dos ciprestes que, à tarde, são esculturas,
Bronzes de Donatello!
Mário Beirão
(Imagem: Autoretrato, de António Carneiro)
__________________________________________________________
Nota: o José Pedro Francisco está por estes dias em Paris. Resolvi, assim, usurpar-lhe, por uma vez, esta sua rubrica. É que estou cheio de inveja dele. É pecado, mas aqui o confesso...

As aproximações a Agostinho da Silva (3)

Editado em 1957, no Brasil, pelo Ministério da Educação e Cultura, Reflexão à margem da Literatura Portuguesa é um dos títulos fulcrais da obra de Agostinho da Silva e oferece-nos uma singular visão da filosofia da história portuguesa. Na Introdução do livro, o Professor Agostinho expressa a sua gratidão aos mestres que o ensinaram – entre os quais inclui os pescadores do Espichel. O breve excerto que agora se publica é do início do primeiro capítulo desta obra, hoje tão contrária à corrente.


Reflexão à margem da Literatura Portuguesa

Tomando como um todo a cultura peninsular, talvez nela não encontremos, não digo uma característica, mas pelo menos um movimento ou um problema mais constante do que o de querer determinar se na realidade a Espanha, aqui no sentido de toda a Península, se deve dedicar, por ter atingido a Plenitude do que é melhor para o mundo, se deve dedicar à tarefa de hispanizar o dito mundo; ou se, modestamente reflectindo no que lhe falta e considerando desejável o que não tem, se deve, pelo contrário, matricular numa espécie de escola de universalismo, como moço de aldeia que afronta pela primeira vez, porque ele ou a família o acharam desejável, ou simplesmente o Estado o tornou obrigatório, a cultura elaborada nas cidades e por elas imposta. Hispanizar o mundo, ou às vezes, apenas a Europa, por quanto se sabe que através dela, na sua época áurea de expansão, o universo se teria hispanizado, eis um dos termos do dilema; europeizar a Espanha, eis outro dos termos do dilema.

Acontece, porém, que não só, e em primeiro lugar, a atitude inteligente e largamente humana não é a de aceitar dilemas, mas ou a de mostrar que são falsos ou a de se encarreirar a terceiras soluções de que o lógico se não lembrou, a não ser que lhe não fosse conveniente pô-las; como também, e em segundo lugar, conviria saber de que modo a Espanha já é suficientemente hispânica. Isto é: se na realidade, antes de procurarmos resolver o tal problema em face da Europa, não teremos de resolver o problema em face de nós próprios. Porquanto pode perfeitamente suceder que, em virtude de várias circunstâncias históricas, e poderemos pôr assim a questão, para não termos de entrar na discussão sempre enfadonha e dificilmente terminável de quem teve ou não teve a culpa, pode ser que, em virtude de das tais circunstâncias históricas, a nossa Península nunca tivesse podido desenvolver-se plenamente, e todo o resto venha daí.

Por um e outro motivo, pois, deixaremos de lado o tomar parte na polémica que opôs, por exemplo, Verney e gente do anti-Novo Método, Feijóo e gente do anti-Teatro, e, mais modernamente, Gasset e Unamuno ou metade do dito Unamuno à outra metade de Unamuno. Nitidamente nos recusamos à batalha. O que não quer dizer que se não tenha uma ideia muito clara do que vale a Europa em face da Hispânia. Não creio que a verdadeira cultura e a verdadeira humanidade e o verdadeiro futuro do mundo estejam para lá dos Pirenéus; não creio que aquilo a que se deveria chamar a Europa, excluindo cuidadosamente não só a nossa Península Ibérica, mas igualmente o Sul da Itália, daquilo a que hoje se chama Europa, não creio que a Europa da gente loira, ordenadora e filosófica seja muito mais do que isso, ordenadora e filosófica, e possa ver-se livre, a não ser por uma transformação que lhe atingiria o próprio cerne, daquele feitio utilitário, prático e mecânico, que a América do Norte, sua herdeira, levou às últimas consequências.

Agostinho da Silva

sexta-feira, março 24, 2006

Nocturnos (3)

SONETO À LUA

Ó lua, Ó lua! quantas vezes, quantas,
Ungindo os montes d’um clarão bendito,
Vestes de branco as árvores e as plantas,
Tiras o crepe às rochas de granito!

Além, detrás das serras te alevantas,
E, descrevendo a curva do infinito,
Tombas do mar nas águas sacrossantas…
Pálida noiva desse leão maldito!

Banhas de luz, com o teu rosto humano,
Os que passam a noite sobre o Oceano,
Quase perdidos, n’um baixel sem mastros…

E eu que leio no azul, como um Caldeu,
Não compreendo esse alfabeto, – o céu,
Sem ti, letra maiúscula dos astros!

Leça, 1885

António Nobre

I beg your pardon?!

Lê-se no sítio do Instituto Português de Museus: Anúncio de procedimento de Procedimento Concursal para Provimento de Cargo de Direcção Intermédia de 2º Grau – Director da Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves (equiparado a Chefe de Divisão).

quinta-feira, março 23, 2006

Admirável mundo novo

Na linguagem técnica que, a propósito das coisas da cultura, gira oficialmente nos areópagos, emprega-se agora, por sistema, a expressão “património imaterial” por oposição a “património material”.

O critério adoptado parece ser o do suporte. As lendas, as danças e a literatura popular (que é de feição oral), por exemplo, não teriam uma base material, ao contrário das igrejas, das esculturas, das pinturas e dos romances.

Percebe-se aonde quiseram chegar. Tendencialmente será assim. Mas esta distinção, fruto de uma obsessão coisificante, oferece graves inconvenientes. Esquece (elimina? subalterniza?) o espiritual e, assim, ofusca a essência de todo o verdadeiro património cultural.

Por um lado, o património tido por imaterial não pode, muitas vezes, por razões de salvaguarda, conhecimento ou difusão, prescindir razoavelmente de um registo ou de uma fixação.

Por outro, falar de património material soa de modo redutor, pois, numa primeira impressão, poderemos ser levados a pensar que do outro lado é que está o património espiritual.

Ora o património dito material é tão ou mais espiritual que o tido por imaterial.

Pessoalmente, não consigo deixar de sorrir quando oiço dizer que os Jerónimos são parte significativa do nosso património material…

quarta-feira, março 22, 2006

Até quando?

A rematar as considerações, sobranceiras e condescendentes, de que faz anteceder a transcrição da carta que Amadeu Penim lhe enviou por causa do imbróglio das bandeiras azuis, o Dr. David Sequerra considera que a missiva do vereador “poderia dispensar alusões à controversa lei 2/99”.

A Lei n.º 2/99, de 13 de Janeiro, é a chamada Lei de Imprensa. Nela estão previstos os direitos de resposta e de rectificação. Os visados numa determinada publicação podem lançar mão destes mecanismos legais para defender a sua reputação e boa fama ou repor a verdade dos factos perante notícias erróneas.

Não sei qual foi o motivo que levou o Dr. Sequerra a reputar a lei de controversa. Mas sei que os direitos de resposta e de rectificação – para o caso é aquilo que nos importa – são coisa pacífica na sociedade portuguesa.

Não creio que, neste caso, Amadeu Penim pudesse dispensar alusões à Lei de Imprensa. Muito pelo contrário. Aliás, é a própria lei que determina que o visado invoque expressamente o direito de rectificação ou de resposta ou as correspondentes disposições legais.

Para não irmos mais longe, pois outros casos poderiam ser referidos, bastará recordar o que se passou em 2002, quando o então Presidente da Câmara Amadeu Penim pretendeu exercer o direito de resposta em face de uma entrevista a José Manuel Vacas, representante da DAGOL, publicada n’“O Sesimbrense” de 20 de Agosto desse ano.

Na altura, o Dr. Sequerra, perante a carta que Amadeu Penim lhe enviou, violou de uma só vez, em três pontos, a Lei de Imprensa. A saber:

1 – Não fez anteceder a publicação da missiva da indicação de que se tratava do exercício do direito de resposta;

2 – Não publicou na íntegra o teor da resposta de Amadeu Penim. Limitou-se a transcrever aqueles que considerava “os trechos mais elucidativos”. Mais tarde, perante a publicação integral da resposta manu militari, os leitores puderam constatar que a selecção feita pelo Dr. Sequerra não era nada elucidativa. A este propósito, deve esclarecer-se que a resposta deve ser sempre publicada na íntegra. Se a mesma for além do limite legal, o excedente é publicado como publicidade comercial, aplicando-se a tabela em vigor no jornal. Falta de espaço é argumento que não colhe;

3 – Fez amplos comentários ao teor da resposta, quando a lei apenas permite à direcção do periódico inserir uma breve anotação à mesma, da sua autoria, com o estrito fim de apontar qualquer inexactidão ou erro de facto nela contidos.

Desta vez, o Dr. Sequerra volta a não indicar que se trata de um direito de rectificação e tem a liberdade de fazer anteceder de comentários verdadeiramente descabidos a publicação da carta. Que um desses comentários violadores da Lei de Imprensa seja justamente o de que “não havia necessidade” de se invocar a lei dá-nos bem a espantosa medida de tudo isto.

Até quando?

Diário em Sesimbra (9)

PENÍNSULA CONDENSE

A freguesia da Quinta do Conde é, no continente sesimbrense, uma península. Rodeada por quatro concelhos (Seixal, Barreiro, Palmela e Setúbal), só um curto istmo a mantém ligada ao restante território de Sesimbra.
Comparável na forma (não no tamanho...) às penínsulas Ibérica ou Itálica, a Península Condense tem no entanto características que a transformam num verdadeiro enclave. Quem duvide disto, experimente dirigir-se de Sesimbra à mais populosa freguesia do concelho sem passar por qualquer outro município. Não conseguirá, a menos que vá a pé pelo interior do pinhal. Se for no sentido Sul-Norte-Nascente, terá que passar pelo concelho do Seixal, freguesia de Fernão Ferro. Se seguir pelo sentido Poente-Nascente-Norte, é obrigado a transitar pelo território de São Lourenço de Azeitão, pertencente a Setúbal. Até quando? Alguém imagina um habitante da Ibéria ou da Itália a ser obrigado a dirigir-se por mar para conseguir chegar ao resto da Europa? Eu não.
Por estas e por outras, não me admiro que os condenses se sintam marginalizados no concelho a que pertencem.

terça-feira, março 21, 2006

Curtas (3)

Se não fosse eterno, Johann Sebastian Bach faria hoje 321 anos.

Em todo o caso...

... aqui vos deixo uma poesia que nos fala da Primavera. É um dos mais belos sonetos de Frei Agostinho. Ao lê-lo, não é difícil pensar na Arrábida, que, no tempo deste poeta e franciscano, integrava o termo de Sesimbra.
Este é um dos mais belo sonetos de Frei Agostinho e, por isso, é também um dos mais belos poemas da nossa língua.
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Ao triste estado

Passa por este vale a primavera,
As aves cantam, plantas enverdecem,
As flores pelo campo aparecem,
O mais alto do louro abraça a hera.

Abranda o mar, menor tributo espera
Dos rios, que mais brandamente decem,
Os dias mais fermosos amanhecem,
Não para mim, que sou quem dantes era.

Espanta-me o porvir, temo o passado,
A mágoa choro dum, doutro a lembrança,
Sem ter já que esperar nem perder.

Mal se pode mudar tão triste estado,
Pois para bem não pode haver mudança,
E para maior mal não pode ser.

Frei Agostinho da Cruz

Flora e Morfeu

Logo de manhãzinha, fiquei a saber, pela rádio, que hoje se comemora, celebra ou assinala vários dias nacionais, internacionais, mundiais e quejandos. Não tomei a devida nota de todos, mas creio não exagerar se vos disser que rondam a dezena. Tudo graças à ONU, à UNESCO e à OMS, entre outras prestimosas agremiações.

Além do Dia da Poesia, temos o Dia da Terra no Brasil e o Dia da Árvore. E se bem ouvi o programa da manhã na Antena 2, hoje festejamos ainda o Dia Universal do Teatro, sendo certo que no próximo dia 27 teremos, igualmente do Teatro, o correspondente Dia Mundial. Compreende-se a subtil distinção: os marcianos também são gente.

Tamanha cópia de dias conjugados em al deve ter que ver com a chegada do equinócio e o ímpeto genésico que lhe anda associado. É que hoje entrámos na Primavera. Entrámos, é uma força de expressão. A manhã apresentou-se bisonha, carregada de nuvens e com bastante chuva. Tudo como se se tratasse ainda de um honesto dia de Inverno. Só então percebi. Decretado pela Organização Mundial de Saúde, hoje é também o Dia Mundial do Sono. A mim, calhou-me levantar-me bem cedo, mas Flora ainda dorme, por certo, nos braços de Morfeu…

segunda-feira, março 20, 2006

Diário em Sesimbra (8)

CALIFÓRNIA

De um lado, o sublime. Do outro, deste lado onde me sento, a loucura dos Homens, que esquecem a propriedade dos elementos que sufocam e carregam e aprisionam.
Mais tarde ou mais cedo, dias virão em que saberemos de uma natureza que voltou a ocupar o que sempre fôra seu. Chamaremos “catástrofe” ao desmoronamento do edifício empoleirado sobre a falésia, embora, na verdade, se trate apenas de uma tentativa de equilíbrio.

Bairristas e Forasteiros


Lembro-me como se fosse hoje. Corria o ano de 92. Escrevia eu no “Notícias de Elvas”. Num debate promovido por este jornal, fôra convidado um moderador qualificado. Feita a introdução necessária ao tema, logo um cavalheiro se levantou da assistência, pedindo a palavra. Quando todos esperávamos uma intervenção suscitadora, o dito cidadão pronunciou: “Com tanta gente boa que há em Elvas, logo havia de vir um gajo de fora dizer das suas!” Assim mesmo. Com a delicadeza de um elefante numa loja de loiça (perdoem-me os paquidermes...).
Há gente assim. Não olham para a qualidade dos seres humanos, para a sua experiência e verticalidade (que consideram, quiçá, incómoda), para as suas capacidades ou para os seus atributos – mas apenas para a certidão de nascimento (verdadeira ou suposta) que, tanto quanto sabemos, não constitui atestado fiável nem de inteligência nem de competência. Certo bairrismo tem destas coisas: há gente que prefere vinho carrascão, só porque nasceu dumas vides enfezadas lá da terra, e rejeita um néctar divino, só porque a cepa rebentou em território que não consegue alcançar com a vista. Esquecem quase sempre um princípio universal: podemos nascer em qualquer canto, até num comboio ou numa avioneta; a “pátria”, contudo, é um assunto do coração, crescendo da adesão espiritual a um lugar, tantas vezes diferente daquele em que lançámos o primeiro grito.
O bairrismo vale a pena quando defende com abertura de espírito e frontalidade crítica as mais profundas aspirações duma colectividade (o seu verdadeiro desenvolvimento mental, cultural, cívico e económico). É manifestação espúria duma sociedade fechada e ignorante sempre que revela uma bacoca miopia, embebida em estupidez, quando defende o indefensável, quando promove a mediocridade local só porque é local, quando recusa a crítica legítima, quando é veículo de reprodução social na promoção do imobilismo e, frequentemente, do caciquismo nas suas expressões mais perigosas e/ou descaradas.

Exemplos contrários também existem. Há habitantes de aldeias, de vilas, de cidades e de países que vão dando bordoada na qualidade dos seus naturais, mesmo que seja notória e reconhecida fora de portas (sobretudo quando esses naturais vêm das camadas desfavorecidas, pois ameaçam a pirâmide social) – mas não hesitam em bajular quem venha de fora, mesmo que seja um burlão ou um vigarista, ou apenas um chico-esperto que habilmente manipula a hospitalidade local.
Por isto e por muito mais escrevo sem hesitações: nem forasteiros nem indígenas. Melhor dizendo: para nada nos deve interessar o bilhete de identidade de uma cidadã ou de um cidadão, desde que mostre verticalidade, qualidade e competência; igual desprezo devemos votar à naturalidade de quem se apresenta na sua mediocridade. Prezemos quanto de bom nasça nas nossas terras, mas com o mesmo amor acarinhemos os frutos saborosos vindos do resto do mundo. Com Marco Aurélio, defendo que “pouco importa viver aqui ou ali se em toda a parte tivermos a ideia que este mundo é uma cidade”. Ninguém vive plenamente sem raízes e sem uma profunda religação ao espaço que ocupa no mundo e à sua memória integral (positiva ou negativa). Mas não deixo de concordar com Pascal: “Não é do espaço que eu devo esperar a minha dignidade, mas do acerto do meu pensamento. (...) pelo espaço, o universo abarca-me e submerge-me como um ponto. Pelo pensamento, abarco-o eu.

As lutas dos pescadores

Com o mar sempre lutaram. É o ambiente natural do seu ganha-pão e por isso mesmo dele conhecem todas as correntes e marés e sabem, sobretudo, que não podem nunca virar-lhe as costas, porque ele, sem ser traiçoeiro, não admite distracções e muito menos aceita que o desprezem.

O meu avô dizia-me que o mar deve ser sobretudo enfrentado e nunca desprezado. Com o ciclone deixou de o enfrentar para apenas o admirar.

Outro meu avô, bisavô, mais correctamente, também pescador, anos antes, deixou de lutar com o mar que bem conhecia, vítima, não dele, mas dos armadores que não cumpriram com o que tinham contratado. Morreu!, morreu fuzilado no dia 11 de Abril de 1900, na praia onde varavam os barcos da Armação Agulha, quando em greve lutava por ele e demais pescadores das armações.

“A Folha de Setúbal”, semanário, político e literário como se denominava, datado de 15 de Abril de 1900, relatou essa luta, dos que acreditavam na força da razão contra aqueles que usavam a força para poderem ter razão.

Hoje também se luta.

Uns, pescadores, poucos, lutam pelo ganha-pão, contra o POPNA, tal como se lhes apresenta e a favor da continuidade da zona de pesca que sempre foi sua.

Outros, mais, não pescadores, dizem que lutam por aqueles, pela preservação do ambiente e pela estabilidade económica e social da comunidade sesimbrense.

Uns quantos, que não são nem de uns nem de outros, assumem-se como lutadores, aparecendo nos jornais, rádios e televisões, sobretudo nos períodos que mais lhes convêm.

Não foi assim nas Autárquicas?

Nas Presidenciais já não foi preciso…

E agora, quando será?

Joaquim Penim

domingo, março 19, 2006

Palavra puxa palavra

O nosso compositor Luis de Freitas Branco, cuja obra ando agora a ouvir com o entusiasmo próprio das grandes descobertas, dedicou dois poemas sinfónicos a Antero de Quental, um deles inspirado no soneto “Solemnia Verba”. Não sei se a escolha que fiz do “Nocturno”, na sexta-feira, se ficou também a dever às minhas actuais tendências melómanas, mas certo é que o soneto anteriano inspirou o António Cagica Rapaz.

Palavra puxa palavra e, deste modo, o António, retomando a magna paródia em torno do Pantero do Quintal, revisitou a pré-história da nossa amizade, que haveria de esperar uns três anos (mais ou menos…) para dar os primeiros passos.

Até lá, fui continuando a ler, sempre com enorme prazer, as suas crónicas na última página de “O Sesimbrense”. São textos cheios de glória que, só por si, justificavam que se assinasse aquele jornal. Depois, bom, depois foi a aventura dos “Noventa e tal contos” e o mais que se sabe, e que já por aqui foi sendo dito.

Desde então é meu privilégio tê-lo entre os melhores amigos. O António só sabe cultivar a amizade com lealdade e franqueza, e isso talvez possa surpreender e desagradar aos que, nas relações humanas, estão mais habituados aos ziguezagues e aos malabarismos.

Dito isto, e para gáudio do Impaciente Português, regressemos aos sonetos de Antero. Este que se segue foi magistralmente lido pela actriz Carmen Dolores, há alguns anos, na Matriz de Sesimbra, numa noite de poesia em que o António Cagica Rapaz deu a conhecer as quadras que, havia pouco, escrevera sobre o Senhor das Chagas, e que depois ficaram nas páginas d’ "Os Chamadores".


À VIRGEM SANTÍSSIMA

Cheia de graça, Mãe de Misericórdia.

Num sonho todo feito de incerteza,
De nocturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza…

Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade…
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há na natureza…

Um místico sofrer… uma ventura
Feita só do perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira…

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa…
E deixa-me sonhar a vida inteira!

Antero de Quental

Instantâneos (10)

ÁGUAS MIL

Regressaram as chuvas.
Outra foi a tua água e mais pura.
A minha água afasta a alegria e os pássaros.
A minha água não apaga os incêndios,
nem a loucura.

José Agostinho Baptista

sábado, março 18, 2006

As aproximações a Agostinho da Silva (2)

Por estas bandas, e em ano de centenário, prosseguem as leituras da obra de Agostinho da Silva. Hoje transcrevemos um excerto do livrinho "Considerações", editado pelo autor em Famalicão, em 1944.
Amor do povo

Estes amam o povo, mas não desejariam, por interesse do próprio amor, que saísse do passo em que se encontra; deleitam-se com a ingenuidade da arte popular, com o imperfeito pensamento, as superstições e as lendas; vêem-se generosos e sensíveis quando se debruçam sobre a classe inferior e traduzem, na linguagem adamada, o que dela julgam perceber; é muito interessante o animal que examinam, mas que não tente o animal libertar-se da sua condição; estragaria todo o quadro, toda a equilibrada posição; em nome da estética e de tudo o resto convém que se mantenha.

Há também os que adoram o povo e combatem por ele mas pouco mais o julgam do que um meio; a meta a atingir é o domínio do mesmo povo por que parecem sacrificar-se; bate-lhes no peito um coração de altos senhores; se vieram parar a este lado da batalha foi porque os acidentes os repeliram das trincheiras opostas ou aqui viram maneira mais segura de satisfazer o vão desejo de mandar; nestes não encontraremos a frase preciosa, a afectada sensibilidade, o retoque literário; preferem o estilo de barricada; mas, como nos outros, é o som do oco tambor retórico o último que se ouve.

Só um grupo reduzido defende o povo e o deseja elevar sem ter por ele nenhuma espécie de paixão; em primeiro lugar, porque logo reprimiriam dentro em si todo o movimento que percebessem nascido de impulsos sentimentais; em segundo lugar, porque tal atitude os impediria de ver as soluções claras e justas que acima de tudo procuram alcançar; e, finalmente, porque lhes é impossível permanecer em êxtase diante do que é culturalmente pobre, artisticamente grosseiro, eivados dos muitos defeitos que trazem consigo a dependência e a miséria em que sempre o têm colocado os que mais o cantam, o admiram e o protegem.

Interessa-nos o povo porque nele se apresenta um feixe de problemas que solicitam a inteligência e a vontade; um problema de justiça económica, um problema de justiça política, um problema de equilíbrio social, um problema de ascensão à cultura, e de ascensão o mais rápida possível, da massa enorme até hoje tão abandonada e desprezada; logo que eles se resolvam terminarão cuidados e interesses; como se apaga o cálculo que serviu para revelar um valor; temos por ideal construir e firmar o reino do bem; se houve benefício para o povo, só veio por acréscimo; não é essa, de modo algum, a nossa última tenção.

Agostinho da Silva

sexta-feira, março 17, 2006

Nocturnos (2)

NOCTURNO

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento…

Como um canto longínquo – triste e lento –
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento…

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!

Antero de Quental

Eles lá sabem

No “Raio de Luz” de Fevereiro último, Esequiel Lino, centrando-se na reunião da Assembleia Municipal realizada na Cotovia, começa o seu artigo de opinião enaltecendo os quatro animais que tem em casa, para o terminar verberando três pessoas “com a mesma filiação partidária”, duas das quais membros daquele órgão. Na sua versão dos acontecimentos, os referidos, que, acrescente-se, são militantes do Partido Socialista, em dada altura da reunião “estiveram apenas interessados nas conveniências dos seus feudos em vez de pugnarem pelo bem de todos, ressuscitando assim os velhos “fantasmas” que o fascismo sempre valorizou: dividir para reinar.”

Não dois, mas todos os deputados municipais do PS são visados pela Dr.ª Sandra Rodrigues de Carvalho, na coluna que assina no último “Jornal de Sesimbra”. Como ontem aqui alvitrei, a chefe de gabinete do Arquitecto Pólvora não terá presumivelmente gostado da motivação com que aqueles autarcas votaram o orçamento camarário para o ano em curso.

Começa a torna-se patente o assestar de baterias empreendido sobre a segunda força mais votada nas últimas eleições autárquicas, quer para a câmara, quer para a assembleia, a uma distância mínima da primeira.

Talvez nesta vitória de Pirro, e na intranquilidade que ela acaba por gerar, se encontre a chave para a compreensão do fogo cerrado que, de súbito, parece ter-se abatido sobre os deputados municipais do PS.

É bem certo que a grande maioria das matérias sujeitas à apreciação do órgão deliberativo não suscita qualquer divisão. Mas um número contado de documentos importantes – e o orçamento é um deles –, bem como certos pontos agendados nalguns períodos antes da ordem do dia, são motivos para as ondas se encapelarem. Esequiel, pelo menos, sabe bem que assim é. A conquista da Assembleia, pela oposição, em 1989, foi o prelúdio à sua saída de cena. Daí que, mesmo para um observador imparcial, não se afigure particularmente inteligente este acirrar de ânimos em que os comunistas parecem empenhados. Mas eles lá sabem…

quinta-feira, março 16, 2006

Curtas (2)

Morrissey

A minha geração cresceu a ouvir os REM, os U2 e os The Smiths. Os dois primeiros renderam-se aos padrões mainstream, adquiriram o estatuto de super-bandas e, com algumas excepções, as suas aventuras e proezas deixaram de me entusiasmar.

No jogo da glória os louros vão evidentemente para os Smiths, e para a genial dupla Morrissey & Marr, a quem ficámos a dever algumas dezenas de canções imortais que Lennon e McCartney não desdenhariam ter escrito.

Desafortunadamente, os Smiths acabaram em 1987, porque os dois génios não se entendiam. Morrissey iniciou então uma carreira a solo, que tem tido altos e baixos. Em 2004 regressou com um grande disco, “You are the quarry”. Agora está de volta, com um novo álbum, “Ringleader of the Tormentors, que sai no próximo dia 4 de Abril. Até lá, procurem governar-se com o primeiro “single” – “You have killed me”. Experimentem ouvi-lo aqui. A amostra promete.

Sesimbra fora de portas

alimento


¿qué agua alimenta hoy este aljibe -
entre hierbas, huesos, humo y marejada -?
quizá la del bautismo. quizá la que un día,
sobre los tejados, hoy desaparecidos,
alimentaba el sueño y la oscuridad.

sin sal (quizá sin sal), se secaron
sobre las manos la cal y la sombra.
sangre y sudor bajaron la colina.
con sed. con hambre. sin voz
sin viento.

la tierra baja al interior en los días más fríos.
absorbe los ojos, el barniz, el mármol,
la madera –pelos y saliva
sin fuente donde beber.

nadie reparará en el secreto
excavado en esta roca -
– granos de trigo.
brotarían en un tejado, muerto, de la ciudad.

¿qué nombre guardarían en estos silos
que hoy sólo protegen la memoria?

lejos (cerca, pero demasiado lejos) -
la mano y el útero bendicen todo el campo.

extendieron sobre el bosque y sobre el valle
el agua y el alimento del tiempo.

Sesimbra –
castillo (siglos XIII y XIV)

(Este poema saiu inicialmente na "Sesimbra Eventos" e já foi reproduzido aqui. Desta feita, deixo a sua tradução para castelhano, devida a Antonio Sáez Delgado. Integrará um livro meu que sairá dentro de pouco tempo numa editora espanhola.)

PARA QUE CONSTE

Há coisas que devem ser ditas nos lugares certos. O que aqui escrevo, poderia encafuar-se na caixa de comentários ao meu apontamento "Educação Sexual", mas merece ficar aqui - para se tornar visível a certos cidadãos que me recuso a qualificar (não costumo queimar cera com ruins defuntos...). Então, para que conste, faço saber que:
1. Sou um cidadão em pleno uso da sua liberdade de expressão que, convidado pelos fundadores do "Sesimbra e Ventos", escreverá neste espaço o que o seu olhar e pensamento lhe ditarem.
2. Sou contribuinte no concelho de Sesimbra; tenho, portanto, o direito de manifestar a minha opinião sobre o espaço em que habito.
3. Como se diz na minha terra, não sou nenhuma rodilha que se abaixe a esfregões.
4. Só me ofende que eu quero que me ofenda.
5. A única entidade que tem autorização para morder nos meus calcanhares são os meus sapatos, quando novos.
Posto isto, continuarei - enquanto o tempo, o pensamento e o olhar mo permitirem - a escrever o que entender no "Diário em Sesimbra". Quem enfiar a carapuça, paciência...

Politiquices

No artigo que assina no último “Jornal de Sesimbra”, a Dr.ª Sandra Rodrigues de Carvalho defende a paternidade comunista de alguns projectos e obras municipais que os eleitos do PS na Assembleia Municipal, na reunião deste órgão de 3 de Fevereiro último, terão reputado como sendo de “continuidade” relativamente ao mandato anterior.

Depois, a chefe de gabinete do actual Presidente da Câmara tem um momento de exortação: “Deixemo-nos de politiquices e vamos passar a ser “políticos”, com rigor e honestidade, agir em conformidade com a vontade da população que nos elege e tornar as Assembleias Municipais e outras reuniões do género, em locais de debate produtivo, e não de teorias vagas, com ideias concretas que tragam progresso ao Concelho de Sesimbra.”

Vendo um “bom sinal” na continuidade que verifica existir no orçamento de 2006, a articulista considera não ser “aceitável, muito menos compreensível”, “deitar fora” projectos que, apesar de quem os pensou, tenham validade para o desenvolvimento do concelho.

E prossegue: “Talvez por terem sido partes integrantes num Orçamento, como neste o foram, as restantes forças políticas representadas no executivo desta edilidade o tenham votado favoravelmente, de forma unânime. Ou apenas por estarem de acordo com o mesmo! Muito mais correcto teria sido a actuação, de forma idêntica, dos deputados municipais do PS.”

Apesar de extensas, as citações impõem-se por uma questão de transparência e para que os cibernautas possam formar o seu próprio juízo.

Tal como estão enunciadas, as palavras da Dr.ª Sandra Rodrigues de Carvalho – que se referem a uma “actuação, de forma idêntica” – poderiam bem levar-nos a crer que os deputados municipais do PS não votaram favoravelmente o orçamento camarário para 2006. A verdade é que o aprovaram.

Não acredito que a chefe de gabinete do Arquitecto Augusto Pólvora tenha querido, em algum momento, faltar à verdade. Se bem interpreto o que disse, limitou-se, embora de modo pouco claro, a fazer um juízo, nada benevolente, das intenções subjacentes ao sentido do voto socialista. Seja como for, confesso que só com alguma hermenêutica e a necessária dose de boa fé pude chegar a essa conclusão.

Há sempre que pôr algum “rigor” naquilo que se escreve, não vá dar-se o caso de as “teorias vagas” prejudicarem as “ideias concretas” e, assim, fazerem-nos crer que tudo não passa afinal de “politiquices”.

quarta-feira, março 15, 2006

As seitas de hoje (2)

Rescaldo

Sou tudo aquilo que vês
Sou aquilo que pareço
E quero continuar a ser
Aquilo que alguma vez
Nunca hás-de parecer.
E agora que te conheço
Esse retrato de corpo inteiro,
Eu serei o primeiro
A dar-te um rotundo não,
E é por isso que te peço
Que nunca me estendas a mão.

Out/2005

Joaquim Penim

Curtas (1)

Cláudio Carneyro e Luís de Freitas Branco

Duas revelações autênticas. Primeiro, há três meses, a descoberta da música de câmara de Cláudio Carneyro (na foto). Agora, o deslumbramento com a obra sinfónica de Luís de Freitas Branco. Até quando continuaremos a esquecer os nossos grandes compositores do século XX?

Honra lhe seja feita!

O jornal “Notícias da Zona”, na sua edição de 6 a 19 de Março, informa-nos que o Departamento de Administração e Planeamento Urbanístico da Câmara Municipal de Sesimbra já não fecha à hora de almoço, entre as 12h30 e as 14 horas. E este periódico vai mais longe: “Com o intuito de agilizar processos e evitar demoras no atendimento, a autarquia salienta, na sua página oficial na Internet, que «esta medida tem-se revelado positiva.»”

Conviria, porém, que o “Notícias da Zona” – um projecto sério, mas ainda com poucos anos – acrescentasse que tal já sucede desde Janeiro de 2001. Assim, como está, a notícia em apreço parece sugerir que este horário do DAPU é coisa de agora. E nada aponta nesse sentido, ou autoriza tal entendimento, na informação prestada pelo portal da Câmara. Honra lhe seja feita!

Diário em Sesimbra (7)

RIBEIRA DA FAÚLHA

Poderia ser um veio de frescura. Mas, no entanto, cheira mal.
Poderia trazer aos nossos ouvidos a melodia das suas águas. E, no entanto, estão paradas, com cores que não lhe pertencem.
Poderia ser uma nascente de verdura, atravessando terras da Cotovia. O verde - por quanto tempo? - ainda vai permanecendo, entre tangerineiras e favais, entre vivendas e urbanizações.
Verde-passado, verde-futuro ou verde-final? Verde-saudade? Desejaria um verde de esperança...
Mas terei esperança num mundo em que tudo se submete ao dinheiro?

As seitas de hoje (1)

Disse eu, em Fevereiro de 2004, numa publicação de renome, voltei a dizê-lo aqui há pouco dias, e repito-o agora, uma vez mais, neste espaço cibernético, cujo nome soa da mesma maneira:

- que as seitas da minha meninice “não tinham carácter religioso e muito menos político”;

- “todos tínhamos um quartel”;

- “este nosso mundo era um sítio paradisíaco”;

- “armados em D’Artagnans, Zorros e Tarzans”;

- “aqueles trilhos não tinham segredos e por eles chegávamos às nespereiras…”;

- “tempo da absoluta despreocupação e de muitas amizades…”.

Está bem que se passaram muitos anos, que os intervenientes não são os mesmos, que os meios ao nosso dispor são muito mais amplos e sofisticados, que nos tornámos muito mais egoístas e isolados, mas que raio!, o palco, esse, continua a ser a Sesimbra em que vivemos e que alguns de nós amam.
Hoje há seitas políticas...
Há quartéis que albergam mais do que uma seita, tornando-os “mundos” infernais onde o imaginário não consegue corporizar qualquer figura,
Há figurões que armadilham os trilhos que deveriam levar-nos ao consenso de finalidades,
Há um mundo de preocupações e de poucas amizades…
Apetece-me escrever:

Hipócritas

Fingir boas qualidades
Para ocultar os defeitos
É ser-se cínico mascarado,
Antro de duplicidades,
Desrespeitador de conceitos.
Camaleão, dissimulado,
Que se arrasta untuoso,
Fingido de lealdades,
Velhaco e mentiroso,
És um hipócrita chapado!

Out/ 2005

Joaquim Penim

terça-feira, março 14, 2006

Diário em Sesimbra (6)

EDUCAÇÃO SEXUAL

Sempre me impressionou a existência em Sesimbra de mães e avós muito jovens, demasiado jovens algumas até. Nunca percebi a razão deste fenómeno que, não sendo apenas sesimbrense, parece ter por aqui uma especial incidência.
Há poucos dias o relato de uma colega chamou-me a atenção. Ao leccionar uma aula sobre o sistema reprodutor, dedicando especial atenção aos mecanismos de prevenção da gravidez (nomeadamente os naturais, relacionados com os ciclos de fertilidade), deu conta de que apenas os rapazes manifestavam interesse pela matéria, colocando questões pertinentes. A maioria das raparigas entretinha-se a folhear revistas de fofocas, a pintar as unhas, a coscuvilhar entre si, por mais que a professora tentasse explicar-lhes a importância deste tema para a sua vida, elas que se gabam de uma sexualidade activa. Manifestaram posteriormente uma ignorância olímpica e displicente sobre quanto fora estudado na aula – como seria de esperar, infelizmente...
Porque se comportariam desta forma? Por não valorizarem a Escola e o estudo? Por acharem que já sabem tudo quando, na realidade, pouco ou nada sabem? Não sei.
Fiquei preocupado. Se outras jovens sesimbrenses tiverem uma postura semelhante, quantas gravidezes irresponsáveis, prematuras e indesejadas não virão ainda por aí?

Bandeira azul

O bê-a, ba

No seu último boletim informativo, com data do corrente mês, a Câmara Municipal de Sesimbra vem explicadamente informar que candidatou as praias do Ouro e da Califórnia, em Sesimbra, à atribuição da Bandeira Azul (BA), mais dizendo ter sido sua opção “não proceder à elaboração da candidatura à BA, sempre que a praia não reúna todas as condições exigidas”.

Muitos de nós – infelizmente, não todos – têm ainda bem presente que em 2005 foi atribuída uma BA à Praia do Moinho de Baixo, no Meco. Deveremos, então, perante aquela informação genérica, depreender que este ano não há condições para se renovar a candidatura da praia do Moinho de Baixo à atribuição de tão importante galardão? Dada a relevância da questão, e a título de esclarecimento, será que nos podiam adiantar algo mais? E se não há condições, porque é? Em matéria de informação, e sobre a BA, quer-nos bem parecer que isto seria apenas o bê-á, ba…

segunda-feira, março 13, 2006

Diário em Sesimbra (5)

ALTO DA ARRÁBIDA

Não fosse o mar a bater nas línguas de areia, dois ou três pássaros e os poucos automóveis na estrada – e o silêncio seria total. Pouco mais me interessa nestes dias. Estou na companhia dos elementos (o fogo na memória, no mato queimado) e da vegetação que já rebenta por entre os vestígios do incêndio. Banalidade verdadeira: aqui sentimo-nos pequenos, tão pequenos que Deus entra e fica.

Olha o passarinho!

Com a denominação “Abril Rostos Mil”, e sob o lema “Participação e Solidariedade”, a Câmara Municipal de Sesimbra acaba de lançar uma iniciativa que consiste num conjunto de sessões fotográficas, destinadas a tirar o retrato a mil rostos que irão construir a imagem gráfica alusiva ao 25 de Abril.

Dentro do espírito de agitação permanente que nos havia sido garantido no período eleitoral – o já famoso “Carnaval todo o ano” –, esta acção vem demonstrar que existe uma espantosa coerência ente os propósitos e a actuação da nossa edilidade.

Compreende-se bem o apelo à participação. Afinal de contas, em bicos de pés ou não, sempre há quem goste de dar nas vistas, celebrizando a cara laroca na admiração pública. O promotor da iniciativa até garante a entrega de um certificado de participação, que – está-se mesmo a ver – deve ser para fazer curriculum, uma vez que, como lembrança, qualquer bibelot agradaria mais aos circunstantes.

Já a solidariedade da coisa não resulta tão evidente, pois o retrato nem sequer é de grupo. Haverá algum propósito humanitário que nos tenha escapado? Ou será esta a tão ansiada expressão da solidariedade colectiva que há algumas semanas o director do “Raio de Luz” afiançava ao Arquitecto Pólvora?

O que também não pode deixar de causar certa estranheza é o facto de as sessões fotográficas previstas não contemplarem a freguesia do Castelo, circunscrevendo-se a diversos locais da sede do concelho e ao mercado e ao pavilhão municipais da Quinta do Conde. Os camponeses serão assim tão pouco fotogénicos que não tenham direito a uma só sessão na sua freguesia, por sinal uma das maiores do país em área territorial? Ou terão que se deslocar forçosamente a outras paragens para poderem ficar no boneco? Que será feito do espírito descentralizador tão apregoado nos últimos tempos?

Bem podiam os mentores da iniciativa ter seguido o exemplo da Presidente da Assembleia Municipal, e trazer o fotógrafo à Cotovia, sem falar em Alfarim, na Azoia ou na Maçã, por exemplo. Mas, pelos vistos, limitaram-se a colher a expressa anuência da Dr.ª Odete Graça, para, no intervalo da reunião da Assembleia Municipal da passada sexta-feira, realizarem mais uma sessão fotográfica, especialmente destinada aos membros daquele órgão e aos munícipes ali presentes.

Tudo visto e somado, é capaz de haver alguém que já tenha ficado mal na fotografia...

domingo, março 12, 2006

Instantâneos (9)

DESPREZO

Todos dizem: Cavalo!
À parte o põe o desprezo:
Só ninguém sabe levá-lo
Como ele nos leva, sem peso.

Vitorino Nemésio

sábado, março 11, 2006

Ainda o Dia Internacional da Mulher

Contrastes
Anteontem, no post “Mea culpa”, e a propósito de uma invulgar celebração pública, afirmei que as comemorações do Dia Internacional da Mulher deveriam pautar-se pela ênfase e pela dignidade, posto que a primeira não frustrasse a segunda.

Na altura, teria sido oportuno referir que há mais vida para além da grita pavorosa que, na quarta-feira, se abateu sobre as árvores do jardim. Mas nunca é tarde…

Dá-se o caso de a Biblioteca Municipal de Sesimbra promover, ao longo deste mês, um conjunto de iniciativas destinadas a homenagear a mulher, que dão corpo a um programa ambicioso e variado.

Uma exposição de pintura, “FeminiNus”, com trabalhos de Maria Baioneta e Manuela Marques, vai estar patente ao público, até ao fim do mês, no átrio da Biblioteca, ao passo que na sala multiusos pôde ser visitada, nos últimos dias, a mostra “O Estado Novo e as Mulheres”, graças a uma parceria estabelecida com a Biblioteca Museu República e Resistência. A esta exposição seguir-se-á, no mesmo espaço, entre 18 e 31 de Março, uma outra, de fotografia, intitulada “As Mulheres no Século XX: Os Trabalhos e os Dias”.

Um colóquio promovido, neste âmbito, pela Liga dos Amigos de Sesimbra e o café-concerto que se vai realizar no próximo sábado, dia 18, pelas 16h30, com a leitura de poemas por autores sesimbrenses e a participação do Grupo Coral de Sesimbra, são outros motivos de interesse destas comemorações.

Como é evidente, pode-se gostar mais ou menos destas iniciativas. Mas nunca negar que elas traduzem um trabalho sério de programação cultural, que procura ser digno e consequente. Há contrastes que se impõem.

Boa noite, ó mestre!
















CÂNTICO NEGRO

«Vem por aqui» – dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: «vem por aqui»!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós me responde,
Por que me repetis: «vem por aqui»?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tende tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: «vem por aqui»!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
– Sei que não vou por aí!

José Régio

115 visitas...

...foi o número registado ontem pelo nosso contador da Site Meter. Pela primeira vez na sua história, e apenas dois meses passados sobre o seu arranque efectivo, o “Sesimbra e Ventos” logrou superar a fasquia dos três dígitos no que toca a visitas diárias, alcançando, neste curto período, um patamar deveras apreciável para um blogue de vocação essencialmente local.

Desde que, em 8 de Fevereiro passado, instalámos o contador, recebemos já, no total, e até ao final do dia de ontem, 2069 visitas. Nos últimos sete dias registámos 582 visitas, o que corresponde a uma média diária de 83 visitas.

Como é óbvio, tais números, que traduzem o reconhecimento deste projecto, deixam-nos orgulhosos, mas também cientes das nossas responsabilidades.

Vamos continuar o nosso caminho, tornando este espaço de liberdade e de crítica num lugar cada vez mais criativo, e sempre aberto ao debate.

Aos leitores, a nossa gratidão.

sexta-feira, março 10, 2006

Nocturnos (1)

À MINHA MUSA

Senhora da manhã vitoriosa
E também do crepúsculo vencido.
Ó senhora da noite misteriosa,
Por quem ando, nas trevas, confundido.

Perfil de luz! Imagem religiosa!
Ó dor e amor! Ó sol e luar dorido!
Corpo, que é alma escrava e dolorosa,
Alma, que é corpo livre e redimido.

Mulher perfeita em sonho e realidade.
Aparição Divina da Saudade…
Ó Eva, toda em flor e deslumbrada!

Casamento da lágrima e do riso;
O céu e a terra, o inferno e o paraíso,
Beijo rezado e oração beijada.

Teixeira de Pascoaes

As seitas

Eu sou da seita da Fonte Nova!

Era assim que me identificava na escola, perante os outros. Normalmente pertencíamos à seita da zona da nossa residência, pelo que, na altura, anos cinquenta, havia muitas mais seitas – a do Cemitério e a da Torrinha, que eram normalmente nossas aliadas; a do Canino e a do Bairro dos Pescadores, que por serem do lado nascente da vila (daquela banda, como então designávamos os que ali residiam, tal como eles em relação a nós), eram os nossos antagonistas. Para os mais novos, os de hoje e os desajustados desta realidade de então, é bom dizer-se que estas seitas não tinham nenhum carácter religioso e muito menos político, éramos mais… um bando… ou um grupo de bairro, isso, éramos sobretudo bairristas, muito bairristas.

Todos tínhamos um quartel e o nosso era no Ribeiro da Fonte Nova. Também conhecia bem o da Torrinha, que era na Casa Velha, e o do Cemitério, no Chico 18. Eram os nossos sítios de reunião e esconderijo, onde guardávamos os nossos arcos e flechas, as espadas e os escudos, mais o mealheiro dos dinheiros provenientes da venda do arame das lojas de companha, do chumbo das canalizações e do peixe que caía dos cestos dos homens que descarregavam os barcos das armações. Este dinheiro constituía o nosso fundo de maneio, que servia sobretudo para a compra das bolas de futebol.

Este nosso “mundo” era um sítio paradisíaco, uma zona densamente arborizada que apelidávamos de “Selva”. Poucas construções existiam por ali, a Cordoaria lá bem no alto, sobranceira ao mar e para onde nós íamos admirar os grandes vendavais, e uma outra, cá em baixo, junto a uma fiada de frondosas palmeiras, que eu via, bem defronte da janela da cozinha da casa de meus Avós, e de cujas folhas secas fazíamos braços que navegavam nos pequenos lagos que construíamos, aproveitando aquele fio de água que teimava em percorrer o leito daquele ribeiro. Este “nosso território” começava a norte nas terras do “Sanica” e estendia-se para sul, até à marginal, pela Quinta da D. Arminda, pelas terras do “Bezerro” e das “Barrocas” e terminava na Armação do Roquette, situando-se à esquerda a loja da companha e o armazém das redes e bóias, enquanto à direita ficava o estaleiro e o tanque do alcatrão. Ainda no lado esquerdo existia a moradia da família, onde há mais de cinquenta anos me arrancaram um dente, o primeiro e certamente o mais doloroso.

Para nós, putos da Fonte Nova, armados em D’Artagnans, Zorros e Tarzans, então as figuras do nosso imaginário, aqueles trilhos não tinham segredos e por eles chegávamos às nespereiras, figueiras, a uma ginjeira e ainda a uma amoreira, que sendo mais pequena do que a do Zé das Abóboras, também dava umas saborosas amoras.

Foi o tempo da absoluta despreocupação e de muitas amizades, que perduraram para além da “Selva” e dos “Quartéis”, substituídos por outros pólos de atracção e interesses que originaram depois novas amizades.

E assim surgiram o Colégio e o Café Central, o futebol, a tropa e a guerra e os vários locais de trabalho. Surgiram os casamentos e os filhos, as famílias dos consortes e os amigos dos filhos, os convivas dos petiscos, enfim, os “Xaxas”, “Marretas” e “Confrades”, que são nomes do nosso imaginário de despreocupação, que tentamos ainda fazer prevalecer sobre os problemas dos nossos quarenta e cinquenta anos, que agora sabemos ter, mas que nos nossos encontros não precisamos de entender.

Fevereiro/2004

Joaquim Penim

quinta-feira, março 09, 2006

Diário em Sesimbra (4)

Fórum Sesimbra

Tenho visto, um pouco por todo o concelho, cartazes assinados por um "Forum Sesimbra". Visam contestar o plano de ordenamento do Parque da Arrábida, que lesa, segundo afirmam, os interesses do município.
Gostaria de ver cartazes semelhantes por todo o lado apelando ao civismo activo dos habitantes desta parcela da península da Arrábida. Apelando à limpeza dos espaços naturais, rurais ou urbanos, à promoção do valor do estudo, à preservação do património natural e construído, à luta contra a construção desenfreada e selvagem...
Ou terão estes problemas de Sesimbra uma importância menor (ou inexistente) para o dito "Fórum"?

Mea culpa

Sou, por natureza e por cultura, pouco dado a internacionalismos. Se há coisa que me causa aversão são os dias, internacionais ou mundiais, disto ou daquilo. Aliás, há muito que o rol destas celebrações, algumas por dá cá aquela palha, deixou de ter o seu fim à vista.

Há quem afirme que celebrar hoje o Dia Internacional da Mulher acaba por ser uma forma de discriminação. Pela minha parte, devo dizer que meto neste saco a questão das quotas.

Por outro lado, a bandeira da luta, inteiramente justa, pelo reconhecimento da dignidade da mulher, não raro se presta a inconfessados aproveitamentos partidários, ou tem descambado, aqui e ali, para um feminismo insuportável.

Seja como for, e ainda que a celebração do dia 8 de Março tenha, felizmente, perdido, por virtude da evolução sócio-cultural, boa parte do lastro histórico resultante da trágica efeméride que a inspira, dou de barato que se comemore com ênfase e dignidade o Dia Internacional da Mulher.

Parece que, para assinalar a data, a Câmara Municipal de Sesimbra promoveu ontem de manhã, com sonorosos altifalantes, um alarido tremendo no Largo 5 de Outubro, cortando ainda o trânsito no jardim e distribuindo flores às transeuntes. Vindo de quem vem, o estrepitoso espalhafato não surpreende, ou não nos tivessem prometido Carnaval todo o ano. Neste capítulo, estão a cumprir. Mas a verdade é que, apesar de tão óbvia, não fui capaz de prever a coisa quando, faz hoje um mês, vos falei do cartaz engendrado para o Dia de São Valentim. Podem reler esse “post”, clicando aqui.

Impunha-se, por isso, este acto de contrição. Mea culpa.

quarta-feira, março 08, 2006

Moeda ao ar

Ainda o insólito do trânsito na vila de Sesimbra. As obras no prédio da Rua da República já terminaram há algumas semanas e não obstante se poder, de novo, circular nesta artéria a partir do Largo do Município, na Rua Jorge Nunes mantém-se o sentido único norte-sul, rumo a Bombaldes.

Talvez o futuro seja verdadeiramente este, quem sabe? Aproveitar a recuperação de uma fachada, o levantamento de uma tampa de esgoto, o calcetamento de uma viela esburacada para introduzir novas alterações na circulação rodoviária. Mas a moeda ao ar, como método, também não estaria mal…

terça-feira, março 07, 2006

Quantos? Quais?

Pelos jornais, ficámos a saber que no dia 17 de Fevereiro foi assinado um protocolo institucional e financeiro entre a Câmara Municipal de Sesimbra e o Centro de Estudos Culturais e de Acção Social Raio de Luz (CECAS-RL), tendo em vista a construção da nova sede desta associação. A obra, de resto, já está no terreno e parece ter despertado um carinho fervoroso nalguns corações.

Sem deixar de reconhecer certo interesse ao projecto, confesso que não posso, por ora, acompanhar o gáudio manifestado. Quando penso no que tem sido o desempenho do CECAS-RL desde a sua fundação, interrogo-me sobre as reais provas dadas por esta casa, no domínio cultural, ao longo do quarto de século que já leva de existência e, por conseguinte, tento imaginar o que pode vir a ser a sua acção futura.

Além da biblioteca pública, que estudos culturais foram promovidos e publicados pelo CECAS-RL nos últimos 25 anos? Que colóquios, que conferências, que exposições, que edições, que visitas de estudo foram promovidos neste já longo período? Que sinergias se estabeleceram entretanto com o vasto e rico universo institucional da Igreja Católica, mormente no domínio cultural, tendo em conta a vocação natural do CECAS-RL e o estatuto de pessoa moral canónica de que goza? Quais as realizações desta casa nos duzentos e muitos meses transcorridos desde a sua fundação? Quais os seus créditos? Quais os seus pergaminhos? Quantos? Quais?

segunda-feira, março 06, 2006

UMA VISITA OBRIGATÓRIA

Ventos e tempestades na Estrada do Alicerce

“Ventos e tempestades”, assim se intitula o artigo que Ruy Ventura assina hoje no seu “Estrada do Alicerce”, e que o leitor não deve perder. A propósito do homicídio recente de um adulto, no Porto, por um grupo de adolescentes, este nosso companheiro do “Sesimbra e Ventos” oferece-nos – sem papas na língua, como é seu timbre – uma reflexão, tão lúcida quanto incómoda, sobre o sistema de ensino português e os problemas graves de que este enferma. É um texto notável, pleno de coragem e de argúcia, de quem não teme parecer politicamente incorrecto numa área tão marcada pelos mitos e pelos dogmas.

De resto, o “Estrada do Alicerce”, blogue que conta ainda com a colaboração de Nicolau Saião e José do Carmo Francisco, e onde se destaca a publicação de poesia, merece uma atenção muito regular, sobretudo pela grande qualidade dos seus textos, e também pelo espaço dedicado às artes plásticas.

Diário em Sesimbra (3)

DESLUMBRAMENTO E REVOLTA

Desci há bocado o caminho de terra batida que vai do cruzamento da Assenta até ao porto de abrigo. Passei pela primeira vez junto do Forte de S. Teodósio. Impressionaram-me o horizonte, o mar cruzado pelos barcos de pesca, a nudez dos rochedos, o esplendor da baía abraçada por Sesimbra.
Revoltou-me, contudo, o abandono a que está votado este quadro tão belo. Já nem menciono as feridas provocadas pelas pedreiras. Refiro-me ao lixo e ao entulho que por todo o lado se acumula.
Quando um comunidade trata assim uma das suas jóias, algo de doente existe no seu interior.

Boas intenções

Tal como o António Cagica Rapaz, também li o que o Dr. David Sequerra escreveu no último “O Sesimbrense” sobre a “mensagem bem intencionada” que Amadeu Penim lhe enviou a propósito da menção feita às bandeiras azuis. Embora eu seja pouco dado a julgar intenções, preferindo, sobretudo, deter-me nos factos, a bonomia quase pastoral que ressoa nas palavras do director daquele quinzenário não deixou de me impressionar.

Uma coisa, porém, me fez alguma espécie. Mesmo não conhecendo a carta de Amadeu Penim, não me custa imaginar o seu teor, tamanho foi o dislate que se abateu sobre as pobres das bandeiras azuis. Tenho, por isso, certa dificuldade em compreender que, em nove linhas de jornal, se remeta para a quinzena próxima uma rectificação e um presumível pedido de desculpas que não ocupariam maior espaço do que aquele que agora se utilizou.

Esta delonga poderá, todavia, justificar-se com o “apreço e atenção” suscitados “pela intencionalidade positiva da mensagem contida”, segundo o Dr. Sequerra, na epístola de Amadeu Penim. Seja como for, a “plena garantia” do tratamento do assunto, “com justificado interesse”, na próxima edição, que o Dr. Sequerra agora nos oferece, deixa-nos mais descansados. Mas nem por isso menos atentos.

domingo, março 05, 2006

Instantâneos (8)

Quando aqueles que chegavam
olhavam os que partiam
os que partiam choravam
os que ficavam sorriam

Mário Cesariny

sábado, março 04, 2006

Tudo isto é fado













A GUITARRA DA MOURARIA

Amo a tua guitarra, ó Mouraria,
em que um doer mourisco nos desola,
e as almas, sob a lua, acaricia,
como da Alfama a passional viola!...

Bem galantes solaus também carpia
Severa, essa Ninon de naifa e mola.
Mas há sangue em teus ais!... Tua magia
quantas vezes não traz a Cruz e a Estola!

Vai alta a lua. – Após a cavatina,
Almaviva, com zelos de Rosina,
dá seis golpes na amásia, com furor.

Almaviva é marujo e de melenas.
Prisões, guitarras, ais, céu de açucenas.
– Surge a Polícia... e prende, em fralda, o Amor.

Gomes Leal

(Imagem: Fado, de José Malhoa)

As aproximações a Agostinho da Silva (1)

Tal como tínhamos anunciado no passado dia 13 de Fevereiro, quando assinalámos o seu centenário, aqui iniciamos uma série de aproximações ao pensamento de Agostinho da Silva, através da publicação de trechos da sua obra. E começamos com o texto integral do folheto Doutrina Cristã, editado pelo autor em Lisboa, em 1943.
Doutrina Cristã
1. Existe um Deus que é o conjunto de tudo quanto apercebemos no Universo. Tudo o que existe contém Deus, Deus contém tudo o que existe. Pode-se, sem blasfémia, considerar o aspecto imanente ou o aspecto transcendente de Deus; pode-se, sem blasfémia, falar não de Deus mas apenas do Universo, com Espírito e Matéria, formando um todo indissolúvel. A doutrina de Deus, tal como a pôs Cristo, permite considerar todas as religiões como boas embora em graus diferentes, todos os homens como religiosos. Não poderá, portanto, fazer-se em nome de Deus qualquer perseguição: todo o homem é livre para examinar e escolher; a maior ou menor capacidade de exame e o resultado da escolha serão, em qualquer caso, a expressão do que ele é e do máximo a que pode chegar segundo as suas capacidades.

2. A visão mais alta que podemos ter de Deus, nós que somos apenas uma parte do Universo, é uma visão de Inteligência e de Amor; os pecados fundamentais que o homem poderá cometer são as limitações da Inteligência ou do Amor: toda a doutrina estreita, sem tolerância e sem compreensão da variedade do mundo, toda a ignorância voluntária, todo o impedimento posto ao progresso intelectual da humanidade, toda a violência, todo o ódio, limitam o nosso espírito e o dos outros, impedem que sintamos a grandeza, a universalidade de Deus.

3. Deus não exige de nós nenhum culto; prestamos a nossa homenagem a Deus, entramos em contacto pleno com o Universo, quando desenvolvemos a nossa Inteligência e o nosso Amor: um laboratório, uma biblioteca são templos de Deus; uma escola é um templo de Deus; uma oficina é um templo de Deus; um homem é um templo de Deus, e o mais belo de todos. Todos podemos ser sacerdotes, porque todos temos capacidades de Inteligência e de Amor; e praticamos o mais elevado dos cultos a Deus quando propagamos a cultura, o que significa o derrubamento de todas as barreiras que se opõem ao Espírito. Estão ainda longe de Deus, de uma visão ampla de Deus, os que fazem consistir o seu culto em palavras e ritos; mas dos que subirem mais alto não pode haver outra atitude senão a de os ajudar a transpor o longo caminho que ainda têm diante. Ninguém reprovará o seu irmão por ele ser o que é; mas com paciência e persistência, com inteligência e com amor, procurará levá-lo ao nível mais alto.

4. Para que possa compreender Deus, para que possa, melhorando-se, melhorar também os outros, o homem precisa de ser livre; as liberdades essenciais são três: liberdade de cultura, liberdade de organização social, liberdade económica. Pela liberdade de cultura, o homem poderá desenvolver ao máximo o seu espírito crítico e criador; ninguém lhe fechará nenhum domínio, ninguém impedirá que transmita aos outros o que tiver aprendido ou pensado. Pela liberdade de organização social, o homem intervém no arranjo da sua vida em sociedade, administrando e guiando, em sistemas cada vez mais perfeitos à medida que a sua cultura se for alargando; para o bom governante, cada cidadão não é uma cabeça de rebanho; é como que o aluno de uma escola de humanidade: tem de se educar para o melhor dos regimes, através dos regimes possíveis. Pela liberdade económica, o homem assegura o necessário para que o seu espírito se liberte de preocupações materiais e possa dedicar-se ao que existe de mais belo e de mais amplo; nenhum homem deve ser explorado por outro homem; ninguém deve, pela posse dos meios de produção e de transporte, que permitem explorar, pôr em perigo a sua liberdade de Espírito ou a liberdade de Espírito dos outros. No Reino Divino, na organização humana mais perfeita, não haverá nenhuma restrição de cultura, nenhuma coacção de governo, nenhuma propriedade. A tudo isto se poderá chegar gradualmente e pelo esforço fraterno de todos.

Agostinho da Silva

sexta-feira, março 03, 2006

Visões de Gomes Leal (5)













RETRATO DE GOMES LEAL

Meu menino anarquista minha trança
cor do luto da terra que é a nossa
meu pequeno quixote sancho pança
no meio da praça príncipe da troça

Meu demónio de versos minha estrela
minha luva amarela meu tunante
que namoras beatas à janela
e fodes a duquesa de brabante.

Minha rosa de rimas meu sacrário
meu cálice no bar do anticristo
minha espora de vinho visionário
deste quase protesto de opereta.
Meu quase tudo quanto resta disto
meu poeta meu trapo meu trombeta.

José Carlos Ary dos Santos

quinta-feira, março 02, 2006

Visões de Gomes Leal (4)













GOMES LEAL/II

(Grito de Gomes Leal no céu:)


“Cansado de dormir no basalto
morri e meteram-me numa nuvem de elevador.
E agora cá estou no céu alto
com uma estrela ao peito em vez de flor.

Mas qualquer dia dou um salto.
(Ou peço a um anjo que me transporte
para não quebrar as pernas.)

Estou farto de céu e quero mundo! Quero morte!
Quero dor! Quero tabernas!”

José Gomes Ferreira

Diário em Sesimbra (2)

MIRADOURO

Não tenho medo dos mortos. De alguns vivos, sim, tenho muito medo. Daqueles que assassinam o espírito. Daqueles que apagam a memória. De muitos outros que, através de actos aparentemente inofensivos, são causa da erosão que vai corroendo o nosso viver social.
Não tenho medo dos mortos. Por isso, sempre que posso, atravesso o cemitério do Castelo para me sentar durante alguns minutos no revelim que o século dezassete acrescentou às muralhas de uma vila já moribunda. Não há melhor miradouro para contemplarmos, sem ruído, a póvoa marítima que se foi tornando Sesimbra.
Mesmo sem oceano e sem vila no horizonte, valeria sempre a pena atravessar o campo santo para me sentar durante alguns minutos no revelim. A Arrábida, vista dali, tem outro encanto. As pedreiras (feridas que os Homens, masoquistas, escavam na sua própria carne) escondem-se. Fica o verde, apenas verde. E, no meio dele, como um diamante, o brilho da cal transmitido pela pequena igreja de Nossa Senhora da Pinha. Gosto deste nome, com um cheiro forte. El Carmen, nunca. Soa a enxertia de garfo que o sol não deixou pegar.

Uma proeza de quatro quilómetros

No artigo de opinião que assina no último “Raio de Luz”, Esequiel Lino elogia a decisão da Presidente da Assembleia Municipal de Sesimbra, Dr.ª Odete Graça, de realizar uma reunião deste órgão nas instalações da Associação Cultural e Desportiva da Cotovia. O antigo autarca vê neste gesto “uma verdadeira lição de democracia”. Segundo ele, está-se a “descentralizar um acto que nos últimos anos se ficou pela sede do concelho como se não existisse mais população no resto do município que naturalmente tem dificuldades de vária ordem para se deslocar a Sesimbra, pelo que é de saudar esta atitude tanto mais que ela era uma prática de descentralização, desde o 25 de Abril, quer no tempo da Comissão Administrativa, quer depois pelos órgãos democraticamente eleitos até 1997.” E, mais adiante, acrescenta: "Não há democracia sem povo. Não há debate sem participação." (O sublinhado é meu).

Tais afirmações causariam sorrisos, não fora a real tristeza que a sua demagogia nos infunde. Quem conhece as exactas possibilidades de intervenção que, por lei, são facultadas aos munícipes presentes nas assembleias municipais, percebe logo que a montanha pariu um rato. Sobre isto já aqui escrevi anteontem e ontem. Remeto, pois, o leitor para esses escritos. Seja como for, a proeza da Dr.ª Odete Graça tem a dimensão que tem: os quatro quilómetros que separam Sesimbra da Cotovia.

Mas Esequiel Lino esqueceu-se de dizer que desde os tempos da Comissão Administrativa e até 1997, houve um estímulo poderoso à itinerância das sessões da Assembleia Municipal: a singela circunstância de, em duas décadas, aquele órgão autárquico, andando de Anás para Caifás, nunca ter tido instalações condignas, o que só veio a suceder em 2000, com a inauguração do Auditório Municipal Conde de Ferreira. E quem foi, quem foi o Presidente da Câmara até 1997?

quarta-feira, março 01, 2006

Ainda o "post" "Alguém tem a bondade de nos explicar?"

Para o público em geral, e dirigido à especial atenção do leitor que assina V.

Este texto começou por ser uma simples resposta ao comentário, feito pelo leitor que assina V., ao meu "post" de ontem, 28 de Fevereiro, intitulado “Alguém tem a bondade de nos explicar?”, para o qual – incluindo todos os comentários feitos – desde já remeto os leitores que ainda o não conheçam, ou que dele se não recordem. Todavia, dado o interesse das questões suscitadas e a extensão que o texto acabou por assumir, optei por publicá-lo autonomamente, como “post”, e em jeito de “carta aberta”, como afinal são todos os comentários feitos na blogosfera. Posto isto, aqui vai:

1. Começo por saudar a forma correcta como o leitor que assina V. comenta o que escrevi. Vê-se que temos ideias diferentes, mas isso não impede que, com respeito, mantenhamos a necessária elevação. Ainda bem que assim é.

2. O leitor que assina V. far-me-á, por certo, a justiça, de me incluir entre os opinadores a que se dirige.

3. Começarei por lhe dizer que fui membro da Assembleia Municipal de Sesimbra no quadriénio 1994-1997. Antes disso, bem ou mal, fiz a cobertura jornalística de muitas das sessões deste órgão, num jornal local. E, imagine, pela mesma altura, fiz até um ou outro apontamento para a Rádio Santiago. Depois disso, quase não tendo presenciado sessões daquele órgão, fui-me mantendo informado sobre o que por lá se passava. Far-me-á, assim, estou em crer, a justiça de pensar que sei daquilo que falo.

4. Sabemos todos que a grande maioria das deliberações tomadas na Assembleia Municipal o são por unanimidade. E que a maior parte dos correspondentes assuntos pouco ou nenhum interesse desperta em quem a elas assiste. Sabemos todos que é assim, não adianta negá-lo.

5. Daí que se compreenda que, de ordinário, a esmagadora maioria dos munícipes – entre os quais eu me incluo – tenha mais que fazer, e isto sem qualquer ponta de hedonismo. Estar com a família, ir ao cinema ou ao teatro, ler um livro, ouvir um disco. E ninguém lhes pode levar a mal. Há coisas que são necessárias, que são úteis, que são nobres. Como as sessões da Assembleia Municipal. Mas, só por si, isso não as torna agradáveis ou estimulantes.

6. Por isso, se quer que lhe diga – e assumo a plena heresia do pensamento politicamente incorrecto –, não vejo nenhum drama na fraca presença do público nas reuniões da Assembleia Municipal. É uma questão básica de liberdade individual numa sociedade livre. Pretender algo mais pode até levar-nos a cair num paternalismo de que não estarão isentas as palavras da Dr.ª Odete Graça, quando esta diz, na entrevista ao “Notícias da Zona”, que “ainda há muita gente que não percebe qual é a função duma Câmara, duma Assembleia Municipal, duma Junta de Freguesia”.

7. Seja como for, e esta é que é verdade, a lei – que é uma lei da Assembleia da República, a casa da democracia – não concede propriamente a participação dos munícipes na Assembleia Municipal.

8. Como eu já referi no meu “post”, limita-se a permitir que, encerrada a ordem de trabalhos, os munícipes possam intervir para solicitarem esclarecimentos que lhe serão prestados.

9. E aqui, meu caro leitor que assina V., só há uma de duas: ou os esclarecimentos têm a ver com assuntos abordados na reunião (digam eles respeito em exclusivo à Assembleia ou tenham também que ver com a Câmara), e então impõe-se, pela natureza das coisas, que os esclarecimentos sejam prestados a posteriori, pois ninguém pode esclarecer o que ainda não aconteceu; ou têm a ver com outros assuntos, que normalmente dizem respeito, em exclusivo, à actividade camarária – e a experiência das assembleias, como o caro leitor que assina V. deve saber, tem vindo a prová-lo à saciedade –, e então não se vê particular necessidade de que esses esclarecimentos sejam prestados na Assembleia Municipal, tanto mais que a lei prevê a possibilidade de os mesmos serem prestados nas reuniões públicas da Câmara Municipal (art.º 84.º, n.º 5, da Lei das Autarquias Locais). Isto sem contar, claro está, com o facto de os vereadores atenderem semanalmente os munícipes.

10. Seja como for, caro leitor que assina V., estamos sempre, e só, a falar de esclarecimentos, não da participação dos munícipes. Pretender o contrário, caro leitor que assina V., pode agradar a certos ouvidos, mas é semear a ilusão, e nada mais do que isso… a não ser que se tenha em mente a subversão da ordem democrática… É que a lei – que, como vimos, foi emanada da casa da democracia –, no n.º 4 do já citado art.º 84.º proíbe a qualquer munícipe intrometer-se nas discussões e aplaudir ou reprovar as opiniões emitidas, as votações feitas e as deliberações tomadas, sob pena de sujeição à aplicação de coima de 20 000$ até 100 000$ pelo juiz da comarca, sob participação do presidente do respectivo órgão e sem prejuízo da faculdade ao mesmo atribuída de, em caso de quebra da disciplina ou da ordem, mandar sair do local da reunião o prevaricador, sob pena de desobediência nos termos da lei penal.

11. E não custa compreender que assim seja, pois o legislador, porventura ainda lembrado das dramáticas circunstâncias em que foi aprovada a Constituição de 1976, terá querido impedir qualquer forma de ameaça ou de constrangimento que ponha em causa a liberdade dos membros da assembleia.

12. Só para terminar, meu caro leitor que assina V., depois dos acontecimentos a que assisti, junto à assembleia de voto de Sesimbra, nos dias 8 e 9 de Outubro do ano passado, devo dizer-lhe que bem avisado andou o legislador.

13. Como V., não falamos de cor.

As solidariedades do "Raio de Luz"

Os nossos leitores já terão, por certo, reparado no interesse com que, habitualmente, acompanhamos a imprensa local. Isso explica que, de quando em vez, haja coisas que nos saltem à vista, e que gostamos de partilhar com quem nos visita, como motivo de reflexão. É esse o caso de um dos pontos do editorial do último “Raio de Luz” (de 26 de Fevereiro), assinado pelo seu director, José Pedro Xavier, trecho que, para melhor esclarecimento, passamos a transcrever na íntegra:

“2. Dizem as más línguas politiqueiras que este jornal não deveria continuar a conceder espaço ou cobertura ao Senhor Arqt.º Augusto Pólvora. Não percebemos esta observação e achamo-la descabida. Se já era colunista/colaborador deste jornal, porque razão havíamos de suspender a publicação dos seus contributos?
“Será que é incompatível o cargo de Presidente da Câmara com o de cidadão que tem o direito de ter opinião?
“Enquanto cá estivermos e continuar a merecer a nossa confiança, o Senhor Arquitecto Augusto Pólvora, contará com o seu espaço e com a nossa solidariedade institucional e colectiva. Quando tivermos que lhe dizer ou fazer qualquer reparo ou crítica, falo-emos sem receios nem medos. Ponto final.”

Permita-me, porém, agora o senhor director do “Raio de Luz” que acrescente alguns parágrafos ao seu apressado ponto final. E, assim sendo, vamos por partes:

1 - O Arqt.º Augusto Pólvora, enquanto Presidente da Câmara, tem o direito de expressar as suas opiniões em artigos de imprensa. Isso é inegável, tanto do ponto de vista jurídico como do ponto de vista ético, ainda que a alguns possa parecer deslocado que o Arqt.º Pólvora utilize a sua coluna do “Raio de Luz” para se pôr a fazer relatórios pormenorizados da actividade, presente e futura, da câmara municipal, como acontece neste último jornal.

2 – O que, no texto do editorial citado, conviria esclarecer, em primeiro lugar, é em quem deposita o director do “Raio de Luz” a sua confiança. No cidadão Augusto Pólvora ou no Presidente Augusto Pólvora?

3 – A dúvida é tanto mais pertinente quanto José Pedro Xavier faz depender da manutenção dessa confiança, não só o espaço do Arqt.º Pólvora no jornal, como a “solidariedade institucional e colectiva” que o director do “Raio de Luz” lhe presta.

4 – Que a confiança, por natureza pessoal, do director do jornal tenha por destinatário o colunista, e não o edil, Augusto Pólvora, ainda se aceita. Mas a solidariedade “institucional” só parece ter algum sentido se for dispensada ao Presidente da Câmara. Pois não acrescenta ainda o director do “Raio de Luz” que quando tiver que dizer ou fazer qualquer reparo ou crítica ao Arqt.º Pólvora, o fará sem receios nem medos? Mal se perceberia a necessidade desta explicação pública se aqui apenas estivesse em causa a relação, do foro interno do jornal, entre o seu director e um mero colaborador…

5 – E, assim sendo, gostaria de tentar perceber o que vem a ser a solidariedade “institucional” e “colectiva” do director do “Raio de Luz” para com o Arquitecto Pólvora. Melhor: em que é que essa dupla solidariedade se traduz?

6 – A avaliar pela terminologia empregada, haverá até quem possa ser levado a pensar que José Pedro Xavier parece olhar para o concelho de Sesimbra como se este fosse uma pequena república presidencialista, em que ele, director do “Raio de Luz”, é o chefe de estado e o Arqt.º Pólvora o primeiro-ministro.

7 – E o Arqt.º Pólvora, que pensará ele de tudo isto? Não se sentirá incomodado? E os responsáveis dos outros jornais locais?